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08.02.10

Kirchner é considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa
Foi breve, mas impactante. Durante quase três horas a classe política argentina ficou pendente da carótida direita do “primeiro-cavalheiro”, isto é, o marido da presidente Cristina Kirchner, o ex-presidente e atual deputado Néstor Kirchner.
A carótida de Kirchner – soube-se mais tarde – estava obstruída por uma placa ulcerada.
Entre os primeiros rumores sobre sua internação e o final da operação, concluída com sucesso pelos médicos, o governo viveu horas de elevada tensão, já que Kirchner não é um primeiro-cavalheiro qualquer, pois é o homem mais poderoso do país, o verdadeiro poder no governo de sua esposa, Cristina. Para complicar, diversos rumores que circulavam no hospital indicavam que o ex-presidente havia sofrido um AVC.
Seu eventual falecimento teria evidenciado a fragilidade do governo de Cristina Kirchner, já que é o ex-presidente quem emite as ordens de comando. Kirchner reúne-se com os ministros de sua esposa (vários deles herdados de sua presidência), recebe líderes sindicais para fechar acordos, além de empresários.
Antes da operação, o primaz da Argentina, o Cardeal Jorge Bergoglio, havia enviado um sacerdote ao hospital para fornecer a Kirchner a “unção dos doentes”.
No entanto, Kirchner – que há anos mantém um tenso conflito com a cúpula da Igreja Católica - recusou-se a receber a unção.
A cirurgia – que durou pouco mais de uma hora – foi encerrada com o sucesso dos médicos. Pouco depois do final da operação, o chanceler Jorge Taiana afirmou à imprensa que a cirurgia concluiu “bem”. Kirchner ficaria em terapia intensiva 48 horas. “Poderá levar uma vida normal”, disse o médico Victor Caramutti, que operou Kirchner.
O homem mais poderoso da Argentina – e também um dos mais impopulares – havia começado a passar mal de manhã, quando sentiu as pernas adormecidas. Na sequência, sentiu adormecimento nos braços.
Kirchner foi internado no Hospital de Los Arcos, no bairro de Palermo, instituição onde já estiveram o técnico Diego Armando Maradona e a cantora Mercedes Sosa, falecida recentemente.
A operação coincide com uma época de elevada tensão para o casal Kirchner, suspeito de casos de corrupção e acusado de enriquecimento ilícito. De quebra, o casal sofreu várias derrotas políticas.
A presidente Cristina Kirchner estava no hospital no momento da operação, acompanhada por seus filhos Máximo e Florencia. Todo o gabinete de ministros de Cristina, praticamente o mesmo de seu antecessor e marido, também esteve no hospital aguardando o final da cirurgia.
Coincidentemente, a presidente Cristina havia perguntado pela saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante um encontro que teve com o chanceler Celso Amorim, na semana passada, em Buenos Aires.
Cinquenta militantes kirchneristas aglomeravam-se nas portas do hospital segurando cartazes com dizeres de estímulo ao ex-presidente e desenhos de pinguins.

Ilustração da carótida nesta ilustração de Henry Gray, de 1858. Trata-se do "Gray's Anatomy".
INTESTINOS
A ida apressada de “El Pingüino” (O Pinguim), como é chamado popularmente, ao hospital por causa da carótida chamou a atenção dos argentinos, já que estes somente tinham conhecimento dos problemas intestinais do ex-presidente.
No início dos anos 80, antes de iniciar sua carreira política, Kirchner foi operado de pólipos no cólon.
Em 2004, menos de um ano após ter tomado posse como presidente, Kirchner sofreu uma hemorragia no duodeno.
A biógrafa não-oficial do casal Kirchner, a jornalista Olga Wornat, indicou no livro “Reina Cristina” (Rainha Cristina) que Kirchner quase morreu naquele ano.
Wornat relata como Cristina Kirchner, na época senadora, lhe confessou que havia sentado sobre a tampa do vaso sanitário do banheiro da sala de enfermeiras do hospital da pequena cidade de Río Gallegos, no extremo sul da Argentina, enquanto cobria seu rosto com as mãos e chorava sem consolo.
Enquanto ela chorava, o presidente Kirchner, estava naquele momento internado na sala vizinha por causa de uma gravíssima hemorragia.
Na época da operação, os médicos anunciaram que o presidente havia tido uma gastroduodenite sem maior gravidade provocada pelos anti-inflamatórios que ingeriu para aliviar uma dor de dente.
Mas, segundo Wornat, naquela operação em 2004, Kirchner perdeu dois litros e meio de sangue. Os médicos, desesperados, não conseguiam deter a hemorragia. Finalmente, após uma tensa operação, Kirchner recuperou-se.
Segundo Wornat, Cristina Kirchner lhe explicou porque manteve silêncio nos dias em que seu marido esteve internado: “não falei porque não tinha vontade...mais além de ser o presidente, antes de tudo é meu marido”.

CARÓTIDAS PRESIDENCIAIS
Dois antecessores de Kirchner tiveram o mesmo problema de saúde. Em 1993 o então presidente Carlos Menem (1989-99) foi operado da carótida. Na época, os mercados ficaram tumultuados, já que o país estava em plena etapa de privatizações. O ministro da Economia, Domingo Cavallo, teve que aparecer diversas vezes na televisão para acalmar os ânimos sobre os rumos da economia, caso Menem ficasse inabilitado para governar.
“El Turco”, como Menem era conhecido popularmente, ficou internado durante quatro dias. Ele até aproveitou sua convalescência para dar o pontapé inicial em negociações que permitiram, um ano depois, alterar a Constituição, de forma a permitir a reeleição.
Em 2001 foi a vez do presidente Fernando De la Rúa. A obstrução na carótida do presidente ocorreu em meio à grave crise econômica e à fuga de divisas que levaria ao colapso da economia argentina no final daquele ano. Coincidentemente, mais uma vez, Cavallo era o ministro da Economia.

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Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
03.02.10

Faça o que digo, mas não faça o que eu faço: Néstor C. Kirchner defende verbalmente a moeda nacional, o peso, já que ressalta que o governo da esposa é 'Nacional y Popular'. Mas, na prática, compra dólares – a moeda do “Império” - como investimento.
“Para reduzir os preços é preciso acabar com esses sem-vergonhas dos especuladores!”. A frase, pronunciada no final de agosto de 2008, é da autoria do ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina Kirchner e atual deputado. No entanto, um mês e meio depois, em outubro, poucas semanas após a falência do banco Lehman Brothers, que deu início à maior crise financeira mundial desde o crack da Bolsa de Nova York em 1929, Kirchner ia na contra-mão de suas afirmações e investia na moeda americana ao adquirir US$ 2 milhões em divisas.
Deputados da Coalizão Cívica, o segundo maior partido da oposição, de centro-esquerda, solicitaram nesta quarta-feira à Justiça que investigue o ex-presidente pela suspeita de ter usado “informação privilegiada” e de "enriquecimento ilícito".
A compra de divisas, até o montante adquirido por Kirchner, não é ilegal (sempre que for declarada). No entanto, foi considerada “imoral” e “brutalmente antiética” pelos líderes da oposição.
Os aliados de Kirchner estavam desorientados, pois não encontravam argumentos para defender a decisão do ex-presidente – que apresenta-se como um defensor da causa “Nacional e Popular” - de preferir investir na moeda americana e não nos pesos, a moeda nacional.
A divulgação da compra de US$ 2 milhões, feita no fim de semana pelos jornais “Perfil” e “Clarín” gerou novas turbulências políticas em Buenos Aires. O casal Kirchner, afetado pela constante queda de popularidade, não teve outro remédio do que admitir a aquisição das cinzento-esverdeadas cédulas provenientes daquilo que seus eles próprios e seus aliados chamam de “O Império” (os EUA). Na segunda-feira, o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, e o ministro da Economia, Amado Boudou, alegaram que a compra de dólares havia sido “totalmente dentro da lei”.
HOTELEIRO
em meio à polêmica, Kirchner na terça-feira defendeu-se sobre a compra de US$ 2 milhões.
O formato do argumento de Kirchner foi sui generis, já que tratou-se de um e-mail que enviou a um dos mais famosos jornalistas em Buenos Aires, o uruguaio Victor Hugo Morales, no qual explicava que adquiriu essa quantia em moeda americana para comprar o pacote acionário da companhia Hotesur S.A., proprietária do Hotel Altos Calafate.
Segundo o ex-presidente transformado em hoteleiro, todo o dinheiro foi usado para a compra das ações. Kirchner argumentou que não teve “benefícios cambiais”.
Mas esta não foi a única vez que Kirchner optou pela moeda americana. Segundo a declaração de bens do casal, divulgada no ano passado pelo Departamento Anticorrupção, em 2008 o casal fez diversas aplicações financeiras. Destas, 62% estavam em dólares.
De forma geral, a declaração de bens do casal indica que desde 1999 a maior parte dos depósitos bancários do casal Kirchner estiveram em dólares.
Pouco antes da implantação do “corralito”, o mega-confisco bancário do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa, os Kirchners retiraram a totalidade de suas economias em cash – no total de US$ 1,8 milhão (que por causa da conversibilidade econômica equivaliam a 1,8 milhão de pesos) - e a colocaram em uma conta corrente do Deutsche Bank, nos EUA. Em 2002, após a desvalorização do peso, os Kirchners trouxeram suas economias de volta ao país. Nessa ocasião, o dinheiro que haviam colocado a salvo da crise no exterior valia, ao retornar 6,2 milhões de pesos.
O jornal portenho “Perfil” fez uma lista de cinco pontos obscuros no argumento de Kirchner para defender sua compra de US$ 2 milhões. Clique aqui.

Ao investir em dólares, Kirchner, ex-presidente, atual deputado, primeiro cavalheiro e hoteleiro, indica que não confia na administração do governo da própria esposa, Cristina E. F. de Kirchner. Uma raríssima nota de 500 dólares, emitida em 1943, com a efígie do presidente William McKinley
O ensaísta e ex-ministro da Cultura, Marcos Aguinis, autor de “O atroz encanto de ser argentino”, criticou o comportamento especulativo do ex-presidente: “comprar US$ 2 milhões em um momento de crise e incertezas, aproveitando a informação que possui constitui um insulto para aquelas pessoa que ele diz proteger e defender”. Além disso, sustenta Aguinis, “é uma confissão da minúscula confiança que o ex-presidente tem em nosso país, nossa moeda e nossa própria administração”.
Na ocasião da compra dos US$ 2 milhões, em outubro de 2008, o dólar era cotado a 3,15 pesos em Buenos Aires. No final daquele mês, atingia 3,40. No Réveillon daquele ano chegou a 3,47. Ontem (terça-feira) estava em 3,86 pesos e continuava subindo.
O lucrativo investimento de Kirchner, no entanto, poderia ter sido superior. Segundo o ex-presidente do Banco Central, Martín Redrado, em 2008 ele sofreu intensas pressões do governo da presidente Cristina Kirchner para desvalorizar a moeda em grande escala.
A compra de dólares por parte de Kirchner colocaria o ex-presidente em situação equivalente à média dos argentinos, que na hora de cuidar do bolso, acredita mais na moeda americana do que nos pesos.
Depois dos Estados Unidos, a Argentina ocupa o segundo lugar no ranking mundial de dólares nas mãos da população, seguida pela Rússia. Em média, os argentinos possuem US$ 1.300 per capita, volume muito superior aos US$ 550 em média que os russos possuem.
ENRIQUECIMENTO
Segundo dados do Departamento Anticorrupção, a declaração de bens dos Kirchners do ano passado indicava que o patrimônio do casal presidencial havia crescido 158% em 2008, e superava os US$ 12 milhões. Desde a posse de Kirchner em 2003, ocasião na qual declarou que “optava pelos pobres”, o patrimônio do casal aumentou em 572%.
Segundo os dados oficiais, a maior parte da receita do casal presidencial provém dos elevados aluguéis que cobram de casas e apartamentos que possuem na Patagônia, além das aplicações financeiras.
PERÓN, DÓLARES E VÍSCERAS

Fundador do peronismo criticava especulação em dólares. Mas admitia que havia uma ‘víscera’ forte.
“Alguém já viu um dólar?”. Com estas palavras, em 1953, o então presidente Juan Domingo Perón desafiava os integrantes da multidão na Praça de Mayo a confessar se algum deles haviam visto de perto alguma vez a moeda americana, que no pós-guerra começava a despertar o interesse dos argentinos que desconfiavam dos pesos.
O populista caudilho, fundador do Partido Justicialista (Peronista), o partido do casal Kirchner – a quem o consideram seu ídolo e mentor – criticava o “capitalismo ianque” e apresentava-se como defensor de uma “terceira via” equidistante ao capitalismo e ao marxismo.
No entanto, Perón, no início dos anos 70, começou a perceber que a procura desesperada dos argentinos pela moeda americana superava qualquer discurso populista. Em seu exílio em Madri, afirmou com ceticismo: “o bolso é a víscera mais sensível do corpo humano...”.

Nota de um terço de dólar 'continental', de 1776

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01.02.10

Tomás Eloy Martínez, autor de "Santa Evita" e "O voo da rainha", nos deixou neste domingo
Tomás Eloy Martínez, jornalista, escritor e ensaísta argentino, faleceu neste domingo aos 75 anos, após uma longa e persistente luta contra o câncer.
É triste quando alguém que a gente costumava entrevistar com certa frequência, falece. Mais ainda se era um intelectual brilhante. Muito mais ainda se era uma boa pessoa. Esse era o caso de Tomás Eloy, um cavalheiro. E além disso, bem-humorado.
Apesar de ser uma eminência no jornalismo, não era soberbo. Uma vez me ligou – a mim, um simples correspondente - para saber como caminhava e como falava uma sinistra figura (uma pessoa real que eu conhecia) que serviriam de base para um personagem de uma obra sua, uma ficção baseada em um fato real.
Busquei várias das entrevistas que fiz com ele, para colocar no blog neste dia cinzento em Buenos Aires. De todas as que olhei, achei que a mais adequada havia sido a primeira que fiz, em 1995.
Tomás Eloy foi na América Hispânica o que Norman Mailer e Truman Capote - pioneiros do Novo Jornalismo - foram nos EUA.
O peronismo foi a fonte de boa parte de seus relatos. A Nova Novela, prima-irmã da Nova História, seu instrumento.
Tomás Eloy Martínez colocou as biografias históricas na lista dos livros mais lidos na Argentina. Ele optou pela liberdade da literatura para colocar uma lente de aumento na História. “Há detalhes que antes nem considerávamos aptos para notas de rodapé!”, sustentava.
Com essa receita, seu livro “Santa Evita”, permaneceu durante longo tempo na lista dos mais vendidos. De forma novelesca, relatava nesse livro as aventuras do caixão que levava o corpo de Eva Perón.
Em “A Novela de Perón”, romanceou a vida do Ditador argentino. “As Memórias do General” é uma longa entrevista feita com Perón antes de seu retorno ao poder.
Com estas obras Martínez já teve sua cota de peronismo satisfeita: “Minha relação literária com o peronismo fica clausurada com este textos. Meu próximo livro é uma história de amor”, me disse nessa entrevista em 1995.
Aqui segue a entrevista:
Estado - Como podem conviver a História e a Ficção?
Martínez - A Ficção e a História escrevem-se para corrigir o porvir. As fronteiras que havia entre elas hoje são translúcidas. É o caso de “O queijo e os vermes”, de Carlos Guinzburg, do lado da História e “Uma História do mundo em dez capítulos e meio”, de Julian Barnes, do lado da Ficção. O gelo dos dados históricos se derrete com o sol da narração. A primeira narração que ouvi foi a da Independência Argentina, com sua proclamação na Praça de Mayo, em Buenos Aires, cheia de patriotas de fraque e sombrinhas. Não me disseram que a praça era um lamaçal, e que as sombrinhas eram raridades na época e que só havia meia dúzia de pessoas. A História, em geral é um pêndulo fatal, oscilando entre o branco e o preto, que não deixa lugar para os tons cinzas. Mas os cinzas existem, escondidos pelos ciúmes da História. Uma história de minha província relata a saga de uma mulher da alta sociedade, chamada Fortunata, que para salvar da vergonha o crânio de um herói, exposto em praça pública por um tirano, seduziu um guarda e assim pode roubar e esconder a caveira em sua casa para logo lhe dar uma cristã sepultura. A verdade era outra. Há anos descobri, fuçando a correspondência de sua irmã, que essa heroína do século passado ficou com a caveira e com ela brincava na cama, como se fosse uma boneca.
Estado - O que isso tem a ver com peronismo e ficção?
Martínez - O peronismo tem a ver com a forma de como nos contaram a História deste país. O passado e o público, sempre se entrelaçaram de uma forma difusa e profusa na História. Se os arquivos foram construídos por minorias letradas e os poderes ditatoriais, e se a História é uma série de exemplos que escamoteiam a verdade, como negar à novela su versão da História? Nossa realidade por si só é novelesca! Ela precisa ser narrada por elementos mais flexíveis, e complexos. Os documentos são percebidos como autênticos ou falsos dependendo do imaginário do país. Por isso os textos fantásticos de Borges...estão baseados em algo real: a sua enorme erudição. Temos que ver a História como cultura, não só como realidade. É o que a própria História faz com a Literatura.
Estado - De detalhe em detalhe o escritor enche o papo?
Martínez - (rindo) A Nouvelle Histoire se dedica aos personagens, colocando ênfase em detalhes, manias e matizes que antes nem haviam sido consideradas como aptas para notas de rodapé! Apropriando-se desses detalhes a Nova História lhes dá vida, e também a Nova Novela, dando cor aos detalhes, símbolos, mitos, desejos, que já estavam ali. O novelista da História sempre se esforçará por recuperar as mitologias da tradição à qual pertence. A ficção cria uma nova realidade e renova os mitos. Já não importa muito se o que foi, foi mesmo de verdade. A frase mais conhecida de Evita é “Voltarei e serei milhões”. Ela nunca a disse. Veja o perfume póstumo dessas palavras...E, apesar que essa frase foi desmentida, insiste em permanecer como legenda de suas fotos. Para as pessoas que adoram Evita, a frase é verdadeira.

Peripécias do corpo de Evita foram relatadas de forma saborosa em tom de thriller por TE Martínez em "Santa Evita"
Estado - O sr. é um jornalista pertencente ao mesma corrente, a do novo jornalismo, que formou Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailer. Foram testemunhas da História. Como será o trabalho dos futuros historiadores quando analisem esta época, de indefinições ideológicas que vocês nunca viveram?
Martínez - Não será fácil contar o que acontece. Será angustiante narrar o desemprego, se alguma vez sairemos dele, narrar a pobreza, caso a deixemos, ou a corrupção, caso alguma vez nos livremos dela. Tenho a esperança de que a Argentina um dia construirá o destino de grandeza à qual estava prometida em 1910. mas as idas e voltas, os golpes militares, a fragilidade desta democracia fizeram com que as coisas escorressem como água. Espero que no futuro possam os jovens narrar estes anos de desesperança com esperança.
Estado - O peronismo é que suscita tantas novelas ou pode acontecer com qualquer tema?
Martínez - Com qualquer uma. Há maneiras novas de escrever a História. É rica em textos como o de Julian Barnes, autor de “O Papagaio de Flaubert”, é rica em qualquer texto que se proponha com seriedade, contar a História, desde a interioridade do personagem, tratar de desencavar que elementos a História oficial ocultou. No caso do peronismo é muito rico porque se escondeu muita coisa sobre o tema.
Estado - Até que ponto o escritor pode criar em cima dos detalhes da vida de uma pessoa real? Dizer que Evita ou Marilyn Monroe – que eram castanhas de nascimento – nasceram loiras, não fazem que o leitor que sabe que não foi assim, sinta-se traído?
Martínez - Se o que está sendo escrito é uma novela, deve-se trabalhar sobre o verossímil. Se você descobre um elemento que é falso, a novela perdeu-se. Se descobre que Evita ainda em 1935 era morena e o autor diz que é loira, a obra cai, por melhor que seja o livro. As novelas trabalham sobre a verossimilhança, da mesma forma que a História trabalha sobre a verdade. São dois elementos diferentes. A novela é como um filme. No cinema temos que acreditar que tudo é verdadeiro. Se numa cena um personagem entra por uma porta com uma gravata amarela e ao fechar a porta ela é vermelha, o espectador não acredita mais na história. A História trabalha sobre a verdade: a construção de documentos.
Estado - É a mesma relação que existe entre “A Novela de Perón” e “As Memórias do General”?
Martínez - Descubra em “As Memórias do General” um só elemento falso. E em “A Novela de Perón” eu o desafiaria que descobrisse um só elemento inverossímil.
Estado - Em seu próximo livro continuará investigando o peronismo ou irá para outro lado?
Martínez - Depois de “A Novela...”, que é de 1985, pensava que minha relação literária com o peronismo havia terminado, até que um dia o Brigadeiro Jorge Rojas Silveira me introduziu em algo que nos anos 60s era o mistério nacional: onde estava o cadáver de Eva Perón. A fascinação a que fui submetido era algo difícil para um novelista escapar. E assim escrevi “Santa Evita”. “As Memórias...” são um texto documental que estavam prontas desde 1975. Minha relação literária com o peronismo fica clausurada com este textos. Meu próximo livro é uma história de amor.

Estado - Quando escreve a novela histórica existe a possibilidade, o risco, de cair no compromisso ideológico e de ser um pouco poético. O que faz para evitá-lo?
Martínez - Deixo que meu coração fale para mim com lealdade, e tento refletir o que minha consciência diz que devo fazer, e ela diz: “sê fiel a ti mesmo”. Cada um dos livros que escrevi reflete o mais alto grau de honestidade que um homem pode alcançar.
Estado – Fica plenamente satisfeito quando conclui a escritura de uma ficção sobre a História?
Martínez - Gosto de uma ideia: as ficções sobre a História e as denúncias das imposturas da História feitas desde o poder. As ficções sobre a História recuperam os sonhos de uma comunidade, e porque permitem que esses sonhos regresem à comunidade, transformados em cultura e tradição. Em “Santa Evita” tentei recuperar a essência mítica de uma personagem central na História argentina, reunindo num só texto tudo o que os argentinos havíamos imaginado e sentido sobre Eva Perón. Esse livro não está terminado, nunca poderia estar, porque as tradições e os mitos são um tecido, cujos fios mudam incessantemente a forma e o sentido do desenho. Isso é o mais importante que acontece com os livros que escrevemos sobre a História. Há livros que nunca terminam de ser lidos, nem de ser escritos, porque a História é como um rio, está num movimento incessante. As mãos que movem esse tear da História não são só do autor, são muitas, são de cada um dos leitores e vêm de infinitas margens, que fica difícil de dizer de que é esta ou aquela página. É assim como passado reescreve nas novelas, as histórias do porvir.
Estado - Mitos como Gardel, Evita e Maradona surgiram da classe baixa e chegaram de forma espetacular ao topo da sociedade. A ideia de mito está no fato de que já que não podemos mudar o mundo, talvez possamos mudar de classe social? Assim se explicaria porque Eva é mito, e Perón, um burguês, nem tanto.
Martínez - (ri) Há diferentes formas de mitos. Há o mito da Cinderela, que Evita encarna. Para Maradona virar mito só falta uma coisa: morrer (ri). Os mitos só aparecem ou constroem-se como tal após a morte. É o caso de Che Guevara, que ainda está na camiseta de muitos jovens, em todo o mundo. Os mitos são criados de formas intrincadas na imaginação popular...

Tomás Eloy percebeu que o gesto de Perón era pura encenação, que podia ser feito perante uma multidão ou uma única pessoa
Estado - Churchill dizia que não havia grandes homens para seus valetes. Acontece o mesmo com o mito e seu biógrafo?
Martínez - O que lhe responderei, é algo ainda terrível para mim. Havia entrevistado Perón durante quatro dias e quando me despedi dele, me perguntou, após tudo o que havíamos falado, o que ficava sem saber do peronismo.Me aproximei de Perón com absoluta ingenuidade, mas percebi que me manipulava. Dizia-me somente aquilo que ele acreditava que eu queria ouvir. Você sabe que os políticos acariciam a cabeça das crianças para que as pessoas pensem que boa pessoa ela é. No caso de Perón, pensei que era um homem aposentado da política. Poucos imaginavam que ele voltaria da forma tão estrondosa como voltou. Por isso achei que ele me falaria com franqueza. Percebi que não era assim, e isso me incomodou. E quando me perguntou o que eu não havia vivido do peronismo, lhe disse que na época morava no interior do país e havia perdido as aclamações frenéticas que as multidões da capital faziam quando ele falava em praça pública e os chamava de “Companheeeeeeiros!”. Ele me disse: “vou fazer para você”. E ao se despedir, na porta de sua casa em Madri, abrindo os braços com seu gesto típico, falou com seu vozeirão: “Companheeeeeiros!”. Percebi que Perón era um ator e que toda sua ideologia, todo seu projeto político era uma encenação. Senti, nesse momento que Perón tentava me dar algo e ao mesmo tempo que me dava algo, ele o tirava de mim para sempre...

