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10.06.09

Jorge Luis Borges amava sua cidade natal, Buenos Aires, da qual uma vez disse que a considerava “tão eterna quanto a água e o ar”. A ela dedicou dezenas de poemas. Em diversos contos a cidade é o cenário de suas tramas fantásticas.
Segundo o jornalista Carlos Zito - especialista no autor de “O Aleph” - “Borges recriou Buenos Aires de acordo com uma imaginação profícua capaz de envolver o bairro de Palermo em um paradoxo metafísico, uma esquina de San Telmo em um pesadelo...e a Praça Once em um incomparável inferno!”.
Aqui segue um brevíssimo panorama da geografia 'pessoal' borgiana (em breve faremos outro guia, sobre a Buenos Aires dos contos de Borges).
AS CASAS DA INFÂNCIA - Borges nasceu em 1899 em uma casa da rua Tucumán, 840. A casa não existe mais, embora sua substituta ostente uma placa de bronze comemorativa. Dois anos depois, sua família mudou-se ao bairro de Palermo, na rua Serrano, 2147, onde moraria até os 13 anos, quando partiria para a Europa. Ali passou os anos mais felizes de sua vida, especialmente na biblioteca de seu pai. “De fato, às vezes penso que nunca saí dela. Ainda posso vê-la”, escreveu Borges anos depois.
O bairro onde estava, Palermo, seria o palco de inúmeros contos e ensaios. Na sua juventude era um subúrbio relativamente rude, onde ainda sobreviviam alguns tipos que serviriam para seus relatos: bandidos, jogadores de cartas, músicos e assassinos. O bairro estava povoado por homens cujo sentido da honra estava tão vinculado à coragem física que pareciam saídos de uma saga medieval. Nas ruas de Palermo Borges teve seus primeiros contatos com o tango e a milonga. E com o vasto material que serviria para sua mitologia de Buenos Aires.
APARTAMENTO DA CALLE MAIPÚ - No mesmo ano em que publica “Ficções”, em 1944, os Borges mudam-se à rua Maipú, 994, apartamento 6B. Ali, o escritor morará durante 41 anos. O apartamento era mínimo: um exíguo hall, uma sala de visitas que se prolongava na sala de jantar, o quarto da mãe de Borges (que faleceu nos anos 70), e o quarto de Epifanía Uveda (conhecida como “Fani”), a eterna e fidelíssima governanta da família.
Borges dormia na sala, protegendo sua intimidade com um biombo. Com a morte de sua mãe, o escritor, já septuagenário, conseguiu ter um quarto próprio.
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, que o visitou em 1981, descreveu seu quarto “é como uma cela: estreito, com uma cama tão frágil que parece de criança, e uma pequena estante cheia de livros anglo-saxões”.
O quarto também possuía uma velha cadeira cinza com o estofado pintado com uma “Dame à la Licorne” de autoria de sua irmã Norah, duas aquarelas de Xul Solar. Também havia uma emblemática gravura de Piranesi, ilustrando um labirinto.
Nesse apartamento Borges ditou à sua mãe suas principais obras: “O Aleph”, “Outras Inquisições”, “O Informe de Brodie”, “Os Conjurados”, entre outros.

Amigo: 'E agora?'
Borges e Bioy Casares: 'E agora nada...é aqui!'
PUENTE ALSINA - Borges e seu inseparável amigo e escritor Adolfo Bioy Casares apreciavam a desolação da ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires (que liga a capital com o município de Lanús). Eles se deleitavam com a fama de bairro de malandros e pessoas armadas de facões.
Um ano antes de morrer, Bioy Casares me disse que “as vezes levávamos algum intelectual recém-chegado da Europa a Ponte Alsina. Sempre perguntavam ‘E agora?’. Respondíamos: ‘E agora nada’. E explicávamos: ‘É isto aqui’. Gostávamos dali, não sei porquê...Durante um ano, fomos todas as noites até ali”.

Borges e seus amados livros, na Biblioteca Nacional
BIBLIOTECA NACIONAL - Quando o Peronismo chegou ao poder Borges foi afastado de seu cargo em uma biblioteca e colocado como “inspetor de galinhas nas feiras públicas”. Com a queda do presidente general Juan Domingo Perón em 1955, Borges foi redimido e nomeado diretor da Biblioteca Nacional, situada até o começo desta década na rua México 564.
O novo trabalho recuperou para Borges um velho e esquecido prazer: frequentar a zona sul da cidade. No começo, Borges ainda podia enxergar e ler os títulos dos livros.
Mas, três anos depois, já não via nada. E assim, escreveu o “Poema dos dons”: “Ninguém rebaixe à lágrima ou acusação/ esta declaração do poder/ de Deus, que com magnífica ironia/ me deu ao mesmo tempos os livros e a noite”.