T.E. Martínez viu os vários ‘Peróns’
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28.01.10

Cristina Kirchner dixit: “Carne suína melhora a vida sexual. É melhor comer um leitãozinho do que tomar viagra. Sou fanática da carne suína”.
Na foto, de sua posse em dezembro de 2007, CFK segura o bastão que havia sido até poucos segundos antes de seu marido.
Atrás dela, Néstor C. Kircher - já na categoria de ex-presidente transformado em primeiro-cavalheiro – não larga o bastão.
“É preciso consumir carne de porco pois possui melhores gorduras do que a carne bovina ..e além disso acabam de me dar um dado que eu desconhecia...e que é que a ingestão de carne de porco melhora a atividade sexual!”. A frase, pronunciada com entusiasmo, foi disparada pela presidente Cristina Kirchner durante uma cerimônia na Casa Rosada com as associações empresariais da indústria do setor suíno.
Dando continuidade à sua apologia das benesses vasodilatadoras das costeletas de leitão, lombinho e pernis, a presidente Cristina, em defesa dos estimulantes naturais em detrimento dos químicos, relativizou a importância da indústria farmacêutica nesse setor ao ressaltar que considera que “é mais gratificante comer um leitãozinho na grelha do que ter que usar o viagra”.
O público sentado no auditório da Casa Rosada estava peculiarmente estupefato pelas observações suíno-sexuais da presidente da República.
Na terra par excellence dos bovinos, CFK fez uma inédita enfática defesa do consumo dos ungulados onívoros que propiciariam melhores coitos.
BREVE INTERLÚDIO SOBRE A TESTOSTERONA PRESIDENCIAL
Nunca antes na História registrada argentina o chefe do poder executivo havia pronunciado em público observações sobre a melhora da vida sexual e um bom naco de presunto.
O ex-presidente Carlos Menem (1989-99) recebia – diziam as más línguas em meados dos anos 90 – um “estimulante cubano”, enviado por Fidel Castro.
O ex-presidente Fernando De la Rúa, de aparência pacata, no último dia de seu atrapalhado governo foi flagrado, pelo fotógrafo presidencial, abrindo sua gaveta para pegar seus pertences....entre eles, uma caixinha de vigorizantes sexuais que ostentavam um gnomo na embalagem cujo gorro ia adquirindo uma inclinação de 45%, com óbvias alusões penianas.

“O poder é o maior afrodisíaco de todos!” afirmou no 27 de maio de 1976 o ex-secretário de Estado dos EUA, Heinz 'Henry' Alfred Kissinger.
E se for um presidente que come leitão?
Quando muitos pensavam que a dissertação sobre as benesses sexuais da carne suína estava concluída, a presidente Cristina recuperou-se do platô de suas observações e continuou para uma segunda rodada:
- “Sou fanática da carne de porco...e não estou dizendo isso para ficar bem (é que ela estava discursando perante empresários do setor da indústria suína), nem para fazer propaganda, nem nada...o Kirchner vai me matar quando chegar em Olivos (a residência presidencial)! Hehehehe...”, explicou rindo marota.
Depois, em tom proselitista, indicando total conversão à causa suíno-sexual, fez um apelo nacional: “Pois é isso! Comam carne de porco e relembrem que melhora a atividade sexual. Provar não custa nada”.

Emília, que manteve brevíssimo casamento com o aristocrático leitão no Sítio do Pica-pau amarelo
SUBSÍDIOS
A presidente mostrou-se engajada na aposta pelos parentes do taubateano Marquês de Rabicó, já que também anunciou que o governo subsidiará “parte da forragem, o que permitirá que os preços dos cortes suínos sejam mais baratos para as pessoas”.
PINGUINS E LEITÕES
“Eu como muito porco”, acrescentou Cristina. Depois, sorriu amplamente e recordou que no fim de semana retrasado, no vilarejo de El Calafate, no extremo sul da Patagônia, onde os Kirchners - popularmente chamados de "Los Pingüinos" (Os Pinguins) possuem seu refúgio, havia comido um leitão que lhe havia sido enviado desde a província de Córdoba.
“Fantásssssssssstico!” (assim pronunciado), disse para definir a somatória do leitão e o fim de semana.
“Tudo andou muito bem”, afirmou Cristina, em referência às horas posteriores ao repasto suíno em companhia do ex-presidente e atual primeiro-cavalheiro.
Na sequência, concluiu, a modo de comprovação empírica pessoal: “pois devem (os especialistas sobre sexo e carne suína) ter razão!!”.

Óinc! Miss Piggy, a sexy ungulada omnívora, assediava Caco constantemente
GURU SEXUAL E NUTRICIONISTA

Guru sexual & nutricionista: Cristina Kirchner, após exaltar virtudes afrodisíacas da carne de leitão, recomenda frango para emagrecer.
Menos de 24 horas depois de ter exaltado as vantagens sexuais de deglutir carne de leitão, a presidente Cristina Kirchner fez apologia da carne de frango.
Durante uma cerimônia na cidade de Capitán Sarmiento, na província de Buenos Aires, onde inaugurava uma ampliação de uma indústria de processamento de carne avícola, voltou a elogiar a carne suína...mas também teceu loas ao galináceo doméstico.
“Frango ajuda a emagrecer. É bom. Especialmente peito de frango”, disse, enquanto – com calor - abanava-se com um leque.
“Prefiro os porcos e os frangos em vez dos abutres”, disparou a presidente, em alusão aos denominados “fundos abutres” (fundos de investimentos que compram títulos de dívida desvalorizados de diversos países a preço de banana e mobilizam um exército de advogados para ficar à espreita de uma chance para exigir o pagamento de seus bônus a valor nominal. No caso argentino, os que possuem títulos da dívida pública da Argentina em estado de calote desde 2001 e que não integraram a reestruturação dos títulos feita em 2005. Dias atrás, indo por esta veia zoológica, a presidente Kirchner afirmou que os fundos abutres são como as “ratazanas” que infestam o Riachuelo, o rio mais poluído da Argentina).
Voltando aos frangos, esclareceu com remate poético, enquanto abanava-se: “não sei se comer frango será afrodisíaco como comer leitão. Mas, sei que consumir frango nos ajuda a não engordar e talvez nos ajude a voar e a realizar nossos sonhos”.
SENSUAL SINDICAL
Hugo Moyano, um dos principais aliados de “Los Pingüinos”, o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), sem que ninguém lhe perguntasse, declarou nesta quinta-feira que achou “brilhante” a proposta de vasta ingestão suína formulada pela presidente Cristina, “la pingüina”.
Moyano destacou que comerá leitão “no café de manhã, à tarde e à noite”.
O roliço líder sindical rapidamente explicou que nunca consumiu viagra para melhorar seu rendimento sexual.
PESQUISA
Uma pesquisa realizada pelo site do jornal “Crítica” perguntou aos internautas o que achavam das afirmações da presidente sobre as benesses sexuais da carne suína.
As respostas:
- É verdade, vou mudar de hábito: 9%
- Sempre comi leitão: 7%
- A presidente está tentando reduzir a compra de carne bovina: 18%
- É pouco sério: 64%
- Não sabem: 1%


PODEROSOS CALÇÕES: Cuecas samba-canção com a epígrafe kissingeriana e efígie do diplomata teuto-americano estão à venda na internet.


SANTOS, LEITÕES E CASAMENTOS O egípcio cristão Santo Antônio (251-356) é o patrono dos rebanhos de leitões e dos pastores dos mesmos. Geralmente este santo é retratado com um porquinho por perto. Quadro de Piero Di Cosimo (1462-1521), National Gallery of Art, Washington, EUA.
Não confundir com Santo Antônio de Lisboa (1195-1231), que é o santo casamenteiro em Portugal e no Brasil. Este aqui é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua. O outro, o dos leitões, como Santo Antônio 'abade'. Ou Santo Antônio, 'o grande'.
O Santo Antônio casamenteiro tem todo um mês dedicado a ele em Barbalha, interior do Ceará. Ali, coloca-se um grande mastro com a bandeira de Santo Antônio para homenageá-lo.
E, como tudo é possível, leitões e pinguins. Onde? Só mesmo no delirante Show dos Muppets. Clique aqui.
Idem, galinhas cantando um dos clássicos do jazz dos anos 20, “Baby Face”. Clique aqui.
E “Baby Face”, agora com o emblemático Al Johnson. Clique aqui.
E, para quem for comer leitão hoje à noite e quiser embalar o pós-jantar e a assegurada (pelo que diz a presidente CFK) cópula com um hit de antanho, “You made me love you”, em uma gravação de Al Jolson, de 1913. Clique aqui.
Ou, uma versão mais moderna, com Judy Garland. Clique aqui.
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
24.01.10
Longe de ser um pacato 'Ovis aries', Manuel Cordero era uma das estrelas das sessões de tortura de Automotores Orletti
Manuel Cordero Piacentini, coronel da reserva do Exército do Uruguai, extraditado pelo Brasil no sábado para a Argentina, vai na contra-mão de seu ovino sobrenome. Longe de ser bisonho e manso, o militar uruguaio era uma exímio torturador e uma das principais figuras operacionais da Operação Cóndor, o sistema de coordenação entre as ditaduras do Cone Sul na segunda metade dos anos 70 e início dos 80.
Agente de inteligência em Montevidéu,onde operou nos centros de torturas conhecidos pelos ilustrativos nomes de "Infierno Chico" (Inferno Pequeno) e "Infierno Grande" (Inferno Grande), o oficial instalou-se em Buenos Aires em 1976 para encarregar-se da caça a uruguaios em território argentino.
Cordero torturava sem máscaras e sem cobrir os olhos dos torturados com um capuz. Ele pronunciava claramente seu próprio nome para intimidar as vítimas.
No Uruguai, entre várias denúncias, foi acusado de ter estuprado uma prisioneira na frente de outro prisioneiro para extorqui-los por dinheiro.
Na Argentina o oficial é acusado de pelo menos ter torturado 32 civis (27 uruguaios e cinco argentinos), e de ter sequestrado onze pessoas, cujos corpos permanecem desaparecidos até hoje, além de ter sequestrado um bebê.
Entre os mortos com cadáveres localizados está o senador uruguaio Zelmar Michelini, brutalmente assassinado em 1976 em Buenos Aires. O corpo do parlamentar, que despontava como líder da oposição ao regime militar do Uruguai, foi encontrado dentro de um carro à beira do rio da Prata.

Edifício onde estava o "Automotores Orletti"
ORLETTI, CENTRO DO CÓNDOR
O epicentro destes crimes foi o “Automotores Orletti”, um centro clandestino de detenção e tortura da ditadura militar argentina (1976-83) localizado no bairro portenho de Floresta. Ali, Cordero foi um dos principais protagonistas. Segundo depoimentos de sobreviventes, Cordero torturava com especial sanha seus compatriotas.
Mais de 300 pessoas sequestradas foram levadas a esse centro. A maioria delas foi torturada e assassinada. Calcula-se que menos de 40 pessoas sobreviveram.
Ex-oficina mecânica, o “Automotores Orletti”, foi o principal centro da Operação Cóndor, denominação do plano de coordenação dos regimes militares do Cone Sul nos anos 70 e início dos 80. Ali foram presos, torturados e assassinados civis uruguaios, chilenos, bolivianos, paraguaios, além de argentinos.
Dois diplomáticos cubanos, apesar de sua imunidade, também foram torturados ali. O interrogatório - segundo declarou anos atrás o general chileno Juan Manuel Contreras, um dos braços direitos do ditador Augusto Pinochet - teria contado com a presença de homens da CIA.
Os gritos dos torturados eram abafados pela passagem constante de trens na linha férrea que passava ao lado da oficina mecânica e pela música altíssima que os torturadores colocavam na hora das sessões. O sino da escola vizinha, a Mauro Fernández, junto com o barulho das crianças brincando no recreio e na saída das aulas colaboravam para que os gritos dos prisioneiros não fossem ouvidos na rua.

Os generais e ditadores Jorge Rafael Videla e Augusto Ramón Pinochet, que junto com outros colegas da região criaram a Operação Cóndor
CHASSIS E TORTURADOS
O centro clandestino possuía apenas dois andares. Mas, concentrava uma lotação de 30 prisioneiros (que ia sendo “renovada” com os assassinatos e transferências para outros centros) que contavam com um único vaso sanitário.
Nas diferentes áreas do centro acumulavam-se chassis de automóveis, além de carros roubados pelo grupo de militares e policiais do Automotores Orletti.

Cordero, fugido do Uruguai, detido no Brasil, agora espera comparecer perante o juiz Oyarbide em Buenos Aires. Cordero teve a chance de um tribunal, algo que seus prisioneiros não tiveram.
No primeiro andar estava a área de torturas onde os militares haviam colocado um grande tanque d’água com uma roldana acima de onde eram pendurados os prisioneiros para a sessão de “submarino molhado” (afundar uma pessoa em um tanque de água, ocasionalmente também cheio de excrementos humanos).
ABRE-TE SÉSAMO
O comandante formal do centro era o general Otto Paladino. Mas, o chefe direto era o argentino Aníbal Gordon, um paramilitar que havia sido um dos homens de confiança de José López Rega, conhecido como “El Brujo” (O Bruxo), eminência parda da ex-presidente Isabelita Perón (1974-76), que havia criado a Tríplice A, organização dedicada a atentados e assassinatos de pessoas consideradas “esquerdistas” ou “subversivas”. A Tríplice A também sequestrava empresários para conseguir resgates que eram divididos entre os participantes.
A maior parte dos homens de Gordon eram integrantes da Side, o serviço secreto argentino.
Para entrar nas instalações de “Automotores Orletti” os militares e policiais aproximavam-se da persiana metálica da frente do lugar e pronunciavam a contrassenha: “Operação Sésamo”.
A expressão, uma irônica alusão ao “Abre-te Sésamo” da fábula de Ali Babá e os 40 ladrões, tinha motivos de ser, já que os integrantes do centro clandestino, além de sequestrar e torturar civis, também dedicavam-se a roubar os bens dos desaparecidos.
Dinheiro, joias, móveis e obras de arte eram levados até o Automotores Orletti como fruto do saque das casas dos desaparecidos. O butim era reunido no centro clandestino e era repartido entre os participantes. Com ironia, eles chamavam o resultado do saque de “Morgan”, em referência ao pirata Henry Morgan, que no século XVII assolou o Caribe.
FARDOS
Entre os colegas argentinos do uruguaio Cordero estava Luis Porcio, chefe de segurança da Side, conhecido pelo apelido de “Enfardador”, já que apreciava amarrar cadáveres com arames, como se fossem fardos, para posteriormente queimá-los.
Outro integrante desse entourage era Osvaldo “Paqui” Forese. “Paqui” era a abreviação de “Paquiderme”, já que Forese costumava derrubar sozinho as portas das casas dos civis que sequestravam. Em diversas ocasiões, “Paqui” divertia-se a submeter a pessoa detida a um “submarino” na banheira de sua própria casa.

Senador Michelini: segundo Justiça argentina, uma das vítimas de Cordero
CURRICULUM VITAE
Após o fim da ditadura uruguaia, em 1985, Cordero ficou em seu país, onde foi beneficiado pela lei de anistia aos ex-integrantes do regime militar. No entanto, em 2003, Cordero fez apologia da tortura em declarações à mídia em Montevidéu, causando intensa polêmica. Procurado pela Justiça uruguaia, o militar refugiou-se no Brasil, na cidade de Santana do Livramento.
Em 2006 a Justiça argentina solicitou ao Brasil sua extradição, para julgamento em Buenos Aires, pelos crimes cometidos durante a ditadura no país.
De lá para cá, em diversas ocasiões, Cordero alegou problemas de saúde, como forma de tentar permanecer no Brasil e evitar a extradição pedida pela Argentina.
Cordero passou por uma cirurgia cardiovascular há poucos anos. No entanto, foi flagrado meses atrás pelo Canal 12, a TV uruguaia, fumando e bebendo em bares de Santana do Livramento, violando sua prisão domiciliar.
Finalmente, após várias idas e vindas, as autoridades brasileiras enviaram Cordero à fronteira com a Argentina.
No sábado, Cordero, de 71 anos, que estava internado em Santana do Livramento por problemas cardíacos, foi levado até Uruguaiana. Nessa cidade na fronteira com a Argentina passou por um novo exame médico.
Depois, foi levado em uma ambulância até o meio da ponte internacional que liga Uruguaiana com a argentina Paso de los Libres. Ali, foi entregue às autoridades argentinas, que o levaram em outra ambulância.
As autoridades argentinas comprometeram-se em continuar o tratamento cardíaco de Cordero em Buenos Aires. Este compromisso foi crucial para a permissão para a transferência de Cordeiro de Santana do Livramento para Argentina.
MUDO NO TRIBUNAL
Nesta terça-feira, já em Buenos Aires, Cordero recusou-se a responder ao inquérito do juiz federal argentino Norberto Oyarbide nos tribunais do bairro de Retiro em Buenos Aires.
O militar foi levado ao banco dos réus sob a acusação de sequestro e desaparecimento de onze pessoas em Buenos Aires entre abril e setembro de 1976.
Uma das pessoas desaparecidas é Claudia Irureta de Gelman, nora de um dos mais importantes poetas uruguaios, Juan Gelman.
A Justiça argentina o considera responsável pela tortura de 32 civis durante a ditadura argentina e o sequestro e desaparecimento de outras onze pessoas, além do sequestro de um bebê.
No entanto, em Buenos Aires ele somente será julgado pelo sequestro do grupo de onze pessoas. Essa foi a condição do Brasil para extraditar o ex-torturador, pois o sequestro trata-se de um delito que não prescreve (já que a pessoa sequestrada ainda não reapareceu).
Em Buenos Aires Cordero passou por uma série de exames médicos, já que o militar padece problemas cardíacos.
Segundo fontes do tribunal comandado pelo juiz Oyarbide, Cordero ficará temporariamente internado no Hospital Militar, no portenho bairro de Palermo, que possui instalações especializadas no tratamento de casos cardíacos graves.
Posteriormente, o oficial uruguaio seria transferido para o quartel militar de Campo de Mayo, na província de Buenos Aires, que também conta com instalações hospitalares de alto nível. Ali estará na companhia de outro preso famoso, o ex-ditador e general Jorge Rafael Videla, um dos criadores da “Operação Condor”.
Dependendo das circunstâncias de saúde de Cordero no futuro, o oficial poderia ser removido para a penitenciária de Marcos Paz.
A expectativa, segundo as fontes do tribunal, é que o julgamento oral e público de Cordero comece ainda neste ano.

Oficial extraditado estava mais para lobo do que para o cordeiro. Gravura do século XIX das fábulas de Jean de La Fontaine
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20.01.10

Presidente argentina quando está furiosa faz um curtíssimo e brusco, quase imperceptível movimento lateral com a cabeça. Se ela faz esse movimento, preparem-se, pois é o Vesúvio em fúria. Cristina Kirchner afirma que não sairá do país para evitar o risco de “desestabilização” que seu popular vice, Julio Cobos, poderia causar (as flechinas vermelhas centrífugas são para ilustrar a direção do movimento quando a presidente "monta en cólera", como dizem às margens do Prata).
Quando está muito irritada, a presidente Cristina Kirchner costuma fazer um involuntário movimento lateral horizontal curto, rápido e forte com sua cabeça. Simultaneamente, olha fixo para o interlocutor como se estivesse disparando raios de energia letal (como aqueles do Scott Summers, o Cyclops dos X-Men).
Nesta terça-feira no fim do dia, enquanto Buenos Aires recuperava-se de mais uma tórrida jornada de verão portenho (muito úmida), o crânio da presidente argentina oscilou lateralmente outra vez nos primeiros minutos de uma inesperada coletiva de imprensa, convocada às pressas na Casa Rosada, o palácio presidencial.
O movimento cranial foi acompanhado de um anúncio bombástico: ela afirmou que não viajaria à China nos próximos dias, tal como estava programado (uma importantíssima viagem ao país asiático, acompanhada de uma missão empresarial), porque não confia em seu vice-presidente, Julio Cobos.
Atrás dos dois costumeiros microfones em cima da tribuna, a presidente Cristina começou a saraivada de críticas contra o vice-presidente, ao qual chamou de “líder da oposição”, além de acusá-lo de “obstruir medidas” do governo.

Cobos, a ex-“mosca-morta” que tornou-se o principal inimigo do casal Kirchner dentro da classe política. O vice gosta de participar de maratonas
Cobos rompeu com a presidente Cristina há um ano e meio. Gradualmente o vice passou às fileiras da oposição, da qual atualmente é o presidenciável melhor cotado.
“Não dá para estar na tribuna do River (Plate), gritando os gols do Boca (Juniors)”, disparou Cristina em uma metáfora futebolística.
“Essa viagem me obrigaria a ficar dez dias fora do país, tempo muito prolongado, levando em conta que o vice-presidente não cumpre seu papel”, alegou a presidente.
Segundo Cristina Kirchner, seu vice poderia aproveitar sua ausência e implementar alguma medida que “tenderia a desestabilizar” o país.
No âmbito político em Buenos Aires especulava-se ontem se a presidente Cristina deixaria de fazer viagens ao exterior para evitar que Cobos ocupe a presidência nos dois anos que restam de governo.
Nos últimos dias o protagonismo de Cobos cresceu perante a crise desatada pela tentativa de intervenção da presidente Cristina no Banco Central, passando por cima da autonomia da entidade monetária e do Parlamento. Diversas pesquisas indicam que o vice é o político com maior aprovação popular.
Não é uma suspensão de viagem qualquer. Trata-se da China, o terceiro maior mercado das exportações feitas pela Argentina. Além disso, o país asiático absorve 75% da soja em grãos que o país exporta.
Uma hora depois, o vice-presidente Cobos fez um apelo: “pelo bem do país, reconsidere sua decisão. É uma viagem muito importante, que foi longamente planejada e combinada”. Cobos defendeu-se das acusações da presidente: “não obstaculizei decisão alguma. Ao contrário...tentei encontrar soluções aos problemas que eu não gerei”.
A presidente Cristina tampouco viajará à Bolívia para assistir a posse do presidente Evo Morales, um de seus aliados políticos na região. Mas ela tampouco deixará que seu vice Cobos vá em representação do Estado argentino. Cristina preferiu enviar seu braço-direito na área política, o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández.
A programação inicial da visita à La Paz incluía a assinatura de um acordo para ampliar as exportações de gás boliviano para a Argentina.

Presidente não fala com vice desde 2008
PARAFUSOS
Cristina Kirchner também atacou o presidente do BC, Martín Redrado, ao qual acusou de estar “aparafusado” em sua poltrona. O governo está tentando há duas semanas remover o presidente da entidade monetária. Mas, a Justiça, por enquanto, bloqueia essa remoção. Diante do impasse, a presidente anunciou que concorda em levar o caso de Redrado ao Parlamento.
JUSTIÇA EXPRESS
Segundo a presidente Cristina, diversos juízes conspiram com políticos da oposição para obstaculizar seu governo. Segundo ela, trata-se da “Justiça express” realizada por “juízes delivery”.
Por trás da crítica à Justiça estão os diversos reveses que o governo levou no último mês e meio nos tribunais federais. Desde dezembro juízes bloquearam a aplicação de vários artigos da controvertida Lei de Mídia (por considerar que continha vários pontos inconstitucionais), a remoção do presidente do BC, Martín Redrado, a suspensão do cancelamento de duas empresas do Grupo Clarín e o bloqueio do decreto que ordenava o uso de reservas do BC para o pagamento da dívida pública com os credores privados.
LIBERDADE DE IMPRENSA
A presidente Cristina também criticou a mídia, com ironias: “estou disposta a morrer para que continue existindo liberdade de imprensa....para que continuem publicando as mentiras de sempre!”
DECRETOS
Horas antes do discurso de Cristina Kirchner, os principais partidos da oposição haviam assinado um documento no qual exigiam a convocação de uma sessão extraordinária (o Parlamento está em recesso atualmente) para discutir os decretos de necessidade e urgência da presidente. Com um decreto desse tipo recentemente Cristina Kirchner tentou remover o presidente do Banco Central, Martín Redrado.
MARIONETES E IOGA
Em meio ao imbróglio generalizado, o presidente do BC, Martín Redrado, foi denunciado na Justiça Federal pelo uso indevido de 200 mil pesos (US$ 52 mil) para shows de marionetes, uma oficina de teatro e duas oficinas de ioga no Banco Central.

THE SHOW MUST GO ON
Se antes existia a “esquerda festiva”, isto aqui é a “direita festiva”? Presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera, dança (na semana anterior à eleição) “Thriller", do fenecido M.Jackson. Link do Youtube com os peculiares passos de dança aqui.
EPÍLOGO BORGIANO

À direita, JL Borges. À esquerda, Beppo
E para quase concluir, umas frases de Jorge Luis Borges (1899-1986), o autor de “O Aleph” e de “História Universal da Infâmia”
“Las biografías son el ejercicio de la minucia, un absurdo. Algunas constan exclusivamente de cambios de domicilio” (As biografias são o exercício da minúcia, um absurdo. Algumas constam exclusivamente de mudanças de domicílio)
“El infierno y el paraíso me parecen desproporcionados. Los actos de los hombres no merecen tanto” (O inferno e o paraíso me parecem desproporcionados. Os atos dos homens não merecem tanto)
“Quizá haya enemigos de mis opiniones, pero yo mismo, si espero un rato, puedo ser también enemigo de mis opiniones”. (Talvez existam inimigos de minhas opiniões. Mas eu mesmo, se espero um momento, posso também ser inimigo de minhas opiniões)
“Si de algo soy rico es de perplejidades y no de certezas” (Se de alguma coisa sou rico é de perplexidades e não de certezas)

Borges sentado sobre Poe
EPILOGUÍSSIMO TANGUEIRO TRIPLO
Um de meus tangos preferidos, “Garufa”, de Juan Antonio Collazo (música) e Victor Soliño e Roberto Fontaina (letra). É um tango bem-humorado (tive em Londrina e Curitiba um genial cachorro, pastor belga, com esse nome), que conta a história de um bon vivant por excelência.
Foi composto no Uruguai, mas tornou-se também um clássico em Buenos Aires. Para cantá-lo à uruguaia, deve-se colocar o verso “por la calle San José” no final da segunda parte. Para cantá-lo à argentina, deve-se colocar o verso “En el Parque Japonés” na mesma linha.
Neste link do Youtube, com a orquestra de Donato Raciatti. Cliqueaqui!
A letra:
Del barrio La Mondiola sos el más rana
y te llaman Garufa por lo bacán;
tenés más pretensiones que bataclana
que hubiera hecho suceso con un gotán.
Durante la semana, meta laburo,
y el sábado a la noche sos un doctor:
te encajás las polainas y el cuello duro
y te venís p'al centro de rompedor.
Garufa,
¡pucha que sos divertido!
Garufa,
ya sos un caso perdido;
tu vieja
dice que sos un bandido
porque supo que te vieron
la otra noche
por la calle San José / en el Parque Japonés.
Caés a la milonga en cuanto empieza
y sos para las minas el vareador;
sos capaz de bailarte la Marsellesa,
la Marcha a Garibaldi y El Trovador.
Con un café con leche y una ensaimada
rematás esa noche de bacanal
y al volver a tu casa, de madrugada,
decís: "Yo soy un rana fenomenal".
E o sarcástico “Se dice de mí”, com a emblemática Tita Merello. Milonga de 1943. A música é de Francisco Canaro. Letra de Ivo Pelay.
O link do Youtube, clique aqui!
A letra:
Se dice de mí,
se dice de mí.
Se dice que soy fiera,
que camino a lo malevo,
que soy chueca y que me muevo
con un aire compadrón,
que parezco Leguisamo,
mi nariz es puntiaguda,
la figura no me ayuda
y mi boca es un buzón.
Si chlarlo con Luis, con Pedro o con Juan,
hablando de mí os hombres están.
Critican si ya, la linea perdí,
se fijan si voy, si vengo o si fi.
Se dicen muchas cosas,
mas si el bulto no interesa,
porque pierden la cabeza
ocupándose de mí.
Yo se que muchos me desprecian compañía
y suspiran y se mueren cuando piensan en mi amor.
Y más de uno se derrite si suspiro
y se quedan si los miro resoplando como un ford.
Si fea soy,
pongámosle,
que de eso aun no me enteré,
en el amor, yo solo sé
que a más de un gil, dejé a pie.
Podrá decir, podrán hablar,
y murmurar, y rebuznar,
mas la fealdad que dios me dio,
mucha mujer me la envidió
y no diran que me engrupí
porque modesta siempre fui.
Yo soy así
Y ocultan de mí,
ocultan que yo tengo,
unos ojos soñadores,
ademas otros primores
que producen sensación.
Si soy fiera se que, en cambio,
tengo un cutis de muñeca,
los que dicen que soy chueca,
no me han visto en camisón.
Los hombres de mí critican la voz,
el modo de andar, la pinta, la tos.
Critican si ya la linea perdí,
se fijan si voy, si vengo, o si fui.
Se dicen muchas cosas,
mas si el bulto no interesa,
porque pierden la cabeza
ocupandose de mí.
Yo se que hay muchos me desprecian compañía,
y suspiran y se mueren cuando piensan en mi amor.
Y más de uno se derrite si suspiro
y se quedan si los miro resoplando como un ford.
Si fea soy, pongamosle,
que de eso aun no me enteré
en el amor, yo sólo se,
que a más de un gil, deje de a pie.
Podrán decir, podrán hablar,
y murmurar, y rebuznar,
mas la fealdad que dios me dio,
mucha mujer me la envidió.
Y no dirán que me engrupí
porque modesta siempre fui.
Yo soy así.
E,entrando no século XXI, do Gotan Project, Santa Maria (del Buen Ayre). O link do Youtube: clique aqui!

Desenho de Jorge Luis Borges sobre o tango
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
18.01.10

Inflação calculada pelos economistas é o dobro do índice do governo. Há sete anos, com a nota acima (com a efígie do general Julio A.Roca), era possível fazer uma excelente compra no supermercado. Hoje, com esta nota compra-se pouca coisa
Os argentinos completaram três anos com duas inflações simultâneas e contraditórias. Esta sui generis situação é provocada pela existência de um dueto de índices inflacionários, o “oficial” e o “real”. O primeiro começou a ser elaborado pelo governo do então presidente Néstor Kirchner (2003-2007) e continuou sendo preparado pela administração de sua sucessora – e esposa – Cristina Kirchner. O segundo é um amontoado de cálculos realizados por consultorias econômicas independentes, sem vínculos com o governo. Enquanto que o primeiro, preparado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), indicou que a inflação de 2009 foi de 7,7%, o segundo é em média – juntando vários cálculos bastante similares – ao redor de 15% a 16%.
O jornal “Crítica” ironizou sobre o índice de inflação do governo Kirchner: “é oficial, embora seu bolso não acredite nisso”.
Segundo a consultoria Economia y Regiones, a alta inflacionária de 2009 é de 16%. A consultoria Estudio Bein e Associados também calculou uma inflação de 16%. A Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (Fiel) indicou que a inflação teria sido de 17,3%. A Ecolatina, fundada pelo ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, a estima em 15,3%. A Prefinex calcula que teria sido de 14,8%.
Desta forma, os argentinos tiveram no ano passado uma inflação “oficial” que foi apenas a metade da inflação denominada “real”. Nas ruas, os argentinos destacam que a inflação do Indec parece um delírio estatístico, já que os preços dos alimentos, serviços, entre vários outros, não param de subir.
Em dezembro a inflação novamente entrou em ritmo de escalada, devido à recuperação econômica incipiente. O governo afirma que a inflação foi de 0,9%. Mas, os economistas afirmam que foi de 1,8%.
Segundo o Indec, que está sob férrea intervenção desde janeiro de 2007 – poucos meses depois de iniciada a suposta maquiagem do índice – o país acumulou 37,5% de inflação desde 2006.
No entanto, segundo o índice calculado pela equipe de Graciela Bevaqua, uma ex-funcionária do Indec, removida no governo Kirchner por opor-se à camuflagem da inflação, o índice acumulado desde 2006 é de 96,8%. Isto é, duas vezes e meia maior que a inflação estipulada pelo governo Kirchner.
A inflação foi elevada apesar da recessão que assolou o país no ano passado. Segundo Bevacqua, o índice de inflação de 2009 foi demasiado alto para acompanhar uma queda do PIB de 3% a 4% estimada pelos economistas (o governo, neste caso, também apresenta um índice diferente e afirma que o país cresceu 0,9% no ano passado). “Desta forma, tivemos por segundo ano consecutivo um cenário de estagflação”, disse Bevacqua.
A intervenção do Indec implicou na remoção categórica – ou transferência – de técnicos estatísticos que não concordavam com a manipulação do índice de inflação. Diversos funcionários do Indec acusam o polêmico Secretário de Comércio, Guillermo Moreno, de enviar “patotas” (gangues) de caratecas ao próprio prédio do instituto para intimidar os técnicos.
A manipulação do índice foi alvo de críticas de entidades internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, além das associações de consumidores argentinos, organizações empresariais em Buenos Aires e sindicatos. Esquerda e direita criticam a manipulação dos índices.

Carne, objeto de desejo da imensa maioria dos argentinos (e estrangeiros residentes), cada vez mais proibitiva pela disparada de preços.
O quadro é do holandês Paulus Potter (1625-54). “A pradeira”, de 1652.
O ano 2010 promete mais polêmicas sobre a inflação, já que o governo estima que ela estará ao redor de 6,1%. No entanto, os economistas independentes calculam que estaria entre 18% e 20%.
Nos últimos 40 dias, segundo associações de consumidores e consultorias econômicas, o preço da carne bovina, quitute par excellence da mesa dos argentinos, registrou uma disparada de 20% em seu preço.
Enquanto o preço para ingerir um naco de uma vaca/boi subia de forma considerável, deglutir um frango ficou mais caro ainda. O aumento do quilo da carne de frango foi de 70%. O leite aumentou 12%.
UM MUNDO DE SENSAÇÕES INFLACIONÁRIAS
Uma coisa é a inflação “oficial” e outra a “real”. Mas, além delas está a inflação “percebida”. Isto é, aquilo que a população “sente” que foi o aumento dos preços.
Segundo uma pesquisa da Universidade Torcuato Di Tella, os argentinos “sentiram” a inflação como se ela tivesse sido de 30% em 2009.
A população tende a magnificar a ideia da alta inflacionária, afirmam os especialistas. Mas, de todas formas, a pesquisa mostra que existe uma colossal brecha entre a inflação “oficial” do governo, de 7,7% em 2009 e os 30% “percebidos”.
Segundo a pesquisa, a população espera que a inflação deste ano será de 20%.
Isto é, em resumo, inflações de 2009 para todos os gostos
a) a ‘oficial’, de 7,7%;
b) a ‘real’, de uns 15% a 16%;
c)...e a ‘percebida pela população’, de 30%.
ESMOLAS NÃO INDEXADAS
A sra. Marta, uma sem-teto septuagenária que vive em vários pontos (dependendo do dia) ao longo da rua Arenales (entre a avenida Callao e a rua Rodríguez Peña), em plena Recoleta, lamenta: "as pessoas continuam dando moedas como esmola...só que com as moedas a gente hoje em dia não consegue comprar coisa alguma".
Sempre que passo por ali, ajudo esta senhora com dinheiro ou comida. Se algum turista passar por ali, por favor, dê uma mãozinha para ela também. Aliás, o que não falta em B.Aires são mendigos idosos que precisam ajuda. O número de velhinhos e velhinhas nas ruas mendigando aumentou de forma sideral no último ano e meio.

Nota de um milhão de pesos emitida no meio da disparada inflacionária de 1981, durante a ditadura militar
FANTASMA
– A inflação é um fantasma que insiste em assombrar os argentinos com persistente frequência. A alta de preços assola o país de forma intermitente há cinco décadas. Mas, a situação complicou-se a partir de 1975, quando foi aplicado um polêmico pacote de medidas econômicas, conhecido como o "Rodrigazo", durante o governo de Isabelita Perón.
Durante a última Ditadura Militar (1976-83) a inflação disparou em diversas ocasiões.
Mas, o ponto mais dramático ocorreu em 1989, durante o governo do então presidente Raúl Alfonsín, quando a hiper inflação chegou a 4.923,6%. Na época, até o dólar, refúgio preferido dos argentinos para os momentos de crise, sofreu as pressões inflacionárias, embora em menor escala que o peso.
Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99) tentou implementar diversas políticas econômicas para debelar a inflação. Mas, as erráticas medidas levaram o país à uma segunda etapa de hiper inflação, de 1.343,9%. Isso levou Menem a implementar uma saída drástica, a criação da Conversibilidade Econômica, que estabeleceu a paridade entre o dólar e o peso.
O sistema amarrou o pouco confiável peso ao dólar americano. Nos seguintes dez anos e meio, a Conversibilidade proporcionou a erradicação da inflação. O país até viveu vários anos sob a marca da deflação.
No entanto, o remédio para a inflação acabou tendo graves efeitos colaterais. Em 2001, o país foi assolado por uma colossal fuga de capitais. Isso, somado à crise social e política levou o governo do presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) à renúncia. A conversibilidade não conseguiu sobreviver à crise e foi extinta em janeiro de 2002.
Sem o sistema, o peso desvalorizou-se rapidamente ao longo de 2002. A inflação, durante alguns anos, manteve-se contida por causa da recessão que atingia o país. Mas, com a recuperação da economia, em 2003, a inflação voltou a crescer.
Em 2006, o governo do presidente Néstor Kirchner tentou conter a inflação com o congelamento de preços. Mas, com o fracasso dessa política, em dezembro desse ano iniciou a manipulação de dados. Segundo o governo, em 2006 a inflação foi de 9,8%. Mas, de acordo com Bevacqua, foi um pouco maior, de 10,7%.
No entanto, em 2007 Kirchner optou por intervir o Indec e manipular o índice da inflação de forma mais ampla. Nesse ano, o Indec anunciou um índice de 8,5%. Segundo Bevacqua, a inflação real foi de 25,7%.
Em 2008, a inflação, segundo o Indec, foi menor ainda, de 7,2%. Mas, de acordo com Bevacqua, chegou a 23% (embora alguns economistas digam que chegou a 28%).
“Os Kirchners não conseguem deter a febre da inflação...então, decidiram trocar o termômetro que a mede”, avalia com ironia o historiador e jornalista Jorge Lanata.

Em 1923, em plena hiper-inflação alemã, cidadão teutônico opta por usar desvalorizadas notas como papel de parede. Valia a pena, já que o papel de parede de verdade era mais caro. Foto do Deutsches Bundesarchiv.
E, para relaxar, "Fiesta", com o cantor catalão Joan Manoel Serrat, durante os shows que fez em Santiago do Chile em 1969. O link do Youtube: aqui

...E um teste aos leitores-comentaristas que conhecem Buenos Aires.
Este portão, a qual edifício histórico na zona do centro pertence? Única dica: o nome do palácio é contraditório com a instituição que o habita há muito mais de meio século (e que tem um salão de baile impressionante).

E estes cavalos de bronze? A qual conjunto de esculturas pertence? Em qual praça estão? Dica: estão em uma praça ladeada por uma rua e uma avenida, cada uma com nome de presidente...um desses presidentes era um europeizante personagem do século XIX...o outro presidente, uma lacônica figura do século XX.


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13.01.10

Presidente Cristina perde poder, aumenta confrontos e fica gradualmente mais isolada. Foto da presidência da República.
A cada dia agrava-se a crise institucional desatada há exatamente uma semana, na quarta-feira passada, em Buenos Aires pelo governo da presidente Cristina Kirchner. Governo versus Banco Central, Parlamento e juízes. E de quebra, fundos “abutre”.
Nas últimas horas
- A presidente Cristina acusou o vice-presidente Julio Cobos, a oposição, a mídia, alguns juízes e os 'fundos abutre' de "conspirarem" contra seu governo.
Uma espécie de "eixo do mal" anti-kirchnerista.
- Fundos do Banco Central argentino em Nova York foram embargados pela justiça americana.
- A Bolsa caiu, os títulos da dívida despencaram.
- O governo ainda tenta remover de seu posto o presidente do BC, Martín Redrado, por intermédio de recursos na Justiça. Segundo a presidente Cristina, Redrado é um 'okupa' (invasor de casas).
- A juíza María José Sarmiento, que restituiu Redrado no cargo na 6afeira passada, nesta quarta-feira aceitou um recurso do governo para anular a restituição e repassou o caso para a Câmara da Justiça Federal de Diferendos e Assuntos Administrativos (isto é, a briga na Justiça ainda continuará por vários dias).
Um breve (breve mesmo, levando em conta a complexidade desta crise!) passo a passo desta intrincada crise
Na semana passada...- Cristina Kirchner exigiu renúncia do presidente do BC, Martín Redrado, porque este não queria liberar reservas para pagamento da dívida pública. A presidente quer US$ 6,5 bilhões da reserva (ação não prevista no Orçamento Nacional aprovado há poucos meses) para pagar parte da dívida pública que vence neste ano.
O governo precisa pagar um total de US$ 12,578 bilhões neste ano.
Mas, contava somente com US$ 6,015 bilhões, já que o gasto público aumentou consideravelmente e não havia cash para cobrir o ‘buraco’.
Para isso, exige a entrega dos US$ 6,563 bilhões da reserva do BC.
No entanto, surge um cenário que não estava previsto pela presidente Kirchner, já que ....
....O presidente do BC diz que não renuncia. Um dos motivos: esses fundos, quando saírem do BC, poderiam ser embargados a pedido dos fundos abutre nos EUA.
- Cristina perde as estribeiras de demite presidente do BC por decreto. O governo anuncia que o novo presidente do BC, Mario Blejer.
- O presidente do BC recorre à Justiça, que 24 horas depois o restitui no cargo. Autora da medida inesperada: a juíza María José Sarmiento.
- Volta cinematográfica do presidente do BC, Martín Redrado, ao cargo.
- Os "Pingüinos" (Pinguins), como são chamados popularmente a presidente Cristina e seu marido Néstor Kirchner (apelido aplicado por suas origens patagônicas) lançam uma saraivada de críticas contra Redrado.
- Fim de semana de tensão e troca de acusações sobre ‘autoritarismo’ e ‘golpismo’ entre governo e oposição.
- Juíza que restitui Redrado no posto do BC diz que está sendo intimidada e pressionada pelo governo.
- Ex-presidente Néstor Kirchner, primeiro-cavalheiro e atual deputado, alerta sobre “conspiração” da oposição, meios de comunicação e justiça contra o governo de sua esposa e sucessora.
- Kirchner aponta artilharia contra o vice-presidente Julio Cobos, que rompeu com os Kirchners há um ano e meio..mas continua no posto, para irritação do casal presidencial); o presidente do BC e o Grupo Clarín, o maior holding multimídia do país.
- Retomada dos dias ‘úteis’...
Na segunda-feira desembarcou em B.Aires o homem – Mario Blejer – que Cristina e Néstor querem que seja o novo presidente do BC. O imbróglio é tão descomunal que Blejer prefere ficar calado e faz de conta que o assunto não é com ele.
Blejer foi assessor do FMI durante 20 anos, ex-diretor do Banco de Inglaterra e ex-presidente do BC argentino, que comandou em 2002, ano da grande crise.
Na segunda-feira também a oposição reuniu-se para discutir a crise institucional, o maior desde o colapso de 2001-2002 e decide tentar convencer o governo a abertura de um “diálogo”.
Pirotecnia verbal: mais troca de acusações entre governo e oposição.
Na segunda-feira quase à meia-noite, o governo anuncia que entrou com um pedido na Justiça para anular a determinação da juíza Sarmiento. Isto é, remover Redrado de novo.
Mas, até a terça-feira, apesar das declarações, o governo não havia enviado formalmente pedido algum...
Na terça-feira parecia que estava tudo em relativo banho-maria (isto é, ‘banho-maria’ para os padrões locais) até que o juiz federal Thomas Griesa, de Nova York, embargou US$ 1,7 milhão relativos a fundos que o Banco Central argentino possuía em uma conta na reserva federal em Manhattan (isto é, acontece o embargo que Redrado temia dias atrás e que era o motivo para não aceitar a liberação das reservas para o pagamento da dívida).
Aí, o imbroglio, tal como em um sinistro video-game, entrou em uma nova etapa de dificuldade.
Quem solicitou o embargo? Os fundos de investimentos “abutres” NML e EM, que possuem títulos da dívida argentina que não entraram em 2005 na reestruturação dos bônus que estavam em estado de calote desde dezembro de 2001.
Tremeram os mercados, enquanto Cristina Kirchner e ministro da Economia, Amado Boudou ficavam furiosos com o novo revés e disparam acusações de “conspiração” por parte da...
a) Oposição
b) Justiça
c) Meios de comunicação
Resultados, a curto prazo:
Ontem, terça-feira, os títulos da dívida pública despencaram em até 12%.
A taxa de risco do país aumentou 8% em relação à véspera e chegava ontem no início da noite a 734 pontos.
A Bolsa portenha caiu 2,03%.
A médio prazo o embargo pode gerar atrapalhos no plano do governo argentino de reabrir a reestruturação da dívida com os “holdouts”.
Bom, aqui é preciso uma pausa histórica:
- No dia 23 de dezembro de 2001, primeiro dia do presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá, declara-se o calote da dívida pública com os credores privados. O país continuará pagando o FMI, Banco Mundial, BID...
- Em maio de 2005 o então presidente Néstor Kirchner abre a reestruturação dos títulos da dívida em estado de calote. Bônus sofrem perda do valor nominal de 0% a 65% (dependendo de cada caso de bônus) e prolongam-se por 42 anos o prazo para pagamento do capital (mas não de juros, que já estão sendo pagos). No entanto, para quem esperou até aí (e não repassou seus bônus), os novos títulos acabaram tendo valores reais maiores do que na véspera do calote em 2001, quando não valiam quase nada.
- Ficaram de fora da reestruturação da dívida uns 25% dos credores, que acumulam títulos com valor nominal de US$ 20 bilhões (que teriam US$ 30 bilhões com juros acumulados...como valor nominal).
Kirchner dizia que a reestruturação dos títulos estava fechada definitivamente. E afirmava que quem não havia aceito a reestruturação, ficaria fora de qualquer pagamento “para sempre”.
- O governo até aprovou uma lei determinando que a reestruturação não seria mais reaberta, a “Lei Cerrojo” (Lei Ferrolho). Isso, para o caso de que outro governo, no futuro, tentasse reabrir a troca de títulos (no fundo, foi só esperar a posse de outro Kirchner, Cristina, neste caso para mudar as regras, novamente).
- Os credores que ficaram de fora, os “holdouts”, sempre pesaram negativamente na imagem da Argentina nos mercados.
- Por isso, o governo, nos últimos meses, voltou atrás em suas promessas e manobrou para reabrir a reestruturação da dívida com os holdouts.
O embargo nos EUA pode complicar as negociações para pagar o restante desta dívida, e assim, como diz a presidente Cristina, “encerrar o calote” com os credores que ficaram de fora da reestruturação em 2005...que supostamente estava fechada.