Em “O Livro de Areia”, Borges, personagem ele mesmo de um conto seu, esconde o perverso livro de páginas infinitas que perturbava sua mente. À sua amiga Maria Esther Vázquez uma vez confessou: “em qualquer lugar do mundo onde esteja, sonho com a Biblioteca Nacional...ela é infinita e me pertence”.

Mausoléu da família Borges, no cemitério da Recoleta (foto de Ariel Palacios)
CEMITÉRIO DA RECOLETA - Neste aristocrático cemitério, no mausoléu da família, Borges esperava passar a eternidade. No entanto, hoje repousa em Genebra. “Aqui está a recatada morte portenha”, disse o escritor sobre La Recoleta. Borges gostava de passear pelo cemitério, onde estão enterrados os principais nomes da História do país.
Em “Fervor de Buenos Aires”, escreveu: “Belos são os sepulcros, /o nu latim e as travadas datas fatais, / a conjunção do mármore e da flor / e as pracinhas com frescor de pátio/ e os muitos ontens da História / hoje detida e única”.

Bom feriado! Bons passeios!
E de brinde, um poema de Borges, o já citado 'Fundación mítica de Buenos Aires':
¿Y fue por este río de sueñera y de barro
que las proas vinieron a fundarme la patria?
Irían a los tumbos los barquitos pintados
entre los camalotes de la corriente zaina.
Pensando bien la cosa, supondremos que el río
era azulejo entonces como oriundo del cielo
con su estrellita roja para marcar el sitio
en que ayunó Juan Díaz y los indios comieron.
Lo cierto es que mil hombres y otros mil arribaron
por un mar que tenía cinco lunas de anchura
y aún estaba poblado de sirenas y endriagos
y de piedras imanes que enloquecen la brújula.
Prendieron unos ranchos trémulos en la costa,
durmieron extrañados. Dicen que en el Riachuelo,
pero son embelecos fraguados en la Boca.
Fue una manzana entera y en mi barrio: en Palermo.
Una manzana entera pero en mitá del campo
expuesta a las auroras y lluvias y suestadas.
La manzana pareja que persiste en mi barrio:
Guatemala, Serrano, Paraguay y Gurruchaga.
Un almacén rosado como revés de naipe
brilló y en la trastienda conversaron un truco;
el almacén rosado floreció en un compadre,
ya patrón de la esquina, ya resentido y duro.
El primer organito salvaba el horizonte
con su achacoso porte, su habanera y su gringo.
El corralón seguro ya opinaba YRIGOYEN,
algún piano mandaba tangos de Saborido.
Una cigarrería sahumó como una rosa
el desierto. La tarde se había ahondado en ayeres,
los hombres compartieron un pasado ilusorio.
Sólo faltó una cosa: la vereda de enfrente.
A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires:
La juzgo tan eterna como el agua y como el aire.
Ahá! E de brinde especial, para aqueles que chegaram até esta parte, o próprio Borges recitando o poema, após uma breve introdução.
Aqui, neste link do Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=gjtwcD8J5xU
Bom, e para completar esta saborosa overdose borgiana, mais uma do autor de "El Aleph"... uma gravação, em branco e preto, de sua conferência em Buenos Aires sobre a cegueira.
O link do Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=6f1qryPPVFI&feature=related
.............................................
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Comentários:
Comentário de: Cristina [Visitante]
11.06.09 @ 14:55Ariel,
Tenho acomapanhado o blog, você está de parabéns!
Além de Borges, Casoy, Sábato, gosto muitíssimo de Cortázar, e do moderno Andahazi.
Seus posts são muito bem escritos, e sua gentileza para com os 'comentaristas' fazem a diferença.
Comentário de: Fabri [Visitante]
11.06.09 @ 15:47Ariel,
Excelente texto. Assim como aguardo o texto sobre Cd. Evita (Ah!, falei com ele, ele me disse do q se trata, não escrevo aq pra não estragar nenhuma surpresa, mas é a cara do post sobre o simbolismo q Perón tanto apreciava), agora espero o "guia dos contos". Será q rola antes do dia 09/07, q tô indo pra lá! hehe Folgado eu heim?!
Aliás, a Serrano ali depois da pracinha virou Borges, não? E pelo q está no texto, os peronistas eram legais com ele, então, a frase ("os peronistas não são nem bons nem maus - são incorrigíveis") a ele atribuída é lenda urbana?
Abçs e td de bom aí
Fabri
Comentário de: Yoko [Visitante]
11.06.09 @ 19:47Ficou um post muito bonito, Ariel.