Bom, voltando ao seguinte round entre governo e oposição...
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O OKUPA, O EMBARGADOR SERIAL E A JUÍZA DELIVERY
Após o impacto, o ministro Boudou, em coletiva de imprensa, referiu-se à existência de uma quinta-coluna ao afirmar que existem “representantes dos fundos abutres dentro da estrutura do Estado argentino”.
Boudou também sustentou que o vice-presidente da República, Julio Cobos – que rompeu com a presidente Cristina e tornou-se o principal presidenciável da oposição – é o “chefe de fato” do anti-kirchnerismo.
Segundo Boudou, Cobos lidera um “complô” contra o governo, aliado com os “abutres” locais.
Na sequência, no início da noite, foi a vez da presidente Cristina, que disparou uma metralhadora de acusações.
A presidente Cristina denominou o presidente do Banco Central, Martín Redrado, de “okupa” (invasor de casas).
Também disparou contra a juíza María José Sarmiento (que dias antes havia restituído Redrado no cargo), chamando-a de "juíza delivery".
E além disso, atacou o vice-presidente Julio Cobos, a quem acusou de “querer ser presidente do país antes das eleições de 2011”.
E de brinde, também desferiu críticas sobre o juiz Griesa, a quem denominou de "embargador serial".
Aliados da presidente Cristina exigiram a renúncia do vice Cobos.
Cobos, no fim da noite, respondeu: “eles veem fantasmas onde não existem”.
E depois, arrematou: “terminarei meu mandato em 2011 e (ele e Cristina Kirchner) iremos embora juntos”.
PINGUINS, RATAZANAS & ABUTRES
Nesta quarta-feira, em um comício na Grande Buenos Aires, nas proximidades do rio Riachuelo, o mais fétido da Argentina (há séculos poluído; primeiro por curtumes, posteriormente por outras indústrias), a presidente Cristina Kirchner afirmou que os “fundos abutres” são “ratazanas” do Riachuelo que ficam “a espreita” de seu governo e do país.
Além disso, criticou os partidos de esquerdas, que nos últimos dias pediram a suspensão do pagamento da dívida, por considerá-la “ilegítima”, pois cresceu de forma acelerada durante a ditadura militar (1976-83).
Segundo Cristina Kirchner “a hora de ter declarado essa dívida legítima ou ilegítima foi no primeiro governo civil após a ditadura. Depois não há jeito – por mais que pareça bonitinho – de determinar se essa dívida é legítima ou ilegítima!”.
MAIS IMBROGLIO, AFIRMAÇÕES E DESMENTIDOS
A capital argentina viveu na sexta-feira no fim do dia uma confusa troca de afirmações e desmentidos entre o governo da presidente Cristina Kirchner e o presidente do Banco Central, Martín Redrado, sobre o embargo determinado pelo juiz federal Thomas Griesa, de Nova York.
A confusão iniciou quando o secretário de Finanças da Argentina, Hernán Lorenzino, afirmou categoricamente que o juiz americano havia determinado a suspensão do embargo sobre US$ 1,7 milhão das contas do Banco Central argentino na Reserva Federal dos EUA.
No entanto, horas depois, o presidente do BC desmentiu Lorenzino ao afirmar que as contas argentinas continuavam “congeladas”.
Lorenzino havia afirmado que Griesa havia feito uma suspensão temporária do embargo.
Mas, segundo Redrado, o juiz mantém o embargo, embora, a modo de trégua, tenha convocado ambos lados – governo argentino e credores americanos – para chegar a um acordo sobre os títulos da dívida em estado de calote desde 2001 que não entraram na reestruturação da dívida em 2005.
A confusão, evidentemente, promete continuar...
REAÇÃO NEGATIVA
Uma pesquisa elaborada pela consultoria Management & Fit sustenta que 79,7% dos entrevistados opõem-se ao uso das reservas do BC.
Apenas 7,6% dos argentinos concordam com a medida de reduzir o volume das reservas dos atuais US$ 47 bilhões para US$ 41 bilhões para pagar os credores privados.
DESCONFIANÇA SOBRE USO DO DINHEIRO
A pesquisa também indicam que 57,2% dos argentinos consideram que o governo pretende usar as reservas para pagar os gastos da campanha presidencial de 2011.
Somente 5,3% acreditam no discurso do governo Kirchner de usar as reservas para não ter que recorrer aos mercados internacionais, onde os créditos possuem juros altos.
Os argentinos também pretenderiam que o Congresso Nacional revise as decisões do governo sobre a dívida e o presidente do BC, que deram início a esta nova crise institucional argentina.
Segundo a pesquisa, 64,3% dos argentinos querem que o Parlamento revise as medidas da presidente Cristina.
E além disso, a pesquisa sustenta que 76,5% dos entrevistados não concordam com as manobras da presidente Cristina para remover o presidente do BC, Martín Redrado, de seu posto.
IMAGEM DETERIORADA
A imagem do casal Kirchner continua em deterioração. Segundo uma pesquisa da consultoria CCR e a Escola de Negócios da Universidade Austral, 47% dos pesquisados possuem uma imagem “ruim ou muito ruim” dos Kirchners.
Outros 26% a consideram “regular”.
Somente 25% a consideram “boa ou muito boa”.
Os números indicam uma drástica queda em relação a 2003, o primeiro ano de Néstor Kirchner no poder.
Na época, 77% dos argentinos possuíam uma imagem “boa ou muito boa” do casal.
Outros 18% tinham uma imagem “regular” dos Kirchners.
E apenas 3% possuíam do casal presidencial uma imagem “ruim ou muito ruim”.
Além disso, os argentinos estão preocupados pelo cenário econômico. De acordo com 58% dos entrevistados a situação econômica em 2010 será “pior ou muito pior” do que em 2009, ano no qual a Argentina mergulhou novamente em recessão.
Outros 29% consideram que a situação econômica será “igual” à de 2009. Somente 13% acreditam que será “melhor”.
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08.01.10

O governo da presidente Cristina Kirchner está, por contra própria, no meio daquilo que os argentinos chamam de “flor de quilombo”. Isto é, traduzindo livremente, “um imbróglio federal” ou um “abacaxi atômico”.
A palavra “quilombo” é utilizada no lunfardo (gíria) portenho. Em seu uso no século XIX referia-se aos quilombos rebeldes surgidos no Brasil. Mas, com o passar do tempo o significado original foi perdido e transformou-se em sinônimo de bordel. Nos últimos 50 anos mutou novamente e passou a equivaler a bagunça ou imbróglio de considerável magnitude.
E a palavra “bolonqui” é mais uma adaptação do lunfardo, que também coloca várias palavras “al revés” (ao contrário). No denominado ‘vesre’ (a palavra espanhola “revés” ao contrário), “bolonqui” é uma forma de dizer “quilombo”.
A palavra ‘flor’, neste caso, é usada para ressaltar a magnitude do imbróglio.
Flor de Bolonqui poderia ser “Um colossal abacaxi”.
RESUMO DA ÓPERA (de dimensões wagnerianas mas com um touch buffo de Gioacchino Rossini):
DRAMATIS PERSONAE –
Cristina Elisabet Kirchner, presidente da República que gosta do apelido de ‘Rainha Cristina’
Néstor Kirchner, ex-presidente da República, mas considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, que coincidentemente, foi sua sucessora
Martín Redrado, presidente ou ex-presidente do Banco Central,neo-liberal colocado no cargo pelos Kirchners em 2004 e que durante seis anos concordou com a política econômica do casal presidencial
Miguel Ángel Pesce, presidente do BC ou quase presidente do BC, melhor, presidente paralelo do Banco Central, designado por Cristina Kirchner para ser presidente temporário da entidade
Mario Blejer, ex-presidente do BC argentino, ex-funcionário do FMI, ex-diretor do Banco da Inglaterra, convidado para ser novamente presidente do BC (mas ainda não aceitou... ou algo assim)

Redrado, figura central deste imbroglio
LINHAS GERAIS DO LIBRETO
Quarta-feira, dia de Reis. Cristina E. Kirchner começa a manhã exigindo a renúncia do presidente do Banco Central, Martín Redrado, que até poucos dias, havia sido bastante obediente às ordens do governo.
Por trás da crise entre Redrado e a presidente Cristina está a decisão do governo de usar reservas do BC para o pagamento da dívida pública que vence em 2010.
Nos dias prévios Redrado havia dado sinais de que não concordava com o “Fundo Bicentenário”, um projeto do ministro da Economia, Amado Boudou, homem de confiança da presidente Cristina, que pretendia usar as reservas do BC para o cancelamento da dívida de US$ 6,5 bilhões relativos a parte dos títulos da dívida pública que vencem neste ano.
O uso das reservas provocaria uma redução das reservas do BC dos atuais 47,98 bilhões para US$ 41,48 bilhões.
Mas, a gota d’água havia ocorrido entre a terça-feira à noite e a quarta-feira de manhã, quando surgiu a notícia de que Redrado se reuniria com dois importantes líderes da oposição, o senador Gerardo Morales e o deputado Ernesto Sanz, da União Cívica Radical (UCR). Morales e Sanz pretendiam saber da própria boca de Redrado se ele era – ou não – a favor do uso das reservas do BC.
Cristina, sem esperar uma resposta de Redrado – e com a certeza que o jovem presidente da entidade não ousaria desafiar o poder dos temperamentais e vingativos Kirchners - até havia convidado o ex-presidente do BC, Mario Blejer, para assumir o posto vazio.
Mas, o posto não estava vazio...o presidente do BC (isto é, Redrado) deixou claro que não renunciaria.
Tensão crescente entre a Casa Rosada e o Banco Central ao longo do dia.
Entram em cena os partidos de oposição (do lado de Redrado) os sindicatos (do lado da presidente Cristina), banqueiros alinhados com os Kirchners. E de quebra, os partidos de esquerda tradicional (contra Redrado e contra Cristina Kirchner). E além deles, entram em cena os mercados assustados com todo o rebuliço.
Na quarta-feira, a inesperada decisão de Redrado – conhecido por evitar ao máximo os confrontos – de resistir à pressões é considerada mais um revés para a presidente Cristina e seu marido, ex-presidente e atual deputado Néstor Kirchner.
Os líderes dos partidos da oposição ficam enfaticamente do lado de Redrado e afirmam que sua eventual remoção deveria ficar a cargo do Senado (tal como a lei manda) onde o governo está em ajustada minoria.
Na quinta-feira Redrado acorda e vai para o prédio do BC. Na porta da casa, afirma que continuará no posto e não vai renunciar.
Mais de 300 funcionários do BC realizaram um “aplaudaço” de respaldo a Redrado na frente do edifício da entidade financeira.
Além deles, Redrado contar com a opinião pública, já que diversas pesquisas indicam que 85% dos internautas não concordam com a remoção do presidente do BC.
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Uf!
Bom, uma pausa, e música para acompanhar o ritmo desta crise: “Liebesbotschaft Galopp”, de Johann Straus.
O link:
http://www.youtube.com/watch?v=ss5OW5jBzpo&feature=PlayList&p=F8D9CDEB590B0D35&index=0
A presidente Cristina Kirchner opta pelo denominado “estilo K” de aplicar ordem em seu governo, e sem delongas decide demitir Redrado do Banco Central, passando por cima da autonomia (frequentemente violada, por governos anteriores, inclusive) da entidade financeira.
Convoca todos os ministros para assinar um decreto que implicará na remoção de Redrado. Diversos ministros devem cancelar as férias na praia, interromper o bronzeado e os jogos de cartas com os amigos e voltar à abafada Buenos Aires para colocar a rubrica no documento de Cristina.
Fim da tarde, Redrado é removido do posto por decreto.
- A oposição afirma que Cristina Kirchner não pode interferir na autonomia do BC.
- O governo diz que sim, pode interferir à vontade.
Na sequência, rumores indicam que Redrado se entrincheirará no prédio do BC. Fontes do governo afirmam que vão enviar a polícia retirar o rebelde presidente do BC dali.
Quase à meia-noite da quinta-feira, Redrado, que ainda estava no prédio do BC, anunciou que “deixa o cargo mas não renuncia” e que recorrerá à Justiça
O país contava na sexta-feira ao meio-dia com dois...ou três presidentes do BC.
1 - Redrado que foi embora mas não renunciou.
2 - Pesce, que tomará posse provisoriamente
3 - Blejer que foi convidado pelo governo. E o governo já anunciou categoricamente que será o presidente definitivo do BC.
SEM BANDA LARGA
Detalhe da web: até as 15:30 (horário de Brasília), no site do Banco Central Argentino, Redrado ainda aparecia como virtual presidente da entidade.
M.A. Pesce ainda era registrado como o vice-presidente.

Redrado, Blejer, presidentes e ex-presidentes do BC...e ainda, está o 'interino', M.A.Pesce
MAS...
No fim da tarde, tudo isso era parte do passado.
Os céleres e frenéticos acontecimentos exibiram uma nova virada no fim desta sexta quando a juíza federal María José Sarmiento ordenou a restituição no cargo de Martín Redrado.
Redrado, que ficou quase 24 horas fora de seu cargo, fez uma reentrada triunfal ontem no fim da tarde, aplaudido pelos funcionários da entidade
E de quebra, a juíza María José Sarmiento determinou a suspensão do decreto da presidente Cristina que implementava uso de reservas para o pagamento da dívida pública.
E o governo afirma que vai entrar com um recurso na Justiça para desfazer a medida da juíza Sarmiento que desfez a ordem da presidente Kirchner.
Setores da oposição afirmam que levarão a presidente Cristina a julgamento político no Parlamento.
O quilombo atinge níveis sem precedentes. Uma flor de bolonqui. Bolonqui wagneriano. Ou bolonqui-buffo.

Crise desatada por Cristina teria rendido libreto para uma ópera buffa de G.Rossini (1792-1868).
Ou, talvez uma ópera trágica, com mega-produção, como as de Richard Wagner.
Embaixo, Johanna Gadki(1872-1932), soprano americana-alemã no wagneriano papel de Brünnhilde.

PARADOXOS do bolonqui
Os Kirchners dizem que são de esquerda mas querem pagar as dívidas com Wall Street, organismos financeiros internacionais e demais credores.
A direita, que costuma pedir o pagamento das dívidas, não quer que este pagamento específico seja realizado dessa forma, pois complicaria a situação das reservas do BC e alega que esse pagamento será feito de forma ilegítima.
A esquerda tradicional, que também critica os Kirchners, respalda por tabela o presidente neo-liberal do BC, Redrado, e afirma que a dívida não deve ser paga. Diferença com Redrado: “a dívida é ilegítima”.
A Confederação Geral do Trabalho (CGT) acusa Redrado de ser um representante do neo-liberalismo e dos capitais transnacionais, além de ser um homem das “direitas”.
Mas, a CGT aceita a decisão dos Kirchners de colocar Blejer no comando do Banco Central. Blejer, longe de ser um revolucionário de esquerdas, trabalhou 20 anos para o FMI (que os Kirchners e a CGT abominam), para o Banco da Inglaterra e já foi presidente do BC durante o governo de Eduardo Duhalde (que os Kirchners e a CGT abominam).

Relação entre Redrado e Cristina Kirchner foi boa na maior parte do tempo
PROBLEMAS deste bolonqui
Segundo o cientista social Sergio Berensztein, diretor da consultoria Poliarquia, as pressões do governo sobre Redrado “aprofundam a insegurança jurídica” e podem provocar “consequências institucionais muito negativas”.
O think tank Rosendo Fraga afirma que os Kirchners acostumaram-se a governar como “hiper-presidentes”. Mas, destaca que esse período no qual os Kirchners podiam fazer o que queriam, acabou.
Este é mais um abacaxi que Cristina Kirchner cria para si própria.
De quebra, nos últimos dias pipocaram por todos os lados candidaturas presidenciais da oposição.
Além disso, teve vários reveses na Justiça, que cancelou diversas medidas polêmicas de Kirchner, entre elas, vários artigos da Lei de Mídia.
Como se fosse pouco, nos últimos dois meses intensificaram-se os protestos de sindicatos independentes, aumentou a pobreza e o desemprego.
O ano do Tigre não começou bem para ‘Los Pingüinos’.
BOLONQUI PLUS - REVESES & REBELIÕES que aumentam o bolonqui generalizado
Desta forma, a presidente Cristina Kirchner sofre a segunda rebelião de peso em suas fileiras em dois anos de governo. A primeira, em julho de 2008, foi a do vice-presidente Julio Cobos, que recusou-se a votar a favor do “tarifaço agrário” do governo no Senado. Com seu voto de Minerva (o vice, na Argentina, é o presidente da Câmara Alta), derrubou o impopular projeto.
Aliados do governo exigiram a renúncia de Cobos. Este, no entanto, recusou-se a deixar o cargo. Cobos voltou à oposição e atualmente – ainda ocupando o cargo de vice-presidente - é o principal presidenciável para as eleições de 2011.
A segunda rebelião é a de Redrado, economista de confiança do casal Kirchner, que em diversas ocasiões o consideraram para a pasta da Economia.
Os dois golpes, provenientes de ex-aliados, acrescentam-se à perda de poder do governo, que desde a posse do novo Parlamento, em dezembro, constitui a primeira minoria na Câmara de Deputados e no Senado.
De quebra, o governo também sofreu recentes reveses em sua guerra contra o Grupo Clarín, o maior holding multimídia do país. Ao longo das últimas quatro semanas vários juízes anularam artigos da polêmica Lei de Mídia, com a qual o governo pretendia reduzir o poder de atuação das empresas de comunicação. Além disso, a Justiça também suspendeu a anulação realizada pelo governo da fusão das empresas Multicanal e Cablevisión, pertencentes ao Clarín.
Além disso, nas últimas duas semanas foram anunciados oficialmente o lançamento de diversas candidaturas presidenciais da oposição.
Lançaram suas candidaturas o ex-presidente Eduardo Duhalde o vice-presidente Cobos e o prefeito portenho Mauricio Macri.
Para complicar, as pesquisas indicam que a aprovação popular do casal Kirchner é baixa, enquanto que sobe diariamente a imagem positiva dos líderes da oposição.

Cenário é de várias 'flores' de bolonqui
BOLONQUI TRADICIONAL: em 75 anos de existência, BC argentino teve um presidente a cada 16 meses
O Banco Central da Argentina conta com autonomia desde 1995. No entanto, nestes 15 anos autônomos, a liberdade do BC foi atacada várias vezes pelos governos de plantão. Nesse período, a entidade financeira teve sete presidentes, incluindo o atual (removido mas não renunciado), Martín Redrado (um presidente do BC a cada dois anos).
A primeira grande violação da autonomia do BC ocorreu em abril de 2001, quando o então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) decretou a remoção do presidente da entidade, Pedro Pou, considerado uma “herança” do governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-99). No meio da crescente crise financeira, De la Rúa acusou Pou de “negligência” no cumprimento de suas funções no controle de lavagem de dinheiro e de “desconhecimento sobre o alcance de suas funções como policial do sistema financeiro”.
Seu sucessor, Roque Maccarone, foi pressionado em 2002 pelo então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) para deixar o cargo por causa de divergências entre o governo e o BC sobre o “corralito” (o mega-confisco bancário que agravou a crise de 2001-2002).
O sucessor de Maccarone, Mario Blejer, que durante 20 anos havia trabalhado no FMI, durou somente cinco meses no cargo, o qual deixou por diferenças com o ministro da Economia, Roberto Lavagna. Blejer, ao ir embora, disse a Duhalde que a autonomia do BC estava sendo “debilitada”.
O sucessor de Blejer, o jovem Alfonso Prat-Gay, ficou quase dois anos no cargo. Prat-Gay completou o mandato inacabado de seus sucessores. Mas, embora respaldado pelo setor financeiro e o empresariado, optou por não aceitar a renovação do mandato por causa das profundas divergências que tinha com o presidente Néstor Kirchner sobre a independência do BC. Prat-Gay foi sucedido por Martín Redrado, cujo cargo, oficialmente, só conclui em setembro.
Desde sua criação, em 1935, o Banco Central teve um total de 54 presidentes. Isso indica que em 75 anos de existência, a entidade teve um presidente do BC a cada 16 meses.
FLORES, QUILOMBO E ÓPERAS

E falando sobre a flor de quilombo, e crise com enredo operístico, este link do Youtube para Plácido Domingo interpretando em 1978 a ária “La fleur que tu m'avais jetée" (A flor que você me jogou), da ópera “Carmen”, de Georges Bizet. A orquestra é da Ópera de Viena. Regência de Carlos Kleiber. Direção de Franco Zeffireli.
O romance do militar José com a independente e passional Carmen acaba sendo uma flor de bolonqui...
O link:
http://www.youtube.com/watch?v=tVY3vKQKSv4&feature=related
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
05.01.10

Santos populares argentinos são protagonistas de histórias trágicas. O Gauchito Gil retratado em uma estampa popular. Hoje falaremos sobre ele e outra santa popular argentina, 'La Difunta Correa', a pedido do comentarista Laerte Carmello.
No pé desta postagem, a notícia sobre a morte do cantor Sandro, um dos ícones da música pop argentina.
Nas últimas décadas a influência da Igreja Católica sofreu uma redução substancial entre os argentinos. O número de ateus e agnósticos cresceu de forma acelerada. Simultaneamente, aumentaram os integrantes de igrejas evangélicas. Mas, dentro do próprio catolicismo, também consolidaram-se cultos a santos "populares", "não-oficiais", como o Gauchito Gil e a Defunta Correa.
A cúpula da Igreja Católica não reconhece estes santos no "panteão" oficial dos santos canonizados pelo Vaticano, já que para isso seriam necessários dois milagres confirmados, verificados por doutores em teologia e outros especialistas do ramo certificados pela Santa Sé. O segundo e terceiro escalão do clero geralmente encaram os cultos como "manifestações de intensa fé". Mas, tentam conduzir os fiéis para o culto de santos ‘autorizados’.
Estes santos populares tiveram - todos - mortes trágicas. São falecimentos de elevado sofrimento, que fazem que os fiéis considerem que foi uma espécie de visto imediato para um passaporte que limpa os mártires de todos seus pecados e os coloca em contato direto com Deus.
De quebra, são santos "locais", isto é, uma espécie de encarregados diretos, encarados como se fossem divindades com menos serviço do que os santos ou virgens de alçada mundial. Desta forma, o milagre solicitado deveria - teoricamente - ser concedido (se for o caso) de forma mais rápida. Uma espécie de "atalho" entre a pessoa que solicita um milagre e o alvo do pedido, isto é, Deus.
As lendas indicam que estes santos não-oficiais possuiriam maior ‘percepção social’ do que seus congêneres europeus e compreenderiam melhor eventuais "debilidades", como a de roubar por necessidade.
Enquanto que não seria adequado solicitar ajuda celestial a um santo como são Francisco, são Miguel, santa Teresa ou as Virgens de Covadonga, Fuencisla ou Lourdes para ter sucesso em um eventual roubo com o qual poderá saciar a fome de sua família, a pessoa em questão sim poderia pedir ao Gauchito Gil um respaldo santificado nessa empreitada.
No entanto, o gauchito condenaria e puniria um roubo por cobiça. A "Difunta", além de ajudar as pessoas, castigaria aquelas que se comportam mal.
O culto a alguns santos populares, que no final do século XIX ou na primeira metade do século XX estavam restritas a suas áreas originais de influência nas pequenas cidades do interior da Argentina, começaram a expandir-se para as grandes cidades do país.
Desta forma, atualmente é comum ver taxistas com estampas do Gauchito Gil ou comerciantes com uma foto do altar da cantora Gilda (falecida de forma trágica em um acidente na estrada) ou do cantor Rodrigo Bueno (também falecido em um acidente) ao lado da caixa registradora.
'San La Muerte' é outra das figuras que integram a equipe de assistentes celestiais que encurtariam o caminho entre aqueles que pedem milagres e os céus.
No entanto, o Gauchito Gil foi mais além que seus colegas do panteão dos santos extra-oficiais e já conta com um grupo no Facebook.

A Defunta Correa. Estátua em seu principal santuário.
A DEFUNTA
Deolinda Correa, mais conhecida como "La Difunta Correa" (A Defunta Correa), era a mulher de um homem que foi obrigado a engajar-se em um dos exércitos que protagonizavam a miríade de guerras civis que assolavam a Argentina nas primeiras décadas do século XIX.
Deolinda tentou seguir a trilha dos soldados que haviam levado seu marido. Mas, carregando seu bebê nos braços, perdeu-se no meio de uma área desértica. Esgotada, sentou-se no chão e morreu de sede.

Deolinda, 'La Difunta', amamentando quando estava já morta
Dias depois, um grupo de gauchos passou por ali. Os homens viram o corpo sem vida de Deolinda. E, em seus braços - diz a lenda - estava seu bebê, que ainda mamava dos seios cheios de leite da mãe morta. A criança foi resgatada pelos gauchos, que ficaram impressionados com a cena.
Gradualmente, os gauchos que nos anos seguintes passavam por ali, começaram a deixar garrafas d’água para sacia a eterna sede da ‘Defunta’ Correa. No final do século XIX a peregrinação até o lugar começou a ficar intensa. O fenômeno consolidou-se no século XX.
No início ela era procurada para realizar milagres de saúde, além de proteger os viajantes. Mas, no meio da série de crises que afetaram a Argentina nas últimas décadas, a ‘Difunta’ passou a ser requerida para estas áreas.

Gauchito Gil teria 'sensibilidade social',afirmam seus seguidores
GAUCHITO GIL
Antonio Mamerto Gil Núñez, que entrou para o panteão extra-oficial dos santos argentinos com o nome de "Gauchito Gil", era um jovem gaucho que - segundo a lenda - comportava-se como uma espécie de "Robin Hood" local, roubando dos ricos para dar dinheiro às pessoas que passavam fome. No entanto, as autoridades da região, na época, o consideravam um gaucho briguento e ladrão.
Este gaucho, misto de bandoleiro e benfeitor, com o início da guerra do Paraguai (1865-1870), foi recrutado pelo Exército. Gil fugiu e tornou-se desertor. Outras versões indicam que não desertou e que também participou de uma guerra civil interna em sua província. No meio desse segundo conflito bélico, teria tuido uma visão, enquanto dormia, do deus guarani Ñandeyara, que lhe ordenou "não derramar sangue dos irmãos". Nesta segunda versão, Gil teria desertado dessa guerra civil.
Após desertar, dedica-se à uma vida de "Robin Hood". Nas pausas, aproveita para participar de festas e bailes.
Anos depois, foi encontrado pela polícia. Não tentou resistir, obedecendo a ordem de Ñandeyara.
Depois de uma longa sessão de torturas no meio do campo, os policiais penduraram Gil de um "algarrobo" (uma árvore de madeira muito dura) de cabeça para baixo.
Um dos policiais ergueu o punhal e preparou-se para cortar o pescoço de Gil. Nesse instante, o gaucho murmurou: "seu filho está muito doente. Se você rezar para ele, a criança viverá. Caso contrário, morrerá".
Gil também teria dito que, quando o policial voltasse para o vilarejo de Mercedes, além de saber da doença do filho, também ficaria sabendo que as autoridades haviam indultado o foragido. "Você vai derramar sangue inocente, por isso, reze para mim para que eu interceda perante Deus nosso senhor pela vida de seu filho...o sangue dos inocentes costuma servir para fazer milagres", disse o prisioneiro.
O policial ignorou as afirmações do prisioneiro e o degolou. Poucas horas depois, de volta a seu vilarejo, o policial foi informado que seu filho estava profundamente doente. Desesperado, o policial rezou a Gil para que salvara a criança. Segundo a lenda, o recentemente executado desertor salvou o menino desde o além. Agradecido, o policial enterrou Gil com as correspondentes honrarias cristãs e ergueu um santuário para ele.
Desta forma, é o caso de um santo popular cujo culto iniciou no dia seguinte à sua morte. E de quebra, seu primeiro devoto é o próprio verdugo.
Diplomaticamente, perante o crescente culto do Gauchito Gil, em 2006 o bispo Ricardo Faifer, bispo da cidade de Goya, perto de Mercedes, o definiu como "um irmão falecido que, acreditamos, está perto do Criador".

Altares dedicados ao Gauchito Gil espalham-se pelo país
O santuário, nas vizinhaças da cidade de Mercedes, na província de Corrientes, é objeto de peregrinações permanentes, para irritação da cúpula da Igreja Católica, que considera que seu culto é "pagão". A data em que o Gauchito é mais intensamente celebrado é o 8 de janeiro, dia que teria marcado seu sacrifício.
Mas, apesar de sua morte em 1874, seu culto só tornou-se nacionalmente intenso nos últimos 30 anos, época em que a Argentina mergulhou de crise em crise econômica.
Na província, que é vizinha ao Rio Grande do Sul, a peregrinação ao santuário do Gauchito Gil, em média de 130 mil pessoas no dia 8 de janeiro, só é ultrapassada pela romaria realizada na Basílica de Itati, onde está a imagem da Virgem de Itatí.
O Gauchito Gil é retratado como um gaucho jovem, de cabelos longos e rebeldes que caem sobre os ombros, bigode e ‘boleadoras’ nas mãos. Atrás dele, costuma aparecer uma cruz. Se não fosse pela ausência da barba (somente possui o bigode) e a vestimenta gauchesca (e as boleadoras), sua figura poderia ser confundida com a iconografia costumeira de Jesus Cristo.
Entre todos os santos populares, o culto do Gauchito Gil é o que mais teve repercussões artísticas, tanto em formato de canções, filmes, peças de teatro, além de repentistas.

O cantor Sandro não fez milagres celestiais convencionais. Mas, fez que milhões de ‘chicas’ argentinas fossem felizes durante décadas.
Na foto, Sandro pouco antes de ser submetido às diversas cirugias que tentaram salvar sua vida. Com entusiasmo, vestido com um robe de chambre no pátio do hospital, saudou suas fãs.
DOS POODLES DE OKLAHOMA A EL GITANO: FALECEU SANDRO, UM DOS FUNDADORES DO ROCK ARGENTINO

“Las nenas” ou “Las chicas” (sinônimos para ‘as meninas’), a denominação das cinquentonas, sexagenárias e septuagenárias fãs do cantor argentino Sandro, ícone da música popular argentina, estão de luto desde esta segunda-feira à noite, quando seu ídolo faleceu vítima de um choque séptico. O cantor, que há anos sofria um grave enfisema pulmonar, havia passado por um transplante duplo de pulmões e coração em novembro passado, após oito meses na lista de espera de um doador. Nos últimos dias, perante o agravamento do estado de saúde de Sandro, suas fãs organizaram em todo o país milhares de cadeias de oração. Sandro estava internado em um hospital na cidade de Mendoza, no oeste da Argentina.
Todos os canais de TV na Argentina interromperam sua programação normal para anunciar o falecimento do ídolo de multidões.
O Washington Post estampou o título: "Morreu o Elvis argentino".
O cantor foi velado com honrarias no Congresso Nacional. Milhares de fãs, desconsoladas, choravam em silêncio na fila para dar o adeus ao ídolo. 50 mil pessoas foram ao velório. Sandro foi enterrado nesta quarta-feira.
Sandro – também chamado de “Sandro de América” - cujo nome verdadeiro era Roberto Sánchez, é considerado um dos fundadores do rock no mundo hispano-falante. Ele foi a principal figura do rock argentino nos anos 60 e início dos 70.
Posteriormente, o cantor adaptou-se às baladas românticas e o pop latino. Carismático, low profile em sua vida pessoal, Sandro transformou-se em um cantor ‘cult’ desde a virada do século.

Famoso em toda a América Latina, o cantor também fez sucesso entre o público hispano nos EUA. Em, 1970 tornou-se o primeiro artista latino a apresentar-se – e lotar – o estádio Madison Square Garden, em Nova York. Nos anos 80 foi desprezado pela crítica, que o acusava de ter um estilo “brega”.
Mas, nos anos 90 sua imagem foi recuperada. Sandro convidado pelos jovens roqueiros argentinos para realizar duetos e tratado como um mestre.
Por causa de seus graves problemas respiratórios, Sandro não realizava shows desde o ano 2001. Assolado por um enfisema pulmonar, no último show Sandro cantou com um microfone que estava conectado a um tubo de oxigênio.
Sandro manteve ao longo de sua carreira a marca do requebrado e movimentos pélvicos que enlouqueciam as fãs. Com um look inspirado em Elis Presley, os especialistas posteriormente indicaram que Sandro, na música argentina, teve peso similar ao que Roberto Carlos teve no Brasil. E, em certo período de sua vida cultivou um look similar ao de Sidney Magal, com toques ciganos que lhe valeram outro apelido, "El Gitano" (nome de um filme seu, aliás).
Com o passar do tempo Sandro trocou a jaqueta de couro pelo smoking. Nos shows também apresentava-se com um robe de seda vermelha. Apesar da troca de vestimenta, continuou mantendo o requebrado impetuoso à moda de Elvis Presley que nos anos 60 e 70 escandalizava a Igreja Católica, que pedia que suas imagens não fossem transmitidas pela TV.
Sandro foi o primeiro cantor que contou com frenéticas fãs que tentavam arrancar sua roupa. Nos shows que realizava no início dos anos 70 “las chicas” arremessavam sua lingerie sobre o cantor. No final dos anos 90, as mesmas fãs, 30 anos mais velhas, continuavam arremessando a roupa de baixo na direção do cantor (além de centenas de bichinhos de pelúcia em cada show).
Sandro debutou na carreira artística em 1960 quando fundou o grupo “Los caniches de Oklahoma” (Os poodles de Oklahoma), cujo primeiro sucesso foi “Comendo rosquinhas quentes na Ponte Alsina”, considerada por vários estudiosos como o primeiro rock argentino que foi gravado.
Em 1961 Sandro e seus parceiros de grupo deixaram de lado o irônico nome canino e mudaram o nome do conjunto para “Sandro y los del fuego” (Sandro e os do fogo). Posteriormente fez carreira solo com os apelidos de “Sandro” e “O cigano”.
NENAS E LINGERIE - Em 2001 fui assistir aquele que seria o último show de Sandro, no Teatro Gran Rex, em plena avenida Corrientes, em Buenos Aires.
Sentei no “poleiro”, isto é, nas últimas filas. Ali pude ver o frenesi das “nenas” de Sandro (90% do auditório), que viam seu envelhecido cantor como um sex symbol no auge de sua sensualidade.
As cinquentenárias, sexagenárias e septuagenárias ‘nenas’ gritavam como fãs adolescentes a cada movimento pélvico (breves, nessa ocasião, pois já estava doente) de Sandro, enquanto arremessavam sutiãs e calcinhas sobre o palco.
Foi uma experiência antropológica. Não vi tal festival de hormônios femininos em fervorosa exaltação a um cantor sequer nas adolescentes que assistiam os 'Backstreet boys' ou representantes de diversas gerações que viam os Rolling Stones.
Canastrão, mas carinhoso, com um toque de gentleman, Sandro conseguiu 'sacudir' gerações de mulheres na América Latina.

Sandro, em um filme de 1975
“Um sedutor mitológico sem a ajuda dos manuais” - O “Clarín”, sobre Sandro: http://www.clarin.com/diario/2010/01/04/um/m-02113277.htm
A construção do mito: http://www.clarin.com/diario/2010/01/04/um/m-02113269.htm
Velório no Congresso Nacional, segundo o “La Nación”: http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1218547&pid=8032111&toi=6253

LINGERIE VIRTUAL: E, de quebra, as fãs de Sandro, no dia de seu funeral, criaram um site no qual elas podem deixar para seu ídolo – de forma virtual - as lingeries que elas teriam jogado pessoalmente sobre ele.
O link:
http://www.perfil.com/contenidos/2010/01/06/noticia_0028.html

Sandro, em um de seus últimos shows
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
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31.12.09

Frankenstein (Boris Karloff - 1887-1969 - na verdade, com muita maquiagem em cima) beberica um cafezinho enquanto espera 2010. Será um bom ano!
Caras e caros,
Aproveito o último dia do ano para uma postagem múltipla.
Temos férias, Jack Nicholson perdendo a mala em Ezeiza e sóis sorridentes.
Vamos por partes.
FÉRIAS
Nosso emérito Gustavo Chacra, amigo e blogueiro de “De Beirute à Nova York”, comenta em sua postagem de fim de ano sobre o êxodo de pessoas à procura de praias no verão (a não ser os sortudos que residem em centros urbanos à beira do mar). Neste caso, cita os portenhos dos bairros da classe média, média alta e alta, que viajam para praias brasileiras. E, sem dúvida, a elite argentina também vai em peso à uruguaia Punta del Este (e, nas proximidades desta, a mais elitista ainda José Ignacio). Aliás, Punta del Este fica cada vez mais cheia de brasileiros.
Os portenhos – e argentinos do interior – de menores recursos financeiros devem resignar-se a algumas praias da província de Buenos Aires, entre elas Mar del Plata, que no passado remoto foi o balneário ‘in’ do país.
No entanto, alguns setores oceânicos bonaerenses também possuem prestígio, e recebem pessoas mais abastadas. É o caso de Pinamar, Cariló e Mar de las Pampas. E eventualmente, algumas famílias passam parte do verão em Cariló e outra parte em Punta del Este.
Mas, é preciso destacar que também existem praias fluviais argentinas ao longo dos rios Paraná e Uruguai, que ficam repletas de pessoas nos dias quentes de verão.
No entanto, as praias brasileiras, são, sem dúvida, um dos pontos de permanente interesse para os argentinos.
Os argentinos foram em massa ao Brasil desde 1978, época da famosa “Plata dulce” (Dinheiro doce), isto é, a ciranda financeira na qual a Argentina embarcou por causa das peculiares políticas econômicas do ministro José Martínez de Hoz, o ministro mais notório da última ditadura militar. O fluxo de argentinos ao Brasil persistiu apesar das constantes crises econômicas e das desvalorizações da moeda nacional, o peso.
Em 2008 mais de um milhão de argentinos visitaram o Brasil. Primordialmente as praias.
Ah! Os portenhos, de qualquer classe social, que ficam na cidade (pelos mais diversos motivos), sem uma praia nas vizinhanças, não se avexam, e – à europeia – tomam sol nas praças da cidade.
A praça do cemitério da Recoleta, a Praça Francia, os parques de Palermo, Parque Thays, Parque Las Heras, Parque Rivadavia e Parque Centenário ficam lotadas de portenhos que tentam adquirir um “bronze” urbano com biquínis ou bermudas (a sunga não integra o vestuário de balneário, ainda que balneário ‘seco’ dos argentinos).
BUENOS AIRES É GENIAL (mas, sempre é bom estar precavido com certos assuntos, para que as férias não azedem)
Por isso, vamos para esta outra parte de nossa postagem...
SHOWS E COMÉRCIOS
De quebra, já que falamos em férias, umas recomendações aos brasileiros que desembarquem aqui hoje ou nos próximos dias:
- Buenos Aires não conta com grandes shows ao vivo para celebrar o ano novo. Nada de festivais apoteóticos de fogos de artifício ou espetáculos de tango ao lado do Obelisco. Nem grandes jantares em restaurantes (pouquíssimos hotéis e restaurantes farão celebrações hoje para seus hóspedes e clientes). Nada disso. O portenho celebra o Reveillon junto com a família, em suas casas.
Depois, se for o caso, sai para festejar com os amigos, ao redor das 3:00 da manhã.
Antes disso, é assunto familiar, ocasião para conversar com os parentes, ingerir opíparas porções de raviolis, ‘ensalada rusa’, carne bovina (comme il faut, estamos nos Pampas), leitão, entre outros quadrúpedes, bípedes e representantes do reino vegetal que transformam-se em carboidratos.
- Não há jornais neste dia 1 de janeiro (não há jornais nos dias 25 de dezembro, no dia 1 de maio, no dia do ‘canillita’ (jornaleiro) celebrado no 7 de novembro.
- Boa parte do comércio estará fechado neste primeiro dia do ano. Prepare-se para um dia de caminhadas pela cidade, que é genial para isso.
JACK NICHOLSON EM EZEIZA (esperemos que não seja necessário, mas, por via das dúvidas, é bom estar preparado)

O bom e velho Jack sempre ajuda a montar o personagem para reclamar sobre objetos perdidos ou roubados.
- O aeroporto internacional de Ezeiza conta com uma ativa máfia especializada na abertura de maletas alheias. Portanto, é recomendável, além de cadeado, e plastificar a mala, que não coloque nenhum objeto do qual vá sentir saudade dentro da mala.
Para atrasar o trabalho da máfia de Ezeiza existem várias estratégias, entre elas, a colocar uma grossa e grande folha plástica na parte de dentro da mala e assim, “embrulhar” o conteúdo interno em uma derradeira capa de “resistência” às mãos alheias (esse embrulho interno de plástico é devidamente acompanhado de várias voltas de firme fita adesiva).
Dá trabalho, mas é uma forma de propiciar à sua mala melhores chances de chegar incólume.
A máfia de Ezeiza foi denunciada pela imprensa portenha. Após o escândalo, há dois anos, a máfia teve um período de atividade light. Mas, diante da ausência de medidas concretas por parte das autoridades, voltou à ativa.
Atenção: as companhias áreas (de vários países, não só daqui), não costumam dar muita bola para as reclamações de passageiros que tiveram suas bagagens roubadas, desaparecidas em missão ou saqueadas (um termo mais sincero).
Aquela tradicional frase das companhias “preencha este formulário com a descrição da mala e seu conteúdo” pode ser rebatido com uma lista previamente impressa do conteúdo e...golpe de efeito (ahá!!), uma foto da mala antes de embarcar (leve em um pen-drive ou imprima. Ou ambas).
Defesa do consumidor? Não existe, praticamente.
Mas, tomando as devidas precauções, com a mala blindada (o ideal seria colocar um localizador eletrônico dentro delas...), é relativamente possível passar pelo aeroporto de Ezeiza incólume para poder desfrutar de vários dias na agradável Buenos Aires.
Atenção 2: O aeroporto de Ezeiza pode ser um reduto da máfia das malas..mas uma situação pior existe em Roma. E no imenso aeroporto madrilenho de Barajas, as malas se perdem com frequência intensa.
Na hora de reclamar, pense que você tem a cara enlouquecida de Jack Nicholson em “O iluminado”...mas fale como Anthony Hopkins interpretando o doutor Hannibal Lecter, em “O silêncio dos inocentes”.
Treine na frente do espelho. Claro, sem fazer aquele ‘slurp’ que Hopkins faz na frente de Jodie Foster, já que pode ser interpretado de outra forma...

“Onde está minha maleta?” Com certeza, Hannibal Lecter sempre recuperou suas malas perdidas.
- As greves são frequentes em companhias aéreas que operam no país. Portanto, leve sempre um bom livro ou música para ouvir, já que o risco de esperas prolongadas sempre existe. No caso de greves, desista. Aí não tem jeito mesmo. Não adianta fincar o pé. Os sindicatos possuem o respaldo explícito do governo. E uma greve em uma companhia possui um efeito dominó sui generis nas outras.
A saída é ficar de olho na mídia para ver se há greves do setor pairando – valha o trocadilho – no ar. Tudo isso para não ficar em terra, e não ficar (trocadilho náutico) vendo navios...
DINHEIRO
As pessoas na Argentina estão acostumadas a usar dinheiro cash. E possuem bons motivos para isso. Um dos motivos (a lista é longa, mas me atenho ao quesito ‘férias’) pelos quais um turista deveria inspirar-se neles é o do costumeiro não-funcionamento adequado dos caixas eletrônicos.
Outra coisa: ao chegar em Ezeiza, caso tenha pressa em trocar dinheiro, troque no Banco de La Nación, no hall do aeroporto. Costuma estar aberto todos os dias. Outros lugares nem sempre possuem um câmbio, digamos assim...‘justo’.
Mais um detalhe: a falsificação de dinheiro é grande na Argentina. Há grandes especialistas na falsificação de dólares e pesos. Fique de olho. As falsificações são muito boas. Em grande parte das ocasiões, as pessoas que repassaram notas falsas (um lojista para seu cliente, por exemplo) nem perceberam que a cédula entregue era pura falcatrua monetária.
TÁXIS
Nada de pegar os táxis que se oferecem no hall de Ezeiza. É arriscado. Pegue um táxi - isto é, um remis, um carro de aluguel - de uma agência que tenha guichês no hall do aeroporto. Ou um ônibus dessas empresas.
ROUBOS
Buenos Aires é uma cidade onde a criminalidade aumentou de forma substancial ao longo da última década. Mas, apesar disso, ainda é uma cidade muito menos insegura do que o Rio de Janeiro ou São Paulo.
No entanto, os batedores de carteira estão mais ativos no período de férias e ficam de olho nos desavisados turistas estrangeiros que caminham pela cidade.
Os pontos preferidos para estes “amigos del ajeno” (amigos do alheio, como dizem os portenhos) são:
- A calle Florida (via de pedestres que até início dos anos 90 ainda mantinha o charme. Agora, não mais. Só recomendaria os últimos quarteirões da Florida, isto é, no trecho entre a Avenida Córdoba e a Avenida Santa Fe).
- O bairro da Boca (bairro que costuma ser ‘pega-turista’...mas isso é assunto para uma outra postagem, na qual explicarei que as cores do ‘Caminito’ são algo fake e que de italiano o bairro quase não tem mais nada. E muito menos é o bairro do tango...)
- Ocasionalmente algum roubo pode ocorrer na área da Recoleta. Neste caso, a modalidade mais frequente é a dos ‘motochorros’, isto é, o ladrão que passa de motocicleta e arranca a bolsa de uma turista (ou nativa) que passa muito rente ao meio-fio.

SÓIS SORRIDENTES EM AMBAS MARGENS DO PRATA
O motivo dos sóis ‘sorridentes’ nas bandeiras da Argentina e do Uruguai era uma das inquietudes de nosso leitor-comentarista Mané. Aqui explicamos a origem destes sóis sorridentes:
As bandeiras da Argentina e do Uruguai possuem vários pontos em comum. Por um lado, ostentam o branco e o azul (no caso da Argentina, mais do que azul, é o celeste, se bem que em outras épocas era mais escuro esse azulado...mas esse é um assunto saboroso para outra postagem).

Bandeira argentina
Além disso, também ostentam um sol, muito similar. O sol parece sorridente...não de forma exagerada, mas mais como um sorrido de Mona Lisa. Ele possui uma ‘carinha’, com olhos, sobrancelhas e nariz.

O sol na bandeira argentina foi adotado em 1818, durante uma reunião do Congresso em Buenos Aires. É o mesmo sol que aparece na primeira moeda nacional cunhada pela Assembleia de 1813.
Este sol possui 32 raios. Dos quais 16 raios “retos” e 16 “flamejantes”. Isto é, 16 raios retinhos e outros 16 com curvinhas, como se estivessem em plena ação de ‘chamas’.
É chamado de “sol de mayo”, em referência à Revolução de Maio de 1810, estopim das revoltas de independência no rio da Prata.
O design deste sol foi realizado por um ourives de sobrenome Rivera (que tinha antepassados incas). Rivera recuperou o símbolo do sol dos incas, o ‘Inti’.
O mesmo sol inspirou os uruguaios, quando estes fizeram sua bandeira definitiva.
Até 1985 a bandeira com o sol era considerada “bandeira-mor” da nação (ou também a bandeira de guerra), e portanto, só podem ser usadas pelos edifícios públicos e as forças armadas. Os cidadãos argentinos só podiam usar as bandeiras sem o sol no centro.
Mas, atualmente a bandeira com o sol é a bandeira da Argentina de forma geral.

Na bandeira uruguaia, o sol tem uma carinha levemente mais sorridente. Possui menos raios que seu colega argentino. No total, o sol uruguaio possui oito raios flamejantes e oito raios retos.

Bandeira uruguaia

Alguns dos nossos queridos comentaristas-leitores que participaram da divertida reunião que realizamos em setembro em São Paulo. Possivelmente repetiremos o encontro em março. Em janeiro, para quem estiver em Buenos Aires, faremos uma reunião aqui mesmo, na ‘Reina del Plata’.
Um supimpa ano novo para todos!
E de presente de ano novo, um poema que Jorge Luis Borges apreciava muito, que não era dele, mas do inglês William Blake (1757-1827).
To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.
Para ver o mundo em um grão de areia
E um céu em uma flor silvestre
Segura o infinito na palma de tua mão
E a eternidade em uma hora

Para despedir 2010, o mais emblemático tango de Astor Piazzolla, “Adiós Nonino”, na versão com o próprio Piazzolla...
http://www.youtube.com/watch?v=eyJGDmgg0Vc&feature=related
E na versão, mais recente, com Yo yo Ma:
http://www.youtube.com/watch?v=_tMgVMxG95A&feature=related
E para começar o ano, Mercedes Sosa, recentemente falecida, em “Honrar la vida”. A música e letra é de Eladia Blázquez.
http://www.youtube.com/watch?v=I1z9GhWAPEY&feature=PlayList&p=B6704F37776E0121&playnext=1&playnext_from=PL&index=32
E, evidentemente, não podíamos terminar 2009 sem a ironia de Mafalda...

Abraços,
Ariel
PS - Neste domingo acrescentaremos o capítulo sobre os santos populares.
E na semana que vem continuaremos com a série sobre os sui generis suicidados argentinos.
PS2: E, como dizia um humorista argentino, Tato Bores (obrigado pela lembrança deste ao comentarista Jorge Trimboli), “Vermouth com batatas fritas e goood shoow!!” Bom ano!

Bores e seu telefone
![]()

Um novo ano em boa companhia sempre é melhor, evidentemente!
Boris Karloff e Josephine Hutchinson em um momento de relax no meio da rodagem do clássico da Universal "Son of Frankenstein" (1939)
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
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25.12.09

O Palácio de La Moneda, Santiago Chile. Construído para ser uma casa da moeda, foi primeiro casa da moeda, depois foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda...até finalmente ser exclusivamente palácio presidencial
De presente de Natal para os leitores comentaristas hoje e nos próximos dias teremos uma série de postagens que estavam prometidas há meses para algumas pessoas (depois continuaremos com a sequência dos “suicidados” sui generis).
Martha Argel, que queria saber se a Casa da Moeda do Rio de Janeiro e o Palácio de La Moneda no Chile eram planos “trocados”; Laerte Carmelo, que desejava uma postagem sobre os santos populares argentinos; o Mané, que estava curioso sobre os risonhos sóis das bandeiras da Argentina e do Uruguai.
Hoje começaremos pela lenda da troca de projetos da Casa da Moeda e o Palácio de La Moneda.