A foto do cemitério é seu?
A decisão de enterra-lo em Genebra foi da viúva? Será que ele não estaria mais feliz junto com a família, sua terra, no local onde "esperava passar a eternidade"?
Comentário de: Ariel [Membro]
11.06.09 @ 20:14Cara Cristina, muito obrigado pelo comentário! E muitíssimo obrigado pelo elogio!!
O Federico Andahazi tem uma história peculiar, pois seu primeiro livro foi premiado e despremiado quase que ao mesmo tempo. Ele ganhou o prêmio, mas quando Amália Fortabat, dona da fundação que havia concedido a honraria (e o prêmio em dinheiro) soube que o livro tratava da identificação médica do clítoris, exigiu sua 'despremiação'.
Caro Fabri, os peronistas aplicaram baitas sacanagens com Borges! Por isso, sua frase irônica, que é verdadeira: "os peronistas não são bons nem ruims...são incorrigíveis!"
Exato: no bairro de Palermo, mais especificamente na área denominada "Palermo Soho" (que no início dos anos 90 era a 'Palermo Sensible'), a partir da Praça Julio Cortázar, a rua Serrano muda de nome e passa a chamar-se Borges.
Cara Yoko, sim a foto do cemitério é minha. Ainda bem que você comentou isso, pois eu tinha esquecido de colocar meu próprio crédito! Obrigado!
Borges morreu em Genebra.
E a decisão de enterrá-lo em Genebra foi de Maria Kodama-Borges, sua ex-aluna e breve esposa (esteve casada com ele no último ano de vida do escritor...casamento que foi feito no Paraguai, por procuração, em circunstâncias estranhas, que valem a pena uma postagem).
Ela afirma que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado na neutra Suíça.
Mas, os amigos de Borges (aqueles que ainda estão vivos), em uníssono, afirmam que Georgie – como o chamavam carinhosamente – queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente, na Recoleta, no mausoléu de sua família.
Acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno em La Recoleta.
Bom jantar a todos!!! E aproveitem bem o feriado!!
Abraços,
Ariel
Comentário de: Cristina [Visitante]
11.06.09 @ 23:17Ariel,
Eu li este livro do Andahazi, "O Anatomista", não sabia da 'despremiação' ... Que coisa!
Agradeço a informação, gosto destes detalhes e seus posts têm sempre esse 'tempero'.
Abraços
Comentário de: Cláudia [Visitante]
12.06.09 @ 15:04Comprei recentemento a edição número 1 do Jornal de Resenhas que traz um ensaio sobre Borges (sobre o autor e não sobre uma obra em particular) escrito por Sergio Miceli e cujo título é Argentino da Gema. Nesse ensaio Miceli relaciona a obra de Borges com a de autores nacionalistas que o precederam, Leopoldo Lugones, Ricardo Rojas e Manuel Gálvez.
Uns trechinhos:
"A diferença com os predecessores nacionalistas era o modo de equacionar temas e desafios em que se condensavam as trincheiras de orgulho nativista.
Em lugar da patriotada de Lugones, da litania otimista de Rojas ou dos preconceitos de Gálvez, Borges exercitava um magistério inovador. Encampou o nacionalismo cultural, concebendo-o a par das tradições de um país periférico, a braços com a presença imigrante avassaladora.
(...)
O ensaísmo borgeano ergueu uma tradição literária autóctone, acoplada a certa história revisionista.
(...)
Até os escritos estéticos apelam ao resgate da flama telúrica, retemperado pelo caudilhismo rosista."
O que Miceli escreveu, Ariel, é confirmado nos trechos que você destacou e torna ainda mais estranha essa história de Borges de ser enterrado em Genebra. Será que ele se decepcionou tanto com o país de origem para tomar essa decisão?
Comentário de: Livia Stevaux [Visitante]
12.06.09 @ 15:46Ariel:
Como sempre uma exelente postagem! Adorei a geografia de Borges e minha tarde de sexta ficou mais divertida depois de ver a conferencia sobre a cegueira no yutube.
Engracado é que desde que comecei a acompanhar o blog sei mais da Argentina que muitos argentinos amigos meus...
Bom feriado para voce tambem (segunda: feriado "corrido")
Comentário de: Alex [Visitante]
12.06.09 @ 16:38Caro Ariel
Moro perto de Genebra, onde Borges está enterrado. Acho que muito pouca gente que passa pelo local sabe que ali bem perto jaz um dos maiores personagens da América do Sul.
De qualquer forma, este mausoléu da família que você fotografou em Buenos Aires é bem mais suntuoso que a placa fúnebre em Gèneve, onde dificilmente consegue-se ler o nome dele.