A antiga Casa da Moeda, na ex-imperial Rio de Janeiro. Foi a casa da moeda praticamente durante toda sua existência. Agora é o Arquivo Nacional. Nunca foi pensada para ser palácio presidencial ou imperial. Nem no Rio de Janeiro, muito menos na distante Santiago do Chile
A INEXISTENTE CONEXÃO SANTIAGO-RIO
Entre Santiago do Chile e o Rio de Janeiro aparece ocasionalmente a versão de que o Palácio de La Moneda – o palácio presidencial chileno – na verdade teria que ser a Casa da Moeda – o atual Arquivo Nacional - do Rio de Janeiro. E que a Casa da Moeda da ex-capital brasileira seria o palácio presidencial do Chile.
A lenda é saborosa e indica que os projetos de um edifício e do outro, supostamente importados da Europa (algumas versões indicam que os projetos vinham da Inglaterra), teriam sido trocados no navio que descia da Europa rumo à América do Sul.
Segundo a lenda, os rolos de papel com os detalhes do palácio presidencial chileno, por confusão, teriam desembarcado no Rio de Janeiro.
...E os planos destinados à construção da Casa da Moeda do imperial Rio dos Habaurgos e Bragança teriam virado pelo Cabo Horn, desembarcado em Valparaíso e finalmente levados até Santiago do Chile.
Mas, a lenda – apesar de divertida - não tem justificativas, já que os dois prédios são de épocas totalmente diferentes. A realidade, infelizmente, foi bem mais prosaica.
Os planos não foram encomendados à Europa. Foram feitos aqui mesmo na América do Sul (se bem que no caso do Chile, o arquiteto era um italiano que passou o resto de sua vida em Santiago e havia chegado anos antes para outras obras na cidade).
As obras do prédio do chileno Palácio de La Moneda começaram em 1786...enquanto que a ordem para construção do novo prédio (o tal da lenda) da Casa da Moeda no Rio de Janeiro é de 1853. As obras deste prédio carioca concluíram em 1868.
O Palácio de la Moneda foi construído para ser a Casa da Moeda em Santiago, no Chile colonial.
As obras começaram em 1786 e terminaram em 1812 . O projeto é do italiano Gioacchino Toesca (que espanholizou seu nome para Joaquín Todesca). No entanto, ele não fez o projeto à distância. Toesca havia desembarcado em Santiago seis anos antes de iniciar a obra de La Moneda, para concluir a construção da catedral da cidade.

Gioacchino, aliás, Joaquín; Toesca, aliás, Todesca
A construção do prédio terminou no meio do conjunto de guerras de independência do Chile e dos outros países da região. Nesse prédio, em 1814 foram cunhadas as primeiras moedas do Chile independente.
Em 1845 a imensa construção começou a ser utilizada também como sede do governo da República e residência dos presidentes chilenos (antes disso, desde 1817, a sede do governo havia sido o edifício da Real Audiência, na Praça de Armas de Santiago, hoje transformada no Museu Histórico Nacional).
A Casa da Moeda funcionou – junto com os escritórios presidenciais - no Palácio de La Moneda até 1924. Isto é, durante quase um século foi simultaneamente palácio presidencial e casa da moeda chilena.
Nesse ano a função de cunhar moedas passou para outro edifício. E o Palácio de La Moneda ficou somente como palácio presidencial.

O La Moneda sob bombardeio em pleno centro de Santiago, em 1973
Em 1973 o Palácio de La Moneda foi bombardeado pelas forças do general (e depois do golpe, ditador também) Augusto Pinochet. Os foguetes lançados pelos aviões Hawker Hunter e os canhões do Exército destruíram grande parte do palácio e destruíram obras de arte, além da ata da independência chilena, documento que foi destruído pelas bombas de Pinochet.
O estilo do palácio em Santiago é o neoclássico italiano puro.
O prédio da Casa da Moeda no Rio de Janeiro - situada na antiga Praça de Aclamação, atual Praça de República – é obra dos engenheiros Teodoro de Oliveira (geralmente o mais citado) e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro (quase sempre esquecido).
Seu estilo é um neoclássico adaptado ao Brasil...um estilo denominado de “Imperial Brasileiro”.

A antiga Casa da Moeda no Rio. Nunca esteve pensada para ser construída do outro lado da Cordilheira dos Andes
A Casa da Moeda esteve nesse palacete até 1983, ano em que foi removida para o Parque Industrial Santa Cruz. Hoje é a sede do Arquivo Nacional.
O prédio no Rio parecia mais palácio presidencial do que o Palácio de La Moneda em Santiago. Este tem mais physique du rôle de uma grande caixa de sapatos (uma excelente caixa de sapatos, segundo opinião de vários chilenos conhecidos) do que de qualquer outra coisa. Isso, evidentemente, alimentou a lenda da troca de projetos entre o Rio de Janeiro e Santiago do Chile.
De quebra, o edifício carioca possui colunas dóricas no andar de baixo e jônicas no andar de cima. E, além disso, uma imponente escadaria.
O edifício parecia mais imponente ainda quando o bairro estava vazio no final do século XIX, então chamado Campo de Santana.
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).
23.12.09

Sem dúvida, Agatha Mary Clarissa Miller Christie Mallowan (1890-1976) teria deliciado-se com um caso como este. A “Rainha do Crime”, como era conhecida a autora de “O caso dos dez negrinhos”, “A morte visita o dentista” e “Morte no Nilo”, bem poderia ter escrito “Morte no Prata”, sobre a misteriosa morte de Marcelo Cattaneo.

Principal testemunha de um dos maiores casos de corrupção da Argentina, Cattaneo suicidou-se de noite, com óculos escuros. Naquela noite de outubro de 1998 usou uma corda de náilon com nó simples (e não o nó que desliza das forcas). Dentro de sua boca, um recorte do jornal “La Nación”, de três dias antes, falando sobre seu desaparecimento.
Quando Pablo Romero saiu para pescar acompanhado por seu neto na manhã do domingo 4 de outubro de 1998, ficou irritado por não conseguir peixe algum. Mais irritado ficou quando o tempo fechou, estragando seu passeio dominical. No entanto, ao proteger-se da chuva em um refúgio de pescadores à beira do Rio da Prata nos terrenos baldios nos fundos da Cidade Universitária, seu estado de ânimo passou da irritação à estupefação: ali, pendurado de uma torre metálica, balançando pendularmente com o vento, jazia o corpo sem vida de Marcelo Cattaneo, uma das testemunhas-chave do caso IBM-Banco de La Nación, o maior escândalo de subornos da História da Argentina.
Esta morte, foi o terceiro suposto suicídio em 1998 de um personagem fundamental envolvido em um escândalo político no país. Os analistas políticos, ao tomarem conhecimento da morte de Cattaneo, não puderam deixar de erguer uma sobrancelhas em sinal de desconfiança: as circunstâncias dessa morte possuíam todos os elementos de uma “queima de arquivo”.
Cattaneo era suspeito de ter sido o “distribuidor” dos subornos do caso IBM-Banco Nación, um contrato de US$ 250 milhões onde foram pagos US$ 21 milhões em subornos. O irmão de Marcelo Cattaneo, Juan Carlos, esteve ligado ao governo do presidente Carlos Menem: foi o vice-secretário de Alberto Kohan, o todo-poderoso secretário-geral da presidência.
Em 1993 o principal banco estatal do país, o Banco de La Nación, contratou a IBM para informatizar todas suas filiais. Na época, a IBM subcontratou outra empresa - a Consad - para implementar um sistema alternativo caso o sistema principal entrasse em colapso. Cattaneo era o presidente da Consad.
A pequena empresa, que realizaria um sistema alternativo que não estava previsto na licitação, teria sido utilizada como via de pagamento dos funcionários do Banco de La Nación que teriam colaborado na obtenção do multimilionário contrato para a IBM.
‘PARTICIPAR DA ALEGRIA’
Cattaneo havia sido “desprocessado” pela Justiça argentina. No entanto, as investigações sobre ele foram retomadas nos meses anteriores à cena citada acima à beira do rio da Prata, quando foi acusado por Genaro Contartese e Alfredo Aldaco - dois ex-diretores do Banco de La Nación - como o distribuidor do dinheiro do suborno, no nome da IBM.
Em abril e maio de 1998, Contartese e Aldaco confessaram que haviam recebido o dinheiro de Cattaneo. Este teria lhes dito que a multinacional dava o dinheiro como “um reconhecimento”, e “uma forma de participar da alegria da empresa por ter conseguido o contrato”.
Além deles, também estão envolvidos no escândalo o ex-presidente do Banco de La Nación, Aldo Dadone e seu irmão Mario, o ex-presidente da IBM, Ricardo Martorana, o vice-presidente da IBM, Gustavo Soriani e o ex-diretor da receita federal argentina, a DGI, Ricardo Cossio.
Cattaneo ia ser convocado pela Justiça para depoimento em outubro de 1998 quando apareceu morto. Nas semanas derradeiras de sua vida sustentava que sentia-se um bode expiatório, e afirmava que queria voltar a depor, para “contar tudo” o que sabia.
“Tudo o que sabia” poderia implicar em graves problemas para diversos funcionários do governo Menem.
GUARDA-ROUPA MUDADO E CORDA DE NÁILON
No dia em que desapareceu, uma quarta-feira, Cattaneo, de 42 anos, vestia terno e gravata.
No domingo, quando reapareceu pendurado de uma corda de náilon a três metros de altura do chão, balançando levemente ao sabor do forte vento proveniente do Rio da Prata, Cattaneo estava com guarda-roupa mudado: de training azul e tênis vermelhos.
A família ficou surpresa: Cattaneo era particularmente sóbrio, e não usaria esse tipo de roupa.
Além disso, outro fator chamou a atenção: porque alguém que se suicida à noite estaria usando, como ele, óculos escuros?
O lugar escolhido para sua morte também gerou suspeitas: um imenso terreno vazio nos fundos da Cidade Universitária.
Também suscitou desconfiança o fato de que Cattaneo teria chegado ali a pé, já que seu carro particular foi encontrado, dias depois, estacionado a quarenta quarteirões de distância, em Olivos. Os pneus do carro, uma camionete Fiorino, estavam cheias de lama, o que indicaria que foi movimentada após a chuva do domingo de manhã, quando foi encontrado seu corpo.
Se Cattaneo chegou até esse inóspito lugar a pé, pelo menos preocupou-se em poupar trabalho para quem o encontrasse, já que no bolso de sua calça esportiva foram encontrados seus documentos.
A roupa original de Cattaneo também havia desaparecido do carro, mas foi encontrada por dois mendigos a mais de 200 metros do local da morte. Dentro do bolso do paletó, havia um barbeador recém-utilizado. Além disso, um recibo de uma casa de vestimenta esportiva. No entanto, na loja ninguém lembra de Cattaneo comprando o jogging e os tênis.
A 51a. Delegacia de Buenos Aires, responsável pelo região da cidade onde o corpo de Cattaneo foi encontrado, não foi notificada que o principal suspeito do caso IBM-Nación estava sendo procurado desde a quarta-feira. “Talvez o aviso perdeu-se no meio da papelada”, desculpou-se um porta-voz da polícia.
A atuação da polícia levanta suspeitas: o cadáver de Cattaneo foi encontrado por um pescador; o carro, por uma equipe de reportagem de TV, e as roupas, por dois mendigos.
Os policiais que retiraram seu corpo da torre sem ter feito perícia alguma, afirmaram que o corpo não apresentava sinais de violência. Além disso, pontificaram: “suicídio na certa”. Mas a juíza Gabriela López de Ouviña definiu a investigação como “averiguação de suicídio”.
ESFORÇO PARA SUICIDAR-SE
Além destas estranhas omissões da Justiça e da Polícia, há outros pontos obscuros na morte de Cattaneo: o lugar escolhido para seu suicídio é de difícil acesso.
A torre metálica onde se pendurou está dentro de um pátio.
Para chegar ali, deve-se subir ao teto de uma casa abandonada e dali pular para o pátio.
Depois disso, Cattaneo teria que ter subido à torre, para seu concretizar seu suicídio.
A manobra era complexa, e se fosse para pendurar-se de algum lugar, Cattaneo poderia ter escolhido uma das diversas árvores existentes no local.
O laço da corda com a qual se enforcou tinha um nó simples, e não um nó de laço para enforcar, Além disso, morreu por asfixia, que é uma das prováveis causa mortis de quem se enforca, embora a grande maioria das pessoas que se pendurem a essa altura morra por rompimento da medula.
Os óculos escuros não pertenciam a Cattaneo, mas entre seus pertences dentro da camionete, foram encontrados seus verdadeiros óculos escuros. Mas o elemento que mais chamou a atenção no caso foi que dentro da boca de Cattaneo foi encontrado um pedaço de papel: um recorte do jornal La Nación, com um artigo sobre o escândalo IBM-Nación e ele próprio.
CONVENIENTEMENTE ‘SUICIDADOS’
O pescador que encontrou o corpo não foi convocado pela Justiça para prestar depoimento. Nem outros pescadores que afirmam que na noite anterior viram um carro vermelho e uma camionete parecida à Fiorino de Cattaneo circular perto da torre onde se suicidou, na mesma noite da morte. Outra testemunha, tampouco convocada, sustenta que poucas noites antes da morte de Cattaneo, três homens vestidos com roupas pretas andavam pela área com lanternas.
“Por quê um lugar tão sinistro para o suicídio, por quê a roupa de ginástica, por quê os documentos, porquê havia comido tão bem na noite anterior, se estava deprimido?”, perguntava-se o principal analista policial da Argentina, o jornalista Enrique Sdrech, já falecido (de causas naturais, há poucos anos).
Segundo ele, a morte de Cattaneo foi similar em muito pontos aos intrigantes suicídios do empresário Alfredo Yabrán (principal suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista fotográfico José Luis Cabezas) e do capitão Horácio Estrada (uma das testemunhas-chave do escândalo da venda de armas à Croácia e Equador).
Somado à falta de resultados sobre os atentados à Embaixada de Israel (em 1992) e da associação beneficente judaica AMIA (em 1994) e à obscura morte de Carlos Menem Jr. (em 1995), o filho do presidente argentino – entre várias outras - Cattaneo acrescenta-se à longa lista de mortes oportunas que eliminam os cada vez mais evidentes rastros entre o delito e os integrantes da administração argentina de plantão.
E é sempre bom lembrar o que dizia Ezra, o cético antiquário de tira Mort Cinder, do emblemático desenhista uruguaio Alberto Breccia (1919-93) e do roteirista argentino Héctor Oesterheld (1919-77)...


Este blog interrompe a programação funérea para desejar um batuta Natal para todos os leitores e comentaristas...
Boa Véspéra de Natal a todos!!!! Meus desejos de uma excelente noite na companhia das pessoas que mais gostam!
E que todos recebam os presentes que esperam, desde a paz mundial, passando por uma caixa de castanhas de caju cristalizadas, a nova edição do Cortázar, um abraço e um afago na cabeça das avós e dos avôs, o fim da fome no mundo, a bicicleta nova, um quilo de queijo manchego e até um hipotético CD de ‘Sérgio Reis meets Plácido Domingo’.
E de prévia de presente natalino, duas tirinhas da Mafalda, de Quino!

Abraços a todos!!!
Ariel

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21.12.09

Thomas De Quincey (1785-1859), autor de ‘O assassinato como uma das belas artes’ teria ficado horrorizado com o amadorismo dos peculiares “suicidados” dos escândalos de corrupção da Argentina



O capitão Estrada era destro, mas o revólver que disparou o tiro estava perto de sua mão esquerda. Ele 'suicidou-se' com um tiro na nuca. E com a arma posicionada de baixo para cima... E estava segurando o revólver com as duas mãos, já que ambas estavam borrifadas de sangue. Um verdadeiro contorcionista? Ou, quem o 'suicidou' era um mero amateur da 'arte' referida por De Quincey?
A cena poderia ter sido a dos primeiros minutos de qualquer thriller: Uma tranquila manhã na área central de Buenos Aires. A diarista abre a porta do apartamento de seu patrão para mais um dia de limpeza. Apesar de diversas tentativas, a porta não abre. Está fechada com chave, por dentro. A empregada toca a campainha diversas vezes. Desce à rua e chama o patrão pelo telefone público. Ninguém atende. Ela volta com o serralheiro, que consegue abrir a porta. A empregada entra, e vê seu patrão - um homem envolvido no tráfico internacional de armas - morto, com um tiro na cabeça. Na sua mão direita, o revólver com o qual se suicidou.
Suicídio? O revólver estava na mão esquerda, mas o capitão-de-navio da reserva Horacio Pedro Estrada, 65 anos, era destro, e não canhoto. Poderia ser a cena de um thriller, mas foi apenas mais um capítulo na complexa trama do escândalo de vendas ilegal de armas da Argentina ao Equador e a Croácia, um affaire ainda sem solução.
Estrada, que fora o encarregado da supervisão do envio das armas à cidade equatoriana de Guayaquil, havia negado comparecer à Justiça. No entanto, o militar havia enviado uma declaração escrita onde admitia sua participação na operação, embora negasse ser o responsável.

Explosão que arrasou bairros de Rio Tercero teria sido provocada para ‘desaparecer várias provas’
O ESCÂNDALO DO CONTRABANDO ARMAS
O então presidente Carlos Menem (1989-99) e diversos ministros e assessores ficaram envolvidos no escândalo de contrabando de armas.
Além disso, como em uma superprodução cinematográfica onde não podiam faltar os efeitos especiais, o escândalo contou com a colossal explosão da fábrica militar de Rio Tercero, em 1995.
A chuva de estilhaços e as granadas espalhadas por toda a cidade provocaram a evacuação de 60 mil pessoas do local e arrasou os bairros vizinhos à fábrica. Onze pessoas morreram e 300 foram feridas.

Explosão de Rio Tercero feriu mais de 300 pessoas
A parte principal trama começou em 1991 e continuou até 1995, quando Menem e vários ministros assinaram três decretos presidenciais que autorizavam vendas de armas ao Panamá e à Venezuela.
Mas, as armas para a Venezuela nunca chegaram lá: foram parar na Croácia, país que no meio da Guerra da Ex-Iugoslávia estava sob embargo de armas da ONU. Para complicar, a Argentina participava da missão de paz da ONU na área.
Foram enviadas ao território croata 6.500 toneladas de armas e munições, que incluíram pelo menos 18 canhões Citer de 155 milímetros.
E as armas oficialmente vendidas ao Panamá, tampouco chegaram a esse país no istmo americano. Na verdade, o o carregamento foi desembarcado no Equador: um total de 5 mil fuzis FAL e 75 toneladas de munições.
Na ocasião o Equador estava em guerra com o Peru pela Cordilheira do Cóndor. Paralelamente, a Argentina era desde 1940 avalista do tratado de Paz entre os dois países.
Quando o caso das armas veio à tona, Menem foi criticado pela estranha decisão de ter assinado um decreto de venda de armas ao Panamá, já que desde a invasão norte-americana de 1989, o país não possui forças armadas.
De quebra, o Peru havia sido um histórico aliado da Argentina desde os tempos da independência. E além disso, o Peru havia oferecido ajuda (aviões) à Argentina durante a Guerra das Malvinas (1982).
Menem nos anos 90. Atualmente está sendo julgado pelo escândalo das armas
Em 1994, Luis Sarlenga, o interventor da empresa estatal de material bélico da Argentina, a “Fabricaciones Militares”, determinou que o envio clandestino seria feito com armas em uso pelo exército. Esta foi a falha que tornou público o envio ilegal: os equatorianos receberam material defeituoso, e reclamaram, ameaçando processar o Estado argentino.
Com a denúncia pública sobre o envio ilegal das armas, começou uma crise política que foi paliada momentaneamente pela renúncia de vários ministros. Na sequência, a Justiça pediu à Interpol a captura internacional do tenente-coronel Diego Palleros, que agiu como intermediário dos envios de armas, utilizando empresas uruguaias como fachadas.
Em 1998 Palleros foi preso na África do Sul, onde disse que Menem sabia do destino real dos envios de armas e ameaçou contar “tudo o que sabia”. Um mês depois, o capitão Estrada, sócio de Palleros, foi convocado pela Justiça em Buenos Aires.
Quatro dias mais tarde, Palleros foi solto pela Justiça sul-africana, que simultaneamente recusou o pedido de extradição feito pela Argentina. No mesmo dia, o 25 de agosto, Estrada apareceu morto. A estranha morte de Estrada foi interpretada como um “sinal” a Palleros, para que este não continuasse falando.
Desde o início das investigações sobre as vendas ilegais de armas uma série de mortes aumentaram as suspeitas: as primeiras foram as onze mortes ocorridas na explosão da fábrica militar de armas de Rio Tercero, em Córdoba. Suspeita-se que a explosão foi uma forma de ocultar a falta de diversas armas.
Um ano depois, em 1996, o helicóptero onde viajava o general Juan Andreoli, sucessor de Sarlenga no posto de diretor da Fabricaciones Militares, espatifou-se ao tentar um pouso de emergência no Campo de Pólo no bairro de Palermo.
O aparelho tentou um um pouso forçado na pista de pólo da região, mas espatifou-se e todos as dez pessoas que nele viajavam faleceram na hora.
No helicóptero também estava o coronel Rodolfo Aguilar, que havia sido convocado como testemunha no processo sobre a venda ilegal de armas. Além deles, no acidente morreu uma cunhada do general Martín Balza, chefe do Estado-Maior do Exército.

Helicóptero espatifou-se em plena área residencial de Buenos Aires
Em 1997, duas testemunhas de irregularidades na venda de armas – Carlos Alberto Alonso (encarregado dos controles da Alfândega) e Vicente Bruzza (operário da fábrica militar de Río Tercero que havia denunciado uma ‘maquiagem’ no registro das armas) morreram na mesma semana de estranhos ataques cardíacos.
Na mesma época, faleceu de um derrame cerebral Francisco Callejas, técnico das Fabricações Militares, que havia ido à Croácia para calibrar os canhões (que deveriam ter sido enviados para a Venezuela.
Outro “suicídio”, com um tiro a um metro de distância (!), do banqueiro Mario Perel, envolvido nesse escândalo (e em outros) também marcou os anos 90. Perel teria “falado demais” com deputados da oposição que estavam investigando lavagem de dinheiro e o escândalo das armas.
E finalmente, a morte do capitão Estrada.

"Contorcionista", cerâmica da civilização Tlatilco, México. Museu Nacional de Antropologia do México. A cultura Tlatilco floresceu no vale do México entre os séculos XIII e VIII a.C. Estrada teria dado uma de tlatilco para disparar na própria nuca, de baixo para cima, com as duas mãos
SUICÍDIO PECULIAR E TOUCH CONTORCIONISTA
As estranhas circunstâncias da morte de Estrada fizeram que a Justiça rotulasse o processo de investigação como “averiguação de suicídio”.
Estrada apareceu morto sentado, com o torso sobre sua escrivaninha, em cima da qual havia um revólver 9 milímetros.
Mas essa não era a arma que havia provocado sua morte: o tiro havia sido disparado do revólver calibre 38 que estava caído no chão.
Outro ponto que aumentou as suspeitas foi a trajetória que a bala fez na cabeça de Estrada: o tiro foi dado ao lado da orelha esquerda, perto da nuca, de trás para a frente, e de baixo para cima.
O tiro, feito do lado esquerdo, pareceu mais estranho quando se soube que Estrada não era canhoto. Os conhecidos e amigos de Estrada destacaram que o defunto militar não era “acrobata” ou “contorcionista” para implementar um suicídio com tal esforço de flexibilidade muscular.
Além disso, as duas mãos de Estrada estavam borrifadas de sangue, o que demonstraria que o militar havia disparado a arma com as duas mãos. Uma posição muito incômoda para quem vai se suicidar.
As suspeitas de que Estrada não se matou aumentaram mais pela falta de rastros de pólvora nas mãos, uma evidência que quase nunca falta em quem dispara uma arma.

De Quincey, outra vez. O britânico ensaísta teria levantado uma sobrancelha em sinal de desgosto por tantas mancadas no 'suicídio' de Estrada
CURRICULUM TUMULTUADO
O curriculum vitae de Estrada acumulava a participação, quando jovem, do bombardeio da Praça de Mayo, em 1955, durante uma tentativa de golpe de Estado. No bombardeio morreram de 200 a 300 civis.
Além disso, teve sórdidas ocupações além de “traficante de armas”: era acusado por 25 casos de violações aos direitos humanos. Estrada havia sido chefe de um “grupo de tarefas” da ESMA, o principal centro detenção e torturas durante a última Ditadura Militar.
Como se fosse pouco, Estrada participou da falsificação de passaportes para o líder da logia maçônica P-2, do italiano Licio Gelli.
O trabalho de Estrada era feito por dois seqüestrados - um especialista em fotocromia e um gráfico - que imprimiram 10 mil passaportes nas gráficas da ESMA.
Após o fim da Ditadura Estrada fugiu e foi julgado à revelia pelos crimes que cometeu durante o regime militar. No entanto, foi anistiado pela “Lei de Obediência Devida” do presidente Raúl Alfonsín.
JULGAMENTO DE MENEM
Em 2001 o juiz federal Jorge Urso processou o ex-presidente Carlos Menem e o colocou em prisão domiciliar, por considerá-lo chefe de uma “máfia” que havia protagonizado o maior caso de contrabando de canhões, fuzis, foguetes anti-tanques e munições registrado na História argentina.
Cinco meses e meio depois a Corte Suprema (dentro da qual Menem contava com juízes que haviam declarado publicamente sua amizade com o ex-presidente), no meio de grande polêmica, colocou “El Turco” – como Menem era chamado popularmente - em liberdade.
Mas, em 2007 ele foi novamente processado. No final do ano passado começou o julgamento oral e público do ex-presidente e de outros 17 envolvidos. O ex-presidente tentou apelar e anular o julgamento. Mas, na semana passada Corte Suprema desconsiderou o pedido de Menem.
FATOS, NÚMEROS E DRIBLES
Os envios de armas – um total de 6.500 toneladas remetidas em dez remessas confirmadas (suspeita-se que podem ter ocorrido remessas ainda não descobertas) – foram realizados entre 1991 e 1995.
A estimativa é que o Estado argentino teve um prejuízo de mais de US$ 180 milhões com o contrabando das armas. As armas foram vendidas de forma clandestina para a Croácia e o Equador.
O status de parlamentar propicia a Menem a imunidade necessária para evitar que, se for condenado, seja enviado à prisão cumprir uma pena que poderia ir de 12 a 32 anos de cadeia.
Menem só poderia ser preso se o Senado suspender sua imunidade. Ou, a partir de 2014, quando acaba seu mandato de senador.
Um total de 424 testemunhas foram convocadas para prestar depoimento sobre o caso, incluindo o ex-presidente Fernando De la Rúa.

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17.12.09

"Hipp, hipp, hurra! Kunstnerfest på Skagen" (Hipp, hipp, hurra! Artistas celebrando em Skagen, de 1888), quadro do batuta pintor norueguês-dinamarquês Peder Severin Krøyer (1851-1909)

Uma breve interrupção na programação normal deste blog para fazer um anúncio...(podem continuar ali embaixo com a leitura sobre o Graf Spee, o orgulho de Hitler que afundou na frente de Montevidéu)
Queridos comentaristas e leitores, com imenso prazer (já dava para ver pelo quadro do querido Krøyer que tratava-se de uma celebração) lhes conto que vosso blogueiro, em conjunto com o grande (grandíssimo) amigo Gustavo Chacra, recebemos o primeiro prêmio de melhor blog(s) do Estadão!
Primeiro: estar com o Gustavo em um prêmio, compartilhando a honraria, é um prazer imenso.
O conheci no ano 2000, em Buenos Aires, quando ele era um jovem correspondente da concorrência, a Folha de São Paulo. Brilhante já naquela época, era evidente que seria um grande jornalista.
Ele é “The guy”, o cara que entende de Buenos Aires, São Paulo Beirute e Nova York, que pode fazer paralelos entre o Higienópolis, a Recoleta e o East Side sem cair jamais em um único clichê. De quebra, prepara saborosos textos seja sobre um senhor semifeudal nas montanhas no Líbano ou um jogo de pólo aquático entre universitários nova-iorquinos.
Um real cosmopolita ‘avant la lettre’!
Modesto, ponderado, ético, correto e trabalhador, excelente pessoa! E um pouco maluco como eu.
E de quebra, tem uns pais geniais, simpaticíssimos!
Segundo: é um deleite fazer este blog, e isso deve-se a várias coisas....
a) a liberdade de estilo e conteúdo que o Estadão permite. Aqui pude colocar leitões assobiando para ilustrar uma postagem sobre as eleições uruguaias, uma lista de epítetos pronunciados pelo capitão Haddock, imensos textos que em um jornal impresso teriam requerido duas páginas, pude recuperar entrevistas feitas há tempo com grandes figuras como o escritor Adolfo Bioy Casares ou o cartunista Quino. E ainda, tiveram paciência com meu hobby de aspirante a historiador-mirim!
b) a possibilidade de ter a opinião de leitores-comentaristas. Eles me propiciaram informação, feedback, reconfigurações de opiniões, divergências (sempre educadas, civilizadas, respeitando a posição um do outro) e convergências... e acima de tudo, estímulo para continuar nesta empreitada. Com alguns deles organizei uma reunião em São Paulo em setembro passado, um saboroso encontro com pessoas interessantíssimas (que espero repetir em março...e ainda tenho uma reunião pendente com os comentaristas-leitores que estão aqui mesmo, na ‘Reina del Plata’, B.Aires). Vários dos comentaristas tornaram-se amigos (meus amigos e entre eles)! Alguns conheci pessoalmente, enquanto que outros ainda não conheci, mas espero fazê-lo em breve. Há leitores-comentaristas não somente no Brasil, mas também em Buenos Aires, em Lisboa e até nos excelsos yankees cafundós de Iowa!
Participam deste blog brasileiros que residem no Brasil, argentinos que residem no Brasil, brasileiros que residem na Argentina, Uruguai, Paraguai...todas as combinações possíveis de leitores-comentaristas, interessados em política, economia, História, literatura, quadrinhos, cinema, esportes e as mais variadas peculiaridades da Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, isto é, os "Hermanos" do Cone Sul.
Algumas destas pessoas, só para fazer uma lista breve daqueles que seguem o blog desde o início e também recentemente:
- Yoko, Cláudia, Santiago, Jorge, Carlos, Sica, Do Contra, Otávio, Laerte, Mónica, Lívia, Caetano, Henrique, Sô Ramires, Cláudio, Aixa, Guilherme, Lito, Santos, Osvaldo, Marcos, Natan, Bruno, Raphael, Karina, Goytá, Abraão, Sued, Priscila, O Botocudo, Simone, Ricardo, Lafayette (nous voici!), Eduardo, Telmo, Marcelo, Walter, Tito, Emílio, Glúon, Tradutor, Danton, Dr 'Doc' Sallere, Rizzo, Celso, Ciro, Nelson, Chirac, MarioS, Fábio, André, Reinaldo, Jean, Lea, Yannkick, Ernesto, Márcia, Afonso, Tatiana, Bissoli, Hipólito, Claudio, Flávio, Adelmo, Marco, João, Alexandre, Reinaldo, Mario, Adenilson e o Poeta... E muitos, muuuuuuuuuitos outros mais.
Hurra para todos os leitores-comentaristas! O blog também é feito com seus comentários!
c) é também um deleite fazer este blog graças à uma equipe de primeira linha do Portal do Estadão, onde jovens cérebros (o futuro do jornalismo brasileiro) são orientados por tarimbados Mestres (com M maiúsculo mesmo, e se fosse possível, em fonte ‘Trajan’, corpo 18, para ter um tom mais magno!). Pedro Dória ('O' Blogueiro par excellence), Otávio Dias, Gabriela Allegro (sempre me faz lembrar uma sinfonia), Rodrigo Martins, Edmundo Leite, Pablo Pereira, Jair Stangler, Talita, Felipe Machado (ah..ainda farei uma postagem sobre os emblemáticos derrières das divas do Cone Sul, assunto que implicará em seus comentários analíticos), Daniel Jelin, Luiz Raatz entre vários outros.
Terceiro E é imprescindível agradecer a...
1 - Meus pais, minha irmã e minha esposa, que sempre – além do estímulo permanente ao longo destes 43 anos de vida (bom, no caso de minha mulher, 14 anos) – elogiaram, criticaram e fizeram observações sobre os textos.
2 – Aos colegas do jornal como a adorável e imprescindível Fernanda Andrade, que me estimulou desde o início de meu trabalho como correspondente há 14 anos, tem paciência comigo todos os dias do ano...e foi a primeira a comentar a primeira postagem, em fevereiro passado! À Damaris Giuliana, que na véspera da postagem, me disse “vá em frente”; à Paula-san Moura, que sempre tem enriquecedores comentários para os assuntos que toco neste blog. E a Marta, que antes de começar a trabalhar no Estadão, já lia meu blog! Uau! À Sandra Carvalho, que também sempre me estimulou. E o Muniz, o André Dusek, e muitos outros colegas e amigos que deram conselhos, dicas e ideias.
Comecei o blog (durante as férias!) em fevereiro passado (nossa, menos de um ano!), achando que seria uma tarefa interessante. Mas, rapidamente descobri que tratava-se de um fascinante deleite.
Parabéns Gustavo, obrigado aos leitores-comentaristas e à equipe do Portal e aos colegas do jornal.
Devo o prêmio a todos.
Abraços,
Ariel
PS: Boa noite e bom descanso!

Este blog volta à programação normal. Aqui embaixo, o caro leitor poderá continuar com a postagem sobre o Graf Spee, o orgulho do Führer, que foi à pique na frente de Montevidéu.
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Orgulho da frota do Terceiro Reich afundou no Rio da Prata em 1939
Há 70 anos, no meio da via fluvial mais larga do mundo, o Rio da Prata, uma massa de aço de 186 metros de comprimento, pesando quase 16 mil toneladas, afundou depois de duas fortes explosões. No lamacento fundo do rio que separa o Uruguai da Argentina, ficou imobilizado para sempre o poderoso encouraçado “de bolso” da Kriegsmarine – a Marinha de Guerra alemã – o Admiral Graf Spee.
Depois de ter protagonizado uma das últimas batalhas navais clássica da História (sem a presença de aviões ou porta-aviões), o Graf Spee foi afundado por Hans Langdorff, seu próprio capitão.
Os motivos especulados pelos historiadores posteriormente sobre o auto-afundamento:o de evitar o massacre dos marinheiros alemães, que estavam em minoria; a sensação de inevitabilidade da derrota que Langsdorff tinha e assim, e evitar que a tecnologia naval alemã – na época, uma das mais avançadas do mundo - caísse nas mãos da inimiga marinha britânica, que a esperava na foz do Rio da Prata.
Pela força de seus motores e a blindagem, o Graf Spee era definido na época como "Mais forte que o mais veloz, e mais veloz que o mais forte".

ORGULHO DA FROTA
O Graf Spee era um dos orgulhos da frota do Terceiro Reich. No dia 3 de setembro de 1939, dois dias após o início da Segunda Guerra, começou sua tarefa: afundar todos os navios mercantes possíveis no Atlântico Sul, como forma de estrangular a economia e o abastecimento dos aliados.
Em cem dias de atividade frenética, comandado pelo astuto capitão Langsdorff, o Graf Spee colocou a pique nove mercantes (sem causar a morte de nenhum dos tripulantes das embarcações inimigas) e distraiu a atenção de dezenas de navios de guerra ingleses e franceses do principal cenário de guerra, o Atlântico Norte.
Os aliados tentavam desesperadamente captura o Graf Spee.

Percurso do Graf Spee ao longo do Atlântico
Quando navegava perto da costa uruguaia, entrou em combate com três navios britânicos, ação que entrou para a História com o nome de “a batalha do Rio da Prata”.

Mapa, em espanhol, da parte final da Batalha do Rio da Prata, ocorrida na frente de Punta del Este. O navio com a sigla "GS" é o Graf Spee. Os outros são os navios britânicos
Langsdorff conseguiu atingi-los duramente, mas foi forçado a retirar-se para consertar os próprios danos. Desta forma, colocou o navio na direção do porto neutro(embora pouco amigável com o Terceiro Reich) de Montevidéu.
O embate levou dezenas de milhares de pessoas em Montevidéu e em Buenos Aires às respectivas avenidas beira-rio, para aguardar a aproximação dos navios com a esperança de assistir de “camarote” o duelo entre as mais poderosas marinhas de guerra do mundo.
Durante dias, a Segunda Guerra Mundial esteve presente neste recanto longínquo da América.
O navio ficou ancorado no porto de Montevidéu.
A população de Montevidéu e o governo temiam os canhões do poderoso Graf Spee, que poderia - se quisesse - arrasar a pacata capital uruguaia.

O navio na frente do morro da fortaleza colonial de Montevidéu
Mas, o governo do Uruguai arriscou-se e deu um ultimato: somente concederia a Langsdorff 72 horas para consertar danos no casco, levar os marinheiros feridos a hospitáis em Montevidéu e enterrar os homens que haviam falecido na batalha do rio da Prata.
Langsdorff aceitou as condições, depois de protestar.
Finalmente, depois de ouvir os rumores de que mais navios britânicos se aproximavam da foz do Rio da Prata, Langsdorff percebeu que essa via fluvial havia transformado-se em um beco sem saída.

Langsdorff em Montevidéu, no funeral de seus marinheiros. Ao contrário de outras pessoas presentes, Langsdorff recusou-se a fazer a saudação nazista (embora a Marinha estivesse formalmente isenta disso, os oficiais importantes realizavam a saudação). Aqui vemos o capitão fazendo a tradicional continência militar. Essa posição lhe valeu suspeitas por parte dos representantes de Hitler de que Langsdorff era um capitão 'anti-nazista'
Após enterrar 36 marinheiros no cemitério da capital uruguaia, zarpou do porto de Montevidéu. Dezenas de milhares de pessoas acotovelaram-se na praia e no porto para ver o que o poderoso navio faria.
A sete quilômetros de distância da costa, ordenou que os marinheiros abandonassem o navio. Cargas explosivas detonaram no fundo do encouraçado, que foi à pique.


Graf Spee no meio da fumaça começa afundar

Graf Spee afunda lentamente no rio da Prata
A tripulação alemã refugiou-se em Buenos Aires, porto neutro (mas amigável com o Reich). Posteriormente, grande parte dos marinheiros foram para província de Córdoba. Vários marinheiros retornaram à Alemanha, para continuar a guerra.
No entanto, Langsdorff não voltou a seu país. Depois de assegurar o refúgio a seus marinheiros na Argentina, retornou a seu quarto do City Hotel, ao lado da Praça de Mayo em Buenos Aires.
Ali, o capitão deitou na cama. Enrolado na bandeira alemã – não a nazista com a suástica, mas sim a velha insígnia imperial, já que ele próprio não se considerava um nazista – suicidou-se com um tiro.
Nos anos seguintes, os capitães aliados - seus inimigos – foram unânimes em defini-lo como “um cavalheiro”.
O grão-almirante Erich Raeder (comandante da Marinha do Terceiro Reich na primeira metade da guerra), em suas memórias escritas após o conflito bélico mundial, considera Langsdorff um "covarde" e o acusa de ter perdido um navio "à toa". Outros especialistas, no entanto, afirmam que o capitão tentou evitar um massacre inútil em uma batalha que estava previamente perdida.
Raeder era a favor de afundar navios sem prévio aviso, mesmo que fossem navios-hospitais ou de transporte civil.
Na contra-mão, Langsdorff seguia à risca a Convenção de Haia e fazia questão de deter os navios mercantes, avisar que seriam afundados, esperava que a tripulação estivesse a salvo, e só então disparava seu canhões para afundar a nave.
Langsdorff foi enterrado no setor alemão do cemitério de La Chacarita, em Buenos Aires

Túmulo de Langsdorff na Chacarita
NEONAZISTAS
O túmulo de Langsdorff voltou a ser notícia há um ano, quando um grupo de 26 neonazistas argentinos realizaram na noite do 21 de dezembro de 2008 uma cerimônia de homenagem ao Terceiro Reich no cemitério de La Chacarita. Mais especificamente, na frente do túmulo do capitão do Graf Spee (este, por seu lado, não se considerava nazista, uma informação que os neonazistas platinos supostamente desconheciam).
Os skinheads, que portavam insígnias nazistas, cartazes e bandeiras com a suástica, gritaram frases antissemitas durante a manifestação clandestina, quando o cemitério estava com as portas fechadas.
A polícia deteve os manifestantes, exceto quatro menores de idade que participavam do grupo.
A Argentina possui a maior comunidade judaica da América Latina, com mais de 500 mil integrantes. No entanto, o país também conta com ativos grupos neonazistas e fascistas, que pregam a expulsão dos judeus do país. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, pelo menos 300 criminosos de guerra nazistas refugiaram-se na Argentina.
RESGATE
Imobilizado para sempre no fundo do rio da Prata? Não, se depender das atividades de um grupo de empresários uruguaios e argentinos, que começaram em 2004 o resgate do navio.
A ambiciosa ideia é retirar do fundo do rio o navio inteiro, que está a apenas oito metros de profundidade, partido em duas partes. Na época, o diretor da operação, o uruguaio Héctor Bado, o resgate completo levaria vários anos.

Representação artística de como estaria atualmente o Graf Spee no fundo do rio da Prata.
“Este é o último encouraçado alemão que tecnicamente pode ser resgatado do fundo das águas em todo o mundo. Queremos trazê-lo à tona, restaurá-lo e exibi-lo em Montevidéu”, disse Bado na ocasião.
Para poder removê-lo do fundo do rio, será necessário retirar entre 6 mil e 8 mil toneladas de lodo de dentro do navio, entre outras tarefas (além de uns 24 milhões de euros).
Alfredo Etchegaray, proprietário dos direitos sobre o navio afundado, afirmou que o cineasta americano James Cameron – o diretor de “Titanic” – iria à capital uruguaia para filmar o resgate. Por enquanto Cameron não foi à Montevidéu.
O empreendimento é privado, mas conta com apoio do governo do Uruguai, que declarou o projeto como de “interesse turístico”.
As operações de resgate estiveram paralisadas nos últimos dois anos. Mas, segundo Bado, serão retomadas no próximo dia 15 de março. O próximo objetivo: recuperar um dos canhões principais.
Mapa que mostra onde está afundado o encouraçado de bolso

Mapa completo do circuito do Graf Spee
ÁGUIA POLÊMICA
Em 2004 a equipe conseguiu recuperar o telêmetro do navio. A imensa peça, de 27 toneladas, está atualmente na praça do porto de Montevidéu.
Em 2006 a polêmica agitou Montevidéu quando a equipe resgatou a águia nazista que estava afixada à popa do encouraçado “de bolso”.
A presença da enorme suástica nas garras da escultura tornou-se o centro de intensos debates entre os exploradores, historiadores, o governo e a comunidade judaica uruguaia.
A comunidade judaica uruguaia ficou preocupada com o surgimento da águia. Na ocasião, Ernesto Kreimerman, presidente da Comunidade Israelita do Uruguai, declarou que era preciso que a sociedade tomasse as medidas necessárias para que “estes símbolos não sejam usados por grupos neonazistas como forma de propaganda”.
A águia de bronze pesa mais de 400 quilos, tem dois metros de altura e quase três de largura. Suas garras de metal estão aferradas a uma grande suástica. A peça foi a a insígnia nazista do Graf Spee.
A peça é única, pois trata-se do último símbolo - de grande tamanho - do nazismo em todo o mundo. Peças similares foram destruídas logo após o fim da Segunda Guerra pelas tropas aliadas.
Para não causar ofensas, a águia foi inicialmente exposta na frente do Hotel Palladuim, em Montevidéu, com a suástica coberta por uma lona. Após a polêmica ter sido amainada, e no cenário de ausência de militantes neonazistas, a lona foi removida.
A Universidade de Oxford calcula que a águia do Graf Spee valeria US$ 3 milhões.

No Uruguai, a história do Graf Spee, além de peça de teatro, curiosidade turística e objeto de pesquisa histórica, também virou história em quadrinhos
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14.12.09

O anjo loiro da morte. Retrato do sequestrador quando jovem
O “garoto mimado” da última Ditadura Militar argentina (1976-83), o ex-capitão Alfredo Astiz, está sendo julgado desde a sexta-feira passada por sequestros, torturas e assassinatos de civis durante o regime militar. Conhecido entre suas vítimas como “O anjo loiro da morte” – e também como “O Corvo” - Astiz está sendo acompanhado no banco dos réus por outros 18 ex-integrantes da ditadura – também acusados de crimes durante a ditadura - que operavam com ele no Grupo de Tarefas 3.3.2.
A base do grupo era a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), o maior centro clandestino de torturas do regime militar, situado no bairro portenho de Núñez.
Astiz era uma das estrelas da ESMA, já que as missões mais complexas eram encomendadas ao jovem oficial pelos integrantes da alta hierarquia militar.
As estimativas indicam que 5.000 prisioneiros civis passaram pela ESMA, dos quais sobreviveram menos de 170.
Um total de 280 testemunhas comparecerão perante o tribunal, incluindo vários sobreviventes da ESMA. Fontes dos tribunais indicaram que o julgamento de Astiz e seus companheiros poderia prolongar-se por um período de seis meses a um ano.
No primeiro dia de julgamento oral e público Astiz provocou o público levantando um livro que levava consigo. O título: "Voltar a matar".
Entre os outros ex-militares que também estão sendo julgados estão Alfredo Donda Tigel - que sequestrou seu próprio irmão e a cunhada, os assassinou e ficou com suas filhas - além Jorge “El Tigre” Acosta, famoso por estuprar as prisioneiras.
Astiz é considerado o ex-integrante da ditadura com o perfil psicológico mais intrincado. “Ele tinha absoluta certeza que estava destinado a grandes missões em sua vida...ele achava que era um cavaleiro nas Cruzadas!”, disse ao Estado Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, ex-prisioneira de Astiz e autora do livro “Esse inferno”, sobre a passagem de várias prisioneiras mulheres nesse centro de torturas.
Outra sobrevivente, Sara Osatinsky relatou que o centro da vida do loiro oficial era a ESMA: “em uma ocasião Astiz saiu de férias, mas voltou quatro dias depois, pois havia descoberto que não podia compartilhar suas atividades com os amigos. Por isso passou o resto de suas férias na ESMA, conosco”.
Astiz apreciava reunir os prisioneiros para que estes ouvissem suas longas dissertações nas quais argumentava que os africanos eram “racialmente inferiores”.
Diversas testemunhas indicam que, enquanto outros repressores somente ficavam na ESMA o tempo suficiente para o “trabalho”, Astiz desfrutava do cheiro de urina e fezes que emanava das celas, além dos gritos dos torturados.
Protegido pela cúpula militar, Astiz foi recompensado por seus serviços durante o período mais intenso de repressão com o cargo de governador das ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas, em 1982. No entanto, essas ilhas foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante o conflito bélico.
Após um único tiro de bazuca disparado pelos britânicos, Astiz desistiu de resistir. Com com um copo cheio de whisky em uma das mãos, assinou a rendição incondicional.

Astiz rende-se rapidamente aos britânicos durante a Guerra das Malvinas
Astiz foi beneficiado em 1986 e 1987 com as leis de perdão aos militares (leis de ponto final e de obediência devida). Solteiro, ao longo dos anos 90 era visto com frequência em discotecas. Mas, por ser reconhecido facilmente, Astiz também foi alvo de freqüentes socos e cusparadas dos jovens que dançavam nesses lugares.
Em 1998 Astiz concedeu sua primeira e última entrevista à imprensa, gerando intensa polêmica. Em declarações à revista “Trespuntos”, o ex-capitão definiu-se como “o melhor homem para matar um presidente”.
FREIRAS E GARGALHADA
Astiz foi responsável pelo assassinato de três fundadoras das Mães da Praça de Mayo, entre elas, Azucena Villaflor. Ele também é requerido por vários tribunais na Europa. Na Itália, ele foi acusado de ter sido o autor do desaparecimento de três cidadãos italianos em território argentino durante o regime militar.Em 1990 a Justiça francesa condenou o ex-capitão - à revelia - à prisão perpétua pela morte das freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet.
As duas freiras foram sequestradas em uma operação planejada por Astiz, que com suas suas feições de “menino bem-comportado” infiltrou-se na organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Maio, fazendo-se passar pelo irmão de um desaparecido. A cara ingênua de Astiz convenceu as Mães, que somente perceberam quem ele era tempos depois. Sob este disfarce, Astiz recolheu informações e decidiu que as duas religiosas idosas deveriam ser eliminadas.
Astiz também é procurado pela Justiça da Suécia, já que durante uma operação para sequestrar militantes de esquerda, ele e seu grupo entraram na casa de uma estudante na Grande Buenos Aires. Ali estava Dagmar Hagelin, uma jovem sueca, amiga da estudante procurada pelos militares. A adolescente fugiu dos repressores e foi derrubada com um tiro certeiro de Astiz na nuca. O oficial, ao comprovar sua pontaria – segundo testemunhas - soltou uma gargalhada.