Mas, bem como o apartamento onde viveu a maior parte da vida na 'calle' Maipú, sua sepultura também tinha que ser simples, para contrastar com seu espirito grandioso e sofisticado.
Abs.
Comentário de: carlos 3m [Visitante]
12.06.09 @ 17:25
pelo visto o borges tambem arrumou sua yoko ono.
Comentário de: marceletti [Visitante]
12.06.09 @ 18:12Excelente! Obrigado mesmo, de um portenho num fim de tarde meio portenho em São Paulo
Comentário de: francisco [Visitante]
12.06.09 @ 18:24prezado ariel;
espero que apareça alguma coisa do lendário "La Cabaná " já que ele morava na tucuman.
abraço
Comentário de: SôRamires [Visitante] · http://cornetaacustica.blogspot.com
12.06.09 @ 21:45Há 15 anos resolvi morar em Buenos Aires e comprei um apartamentinho na Calle Serrano y Sta Fe. Com vista ao Rio, ao Botânico e Zoológico.
Minha maior alegria foi quando meu trecho da rua passou a chamar-se Jorge Luis Borges. Naquele tempo nem todo mundo usava internet e cada vez que eu escrevia uma carta tinha que escrever ao lado do meu nome o nome do meu amado Borges. Também tenho na vizinhança a Placita Cortázar. Nada mais coerente. Amo os dois.
Comentário de: Tradutor [Visitante]
13.06.09 @ 00:55Caro Ariel
Não só o texto completo é interessante e bem informado como o desfecho é uma verdadeira filigrana da emoção, levando-nos para a voz do Borges lendo "A fundação mítica de Buenos Aires", poema com o qual nasci à vida literária borgiana no segundo grau.
Comentário de: Luiz Bertotti [Visitante]
13.06.09 @ 01:56Talvez Maria Kodama tenha se preocupado com a instabilidade politica argentina ao sepultar Borges em Genebra. Uma instabilidade que não dá sossego nem aos mortos (veja-se a peregrinação do corpo de Evita e o roubo nunca solucionado das mãos de Perón). De "gênio da raça" Borges poderia ser rebaixado a inimigo post-mortem de algum novo regime, e vai se saber o que fariam com o mausoléu de La Recoleta.
O Marceletti falou em "fim de tarde meio portenho em São Paulo" e reforça aquilo que muitos "irmãos e hermanos" pensam: há muito mais em comum entre as duas cidades do que sonha nossa vã filosofia. Vale um monte de postagens.
Comentário de: Ariel [Membro]
15.06.09 @ 09:40Cara Claudia, pelo visto Borges não tomou uma determinação explícita de ser enterrado fora do país. Tudo indica que foi Maria Kodama quem tomou essa decisão.
Cara Lívia, é impressionante mesmo ver as palestras do Borges, não é? Sua capacidade de transmitir conceitos que poderiam ser complicados era fascinante. Uns posts atrás contei como uma vez o Borges proferiu uma palestra para o sindicato dos garis, e ficaram todos encantados!
Caro Alex, ali perto do túmulo do Borges em Genebra poderá ver que estão enterrados o Erasmo de Rotterdam e o Calvino (o fundador do Calvinismo, não o Ítalo)
Caro Carlos, pois é, Kodama é mesmo encarada como uma versão da Yoko Ono na Recoleta...uma 'versão', fique claro...
Caro Marceletti, o prazer é meu!!!
Caro Francisco, refere-se ao emblemático restaurante de carnes? Se for sobre isso, estava mesmo pensando em uma postagem sobre alguns restaurantes da cidade...o novo La Cabaña está na rua Rodríguez Peña, quase esquina com a avenida Alvear.
Cara So Ramires, excelente localização! Uma área muito bonita! Hehehehe...excelente oportunidade para escrever teu nome ao lado do nome do autor de "O Aleph". A pena é que a internet praticamente acabou com essa possibilidade. Quando viajo, sempre faço questão de enviar os velhos postais aos amigos e família.
Caro Tradutor, muito obrigado pelo comentário!!!
Caro Luiz, no caso da Kodama, tudo indica que - mais do que preocupação política - era mesmo uma briga pela herança com os sobrinhos do Borges e a empregada do escritor, Fanny Uveda. Mas, já explicarei essa briga em breve...e sobre a frase do Marceletti, 'um fim de tarde meio portenho' em SP, foi um comentário muito bonito mesmo.
Hoje temos postagem sobre Cortázar!
Abraços, e bom início de semana!
Ariel
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Ariel Palacios é correspondente em Buenos Aires de O Estado de S.Paulo. Master em Jornalismo pela Universidad Autónoma de Madrid/Jornal "El País".
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