Pátio da Esma, com a presença de cadetes e oficiais, nos anos 70
ESMA FOI O MAIOR CENTRO DE TORTURAS DA AMÉRICA DO SUL
Dos 651 campos de concentração da Ditadura, a ESMA tornou-se o mais emblemático. Dentro da cidade de Buenos Aires, a poucos quarteirões do estádio Monumental de Núñez, foi o cenário das torturas mais cruéis do regime militar.
A ESMA, segundo o jornalista e analista político Eduardo Aliverti, era “um clube de perversão”.
Enquanto que nos outros campos de concentração os militares recorriam a métodos “clássicos” como o fuzilamento, na ESMA os oficiais da Marinha, “eliminavam” os prisioneiros por meio dos “vôos da morte”. Esta era a denominação da modalidade de jogar os prisioneiros dos aviões em pleno voô sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.
A ESMA também contava com um armazém onde eram acumulados os objetos saqueados dos prisioneiros e suas famílias. Roupas, sapatos, eletrodomésticos, quadros e antiguidades eram alguns dos frutos do saque realizado pelos militares da ESMA.
A Marinha também organizou uma imobiliária clandestina que vendia as casas e apartamentos dos “desaparecidos”. O dinheiro era embolsado pelos oficiais.
“Viva Hitler”, “Nós somos deuses” eram algumas das frases que os oficiais haviam pintado nas paredes das salas de tortura, onde também violentavam as prisioneiras que minutos depois levavam – ainda em estado de choque e sangrando – para jantar em uma churrascaria de luxo em pleno centro portenho.
A jornalista Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, relatou ao Estado o modus operandi dos militares: “eles tinham métodos muito refinados. Vários prisioneiros viram como torturavam seus bebês, na sua frente, ameaçando esmagar a cabeça das crianças”.

Assinatura, em uma viga de uma das celas da Esma, do prisioneiro Horacio Maggio, posteriormente assassinado
Espalhados em 17 hectares, os diversos edifícios da ESMA que compõem o antigo centro de torturas possuem nomes que indicam o humor negro dos oficiais: “Avenida da Felicidade”, “Eldorado”, “O Capuz” e “O Pequeno Capuz” (estes dois últimos, em alusão aos capuzes que os militares colocavam sobre a cabeça dos prisioneiros, que freqüentemente ficavam semanas ou meses sem ver a luz do dia).
A Escola de Mecânica da Armada está a poucos quarteirões do estádio Monumental, do time River Plate.
Durante a Copa do Mundo de 1978, os prisioneiros podiam escutar desde suas celas as torcidas no estádio gritando “gol”.
Nos dias de jogo os oficiais detinham as sessões de tortura para dedicar-se a ver pela TV os embates futebolísticos. Quando os jogos concluíam, dedicavam-se novamente a aplicar choques elétricos ou arrancar as unhas dos prisioneiros.
ESQUIZOFRENIA
“O comportamento desses militares era uma coisa esquizofrênica”, disse ao Estado Graciela Daleo, uma ex-prisioneira que no dia em que a Argentina venceu a Copa, foi levada pelos oficiais para um “passeio” de celebração pelas avenidas da cidade.
Daleo, que havia sido torturada com requintes de crueldade, olhava a multidão dançando pelas ruas. “Eu olhava pela janela do carro, rodeadas de oficiais da Marinha, e pensava que se começasse a gritar às pessoas na rua que eu era uma prisioneira política, ninguém daria bola para mim”. Após o passeio, Daleo foi levada novamente à cela.
Grande parte dos prisioneiros ficavam encapuçados até seis meses ininterruptos. Esta era uma forma dos carcereiros eliminarem qualquer noção de tempo e espaço dos detidos.
Quase todos, antes de serem torturados recebiam uma refeição de boa qualidade. Essa a “última ceia”, servida pelos oficiais com um sorriso de sarcasmo. Depois, eram levados pela “Avenida da Felicidade”, tal como denominavam o corredor que conectava os alojamentos dos prisioneiros com as salas de torturas.
Logo, a longa seqüência de padecimentos começava com choques elétricos sobre um colchão. As fortes descargas causavam pequenos “apagões” no resto das instalações da Esma. Para que a condução elétrica fosse melhor, os oficiais de Massera molhavam os corpos dos torturados.
Nos pavilhões onde amontoavam-se os prisoneiros, havia uma mistura de alívio e desespero. “Você implorava que o companheiro fosse deixado em paz...mas, ao mesmo tempo, sabia que quando isso acontecesse, você era o seguinte”, explica Victor Basterra, um dos sobreviventes.

Parte da frente da Esma, atualmente
AMPLO LEQUE DE TORTURAS
Depois dos choques, os prisioneiros eram as vítimas do “submarino úmido”, que consistia em colocar suas cabeças em baldes d’água cheios de urina, fezes e outros dejetos. Os oficiais também aplicavam o “submarino seco”, ou seja, a asfixia com uma bolsa de plástico.
Uma das mais temidas era o “saca-rolhas”, que consistia na introdução de um aparelho pela via anal, que ao ser puxado para fora, arrastava junto as vísceras.
Algumas torturas eram inesperadas. Os homens de Massera dedicavam várias horas para imaginar novas formas de atormentar os prisioneiros. Uma manhã, os detidos ficaram perplexos ao ver que os oficiais levavam uma motocicleta até o porão onde estavam. Nas horas seguintes, os militares, montados na moto, divertiram-se circulando pelo salão passando por cima dos prisioneiros, deitados no chão a modo de paralelepípedos.
Teresa, uma das prisioneiras que morreu na Esma e cujo sobrenome é desconhecido, era violada cada vez que ia ao banheiro. “Se ela ia uma vez, a estupravam nessa ocasião. Mas, se, horas depois, ia de novo, era novamente violada. Todas as vezes que ia ao banheiro, era impreterivelmente estuprada. Todas”, relata Enrique Fuckman, ex-detido das masmorras da Esma.

Dagmar Hagelin, a adolescente estudante sueca vítima de Astiz
‘ASTIZ DAVA UM PRESENTE DE ANIVERSÁRIO PARA UM PRISIONEIRO...E DEPOIS O LEVAVA À SALA DE TORTURA’
“O Verdugo – Astiz, um soldado do terrorismo de Estado” é a mais recente biografia não-autorizada de Alfredo Astiz. Seu autor, o jornalista Jorge Camarasa, famoso nos anos 90 por seus livros sobre nazista na Argentina, em entrevista ao Estado, conversou sobre a intrincada personalidade de Astiz, a quem define de “sinistro paradigma do terrorismo de Estado”.
Estado: Como definiria a relação de Astiz com suas vítimas e seu trabalho?
Camarasa: Astiz possuía uma série de patologias. Ele costumava recordar os aniversários de alguns prisioneiros, aos quais levava presentes na ESMA! Era uma relação de amor-ódio muito complexa. Astiz era capaz de realizar coisas estranhas como levar um prisioneiro a um restaurante, e depois transportá-lo para o lugar onde seria torturado...e ele pretendia que fosse uma espécie de relação na qual todos seriam amigos!
Estado: Astiz pertence aquele grupo de ex-torturadores e ex-sequestradores que consideram que seus atos durante a ditadura foram uma ‘missão divina’? Ou o enquadraria como um ‘aproveitador’ das circunstâncias?
Camarasa: Era um aproveitador. Ele limitava-se a cumprir as ordens que recebia, sem jamais questionar se elas estavam bem ou mal. Se o patrão de Astiz tivesse sido outro governo, outro regime, com certeza ele teria agido da mesma forma.
Estado: Astiz foi um garoto mimado da ditadura? O almirante Massera o encarregou de realizar complexas tarefas de espionagem, apesar de ser muito jovem...o ditador e general Leopoldo Galtieri, durante a Guerra das Malvinas, o colocou como comandante das ilhas Geórgias do Sul....
Camarasa: Foi mais do que um garoto mimado. Isso tem a ver com a formação de Astiz. Ele foi um oficial treinado nos Estados Unidos, além da Escola das Américas. Era um cara com instrução militar acima de seu camaradas.
Estado: Qual foi o destino de Dagmar Hagelin?
Camarasa: Sabemos detalhes da operação na qual Dagmar foi pega. Mas não sabemos se morreu na hora, se foi levada viva e posteriormente torturada. E depois morta.

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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
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10.12.09

Nas eleições presidenciais de 2007, do total de 27 milhões de eleitores votaram 19 milhões. Cristina Kirchner recebeu 8,65 milhões de votos.
No entanto, 8 milhões de eleitores abstiveram-se de votar. Outros 1,33 milhão votaram em branco. Outros 240 mil eleitores anularam seus votos.
No total, 9,570 milhões optaram por não depositar seus votos a favor de candidato algum. Isto é, foram a principal opção no processo eleitoral argentino de 2007.
Cristina Kirchner (CFK) e seu marido, antecessor, ex-presidente e partner político, Néstor Kirchner.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com ; site do jornal 'Crítica' no qual publica diariamente: www.criticadigital.com/nino/ )
FATOS, NÚMEROS E PECULIARIDADES DOS DOIS ANOS DE CFK NO GOVERNO
Cristina E. F de Kirchner completa nesta quinta-feira dia 10 de dezembro dois anos no governo. Está no meio de seu mandato. Há exatos dois anos foi empossada como presidente da República e recebeu a faixa e o bastão presidencial do próprio marido, Néstor C. Kirchner. Foi a primeira vez na História do mundo em que um presidente, eleito nas urnas, passava o poder à cônjuge, também eleita por vias democráticas.
A campanha de Cristina foi realizada com o respaldo de toda a máquina do governo do marido e antecessor.
DENOMINAÇÕES
Cristina Kirchner faz questão de ser chamada de “presidentA”, com a letra ‘A’ no final.
Apelidos de Cristina: “Rainha Cristina”, “A rainha do Botox”, ou diretamente as iniciais ‘CFK’.
VOTOS
Evolução da votação dos Kirchners, desde que chegaram ao poder, há seis anos:
Presidencial, em 2003: 22% dos votos
Parlamentar em 2005: 38,9% dos votos
Presidencial em 2007: 45,6% dos votos
Parlamentar em 2009: 30% dos votos
(Todos os votos referem-se aos votos válidos emitidos)
APOGEU
Cristina controlava, quanto tomou posse em dezembro de 2007, entre parlamentares próprios e aliados
- 161 deputados, de um total de 257
- 47 senadores, de um total de 72
QUEDA
Cristina controla, dois anos após sua posse, entre parlamentares próprios e aliados
- 104 deputados, de um total de 257
- 36 senadores, de um total de 72
PLANOS DE PODER
Entre 2006 e 2007, os Kirchners definiram um plano para a sucessão (segundo fontes do governo e analistas) :
- Kirchner, com o primeiro mandato, entre 2003 e 2007.
- Entre o final de 2006 e início de 2007 ficou definido que a candidata para a sucessão de Kirchner seria Cristina.
- Cristina foi eleita em 2007 (cujo mandato conclui em 2011).
- O casal monitoraria clima político para ver se em 2011 conviria mais a candidatura de Kirchner, que voltaria ao poder, ou a de Cristina, que apresentaria-se para reeleição.
- Se Cristina fosse a candidata para reeleição em 2011, Kirchner esperaria seu turno para 2015.
- Esses planos estariam em stand by atualmente, já que o casal possui 70% de imagem negativa. Mas, os Kirchners tentam ampliar sua base de poder com uma série de leis, aprovadas recentemente:
1 - Lei de Mídia (que restringe a ação dos meios de comunicação críticos com o governo)
2 – Prorrogação dos ‘superpoderes’ econômicos (pacote de leis que permite que a presidente possa alterar grande parte do Orçamento Nacional sem necessidade de aprovação do Parlamento)
3 – Reforma política (que complica a existência dos partidos pequenos e favorece o Peronismo e a União Cívica Radical)
FALHAS, PROBLEMAS E CRÍTICAS
- Cristina Kirchner é criticada por sua vaidade pessoal, sua fama de shopaholic, supostas cirurgias plásticas e autoritarismo.
- Ela e seu marido são suspeitos de enriquecimento ilícito
- Ministros e ex-ministros são suspeitos de vários casos de corrupção
- Oposição afirma que Kirchners ‘improvisam’ política econômica
- Cristina é acusada de “fraca”, por deixar que seu marido seja o real poder do governo
- Em março de 2008 Cristina Kirchner abriu um conflito de vários meses de duração com os ruralistas. Tentou implementarn um impostaço agrário para arrecadar US$ 2 bilhões. Mas, o país e o Estado argentino tiveram perdas de US$ 7 bilhões.
- Desde o ano passado abriu uma guerra contra os principais meios de comunicação do país
- No ano passado o governo de Cristina foi o alvo dos primeiros panelaços desde a crise de 2001-2002

ECONOMIA
Evolução do PIB
2003 (quando seu marido Néstor Kirchner tomou posse): 8,8%
2004: 9%
2005: 9,2%
2006: 8,6%
2007: 8,6% >(Cristina tomou posse em dezembro desse ano)
2008: 7%
2009: (previsões) O governo calcula que o PIB crescerá 0,5%; os economistas afirmam que teria queda de 3%.
Pobreza
- A pobreza caiu de 54% em 2003, quando Kirchner tomou posse para 23,4% em 2006.
- Em 2007, começam disparidades entre as estatísticas do governo e economistas independentes
- Em julho de 2009,
a) segundo o governo, a pobreza atingiu 13% da população;
b) para economistas independentes e a Igreja Católica, a pobreza voltou a crescer e atinge de 30% a 40% dos argentinos
Desemprego
O desemprego caiu...
- Dos 17,8% em 2003
- Para 8,1% em 2007 (quando Cristina tomou posse)
E começou a subir...
- Atualmente o governo afirma que o desemprego é de 9%, mas analistas privados dizem que passou dos 12%
Reservas do Banco Central
As reservas do BC passaram de US$ 14 bilhões em 2003 para US$ 50 bilhões em 2007 (quando Cristina tomou posse).
Atualmente são de US$ 47 bilhões.
Cotação do dólar
A cotação do dólar passou de 2,9 pesos em 2003 para 3,16 pesos em 2007. Atualmente a cotação é de 3,80 pesos.
Fuga de divisas
2008: US$ 23,6 bilhões
2009: US$ 14,5 bilhões (entre janeiro e novembro)
O ‘MEIO DO CAMINHO’

Em dois anos o casal Kirchner dilapidou hegemonia política e levou o país à crise econômica
Cristina Kirchner completa nesta quinta-feira dois anos de governo, o exato ponto no meio de seu mandato presidencial. Quando chegou ao governo, no dia 10 de dezembro de 2007, com o respaldo de 45,6% dos votos nas eleições presidenciais - o dobro dos 22% obtidos em 2003 por seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner – e uma popularidade de 55%, ela contava com o respaldo de 20 dos 24 governadores e o apoio de intelectuais, organizações de defesa dos Direitos Humanos e os sindicatos.
Além disso, controlava – entre aliados e parlamentares próprios, 161 deputados, de um total de 257 na Câmara. No Senado era obedecida por 47 senadores de um total de 72.
Na ocasião, o cientista político Rosendo Fraga, afirmou ao Estado: “começa um período de hiper-presidencialismo”. O casal Kirchner estava no pináculo do poder. Perante esse cenário de hegemonia a classe política apenas fazia uma pergunta na época: “quem será candidato à sucessão em 2011? Cristina ou Néstor?”.
Mas, dois anos depois, grande parte desse capital político está desintegrado. O golpe de misericórdia no encolhimento do poder dos Kirchners foi a derrota nas eleições parlamentares de junho, quando o governo obteve somente 30% dos votos válidos em todo o país.
Atualmente, juntando aliados e deputados próprios, na Câmara o casal Kirchner somente possui 104 parlamentares de um total de 257.
No Senado também perdeu a maioria que ostentava, já que conta com 36 senadores de um total de 72.
O problema é que o voto de Minerva está nas mãos do vice-presidente da República, Julio Cobos (que também é o presidente do Senado), que rachou com Cristina Kirchner durante o conflito com os ruralistas no ano passado. Para irritação dos Kirchners, Cobos é um potencial presidenciável da oposição.
Pela primeira vez em seis anos o governo será minoria no Parlamento. “O kirchnerismo não poderá mais sentir-se o dono do Congresso Nacional. Será apenas um inquilino a mais”, ressalta o colunista político Fernando Laborda.
Dos 24 governadores, apenas 10 obedecem Cristina, especialmente aqueles das províncias em graves problemas financeiros, que dependem dos fundos federais para pagar o funcionalismo público e evitar conflitos sociais. O esvaziamento do poder também foi interno, já que um terço do peronismo deixou as fileiras do governo e organizou-se como um grupo dissidente.
Nesse intervalo de dois anos a presidente deflagrou um insólito conflito com o setor ruralista que paralisou o país, gerou desabastecimento de alimentos, intensificou a escalada inflacionária. De quebra, o conflito mobilizou a classe média das grandes cidades, que protagonizou os primeiros panelaços desde a crise de 2001-2002. A fuga de divisas bateu todos os recordes históricos, enquanto que os investidores internacionais optavam por países previsíveis como o Brasil, Chile e até o pequeno Uruguai.
O cenário conturbado complicou-se mais com a decisão da presidente de pressionar o empresariado para aumentos salariais. A estatização inesperada da companhia aérea Aerolíneas Argentinas, do sistema de aposentadorias e das transmissões dos jogos de futebol intensificaram os temores do empresariado. Na semana passada, a Associação Empresarial Argentina (AEA), costumeiramente de baixo perfil, criticou a “excessiva intervenção do Estado na economia”.
Mas, desde a derrota nas eleições parlamentares em junho, até a semana passada, quando o novo Parlamento prestou juramento, os Kirchners atarefaram-se em conseguir uma série de medidas que lhes garantirão poder político, apesar da elevada impopularidade.
Entre as medidas estão a aprovação dos superpoderes econômicos (com os quais poderá reconfigurar grande parte do Orçamento Nacional sem aprovação do Congresso), a lei de mídia (que limitará os meios de comunicação críticos) e a reforma política (que restringirá a criação de novos partidos).
A socióloga e analista política Graciela Römer disse ao Estado que inicia um cenário insólito para a Argentina, já que nos dois anos que restam o casal Kirchner terá que lidar com um Parlamento opositor: “este é o governo menos disposto a submeter-se às restrições que um sistema republicano de governo impõe. Este governo faz isso em nome de uma concepção cesarista da democracia e de colocar a luta contra os ‘inimigos do povo’ antes das regras formais do sistema democrático”.

Néstor Kirchner, 'cão de guarda' de Cristina no Parlamento, promete 'guerra' contra oposição.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com ; site do jornal 'Crítica' no qual publica diariamente: www.criticadigital.com/nino/ )
NÉSTOR, O VERDADEIRO PODER POR TRÁS DE CRISTINA
Ao longo dos anos 80 e 90, Néstor Kirchner e sua esposa Cristina Kirchner fizeram carreiras política paralelas. Enquanto ele era eleito prefeito de Río Gallegos e posteriormente governador da província de Santa Cruz, ela chegava à Câmara de Deputados, para entrar no Senado na sequência. Quando Kirchner chegou à presidência, os rumores do âmbito governamental indicavam que Néstor pedia constantemente os conselhos de Cristina. Por este motivo, quando ela foi eleita sua sucessora (a primeira vez na História mundial que uma esposa sucedia ao próprio marido por intermédio das urnas) a classe política e a opinião pública consideravam que o país teria um “governo bicéfalo”.
Mas, imediatamente os argentinos perceberam que o verdadeira cabeça do governo de Cristina Kirchner era seu marido Néstor. O ex-presidente, formalmente fora da administração federal, continuou reunindo-se com seus ministros (que havia repassado à esposa). Líderes sindicais encontram-se primeiro com Kirchner para fechar acordos antes de assiná-los com a presidente.
Graciela Römer considera que “os argentinos esperavam que Cristina Kirchner se encarregasse dos pontos fracos do governo de seu marido, isto é, melhorar a institucionalidade e abrir diálogo com a oposição. Nada disso aconteceu. E para complicar, acrescenta-se o impacto da crise financeira mundial, o desemprego e a inflação. De quebra, o aumento da criminalidade. Isso tudo explica a derrota que os Kirchners sofreram nas eleições parlamentares”.
Römer destaca que a “hiper-presença de Néstor Kirchner em seu governo não permitiu que Cristina Kirchner desenvolva uma agenda e um perfil próprio, fato que a expôs a um enfraquecimento de sua imagem”.
Kirchner, na semana passada, prestou juramento como deputado federal. Os analistas afirmam que nesse posto agirá como “cão de guarda” do governo de sua esposa.
O cientista político Rosendo Fraga sustentou que o encolhimento do poder no Parlamento será uma experiência política nova para o kirchnerismo e para o próprio Néstor Kirchner. Fraga sugere que a adaptação não será fácil: “se bem os líderes políticos mudam de ideologia de acordo com os interesses, conveniências e as circunstâncias, eles não mudam de personalidade...”.
‘CÃO DE GUARDA’
Kirchner prestou juramento pela primeira vez em sua vida como parlamentar e assumiu sua cadeira de deputado federal, para a qual foi eleito nas eleições de junho passado.
Na ocasião o “kirchnerismo” sofreu uma derrota histórica, ao ficar com apenas 30% dos votos em todo o país. A derrota implicou na perda da maioria que Kirchner e sua esposa e presidente Cristina Kirchner ostentaram na Câmara e no Senado ao longo dos últimos seis anos e meio.
Kirchner, que até ontem havia acumulado cargos executivos (prefeito da cidade de Río Gallegos, governador da província de Santa Cruz e presidente da República), não será um deputado qualquer do governista partido Justicialista (Peronista). Kirchner – segundo parlamentares governistas e da oposição indicaram ao Estado - será um “cão de guarda” de sua esposa nessa casa do Congresso Nacional.
O próprio Kirchner declarou à imprensa: “eu é que vou apresentar no plenário os projetos do Poder Executivo”.
Os analistas políticos estão curiosos pelo comportamento que Kirchner terá no plenário, já que o ex-presidente foi conhecido por governar por decretos, prescindindo em boa parte de seu mandato (2003-2007) do Parlamento. “Kirchner despreza a instituição do Parlamento”, disse recentemente ao Estado o ensaísta Marcos Aguinis, autor de “O atroz encanto de ser argentino”.
Durante o juramento dos colegas Kirchner não seguiu o protocolo e conversou e riu com parlamentares sentados a seu lado.

Ácido humor portenho não poupa os Kirchners
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04.12.09

Entre 2001 e 2003, no meio da falência generalizada, catorze províncias argentinas começaram a imprimir suas próprias moedas. Estas "quase-moedas" – criticadas intensamente pelo FMI - passaram rapidamente de representar 15% do circulante da Argentina na época para...38%! O patacón, a quase-moeda bonaerense, foi o hit parade das moedas paralelas.


Mais de meia década após a extinção dos patacones, lecops e cecacors, o governo de Córdoba, uma das principais províncias da Argentina, ameaçou reimplantar o sistema de “moedas paralelas” - as moedas sem lastro emitidas pelas províncias como medida de emergência para pagar as contas - utilizado durante a crise econômica de 2001-2002.
Segundo o governo cordobês, essa será a drástica alternativa a adotar, na hipótese de que não consiga driblar os graves problemas financeiros na qual está mergulhado.
“Caso a União não envie os fundos que nos deve, a província terá que cobrir o ‘buraco’ com uma moeda paralela”, afirmou, sem sutilezas, o secretário de Finanças de Córdoba, Ángel Elletore.
Segundo ele, a União não enviou fundos federais para província ao longo de novembro. “E acho que em dezembro tampouco receberemos dinheiro algum”, lamentou.
O governador Juan Schiaretti autorizaria a emissão de moedas paralelas caso a União não desembolse os US$ 555 milhões que deve à província de Córdoba. Além da dívida deste ano, a província disputa na Corte Suprema o pagamento de US$ 315 milhões, relativos a dívidas previdenciárias da União com Córdoba no período 2002 e 2007.
Uma parte da emissão realizada por Córdoba seria em bônus, enquanto que a outra – para pagar os salários do funcionalismo - teria o formato de “moeda paralela”, que seria utilizado como circulante dentro da província.
Na quinta-feira no final da noite o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou que remeteria ao governo cordobês quase US$ 20 milhões.
O governo de Córdoba paralisou o plano de lançamento da “moeda paralela”.
...Mas apenas por enquanto.
“Vamos esperar que a União faça aquilo que prometeu para que a gente defina este assunto (o assunto das moedas paralelas)", disse o governador Schiaretti.

As “moedas paralelas” apareceram há décadas na Argentina. Nos anos 80, Carlos Menem, na época governador da província de La Rioja, emitiu bônus provinciais em sinal em rebeldia com o governo do presidente Raúl Alfonsín (na verdade, mais do que 'rebeldia', a emissão de moedas paralelas cobria o festival de gastos públicos de Menem e a péssima administração financeira de La Rioja)
As moedas ostentavam a efígie de Facundo Quiroga, caudilho do século XIX que Menem emulava.
Nos anos 90, diversas províncias pequenas emitiram estes bônus de forma ocasional, para paliar seus déficits fiscais.
Na gravura acima, Facundo. Na foto embaixo, Menem.

No início desta semana a província de Buenos Aires, responsável por um terço do total do PIB argentino, anunciou que emitirá bônus para saldar as dívidas de US$ 210 milhões que possui com os fornecedores do Estado. No entanto, o governo bonaerense descartou que esteja planejando a emissão de moedas paralelas para usar como circulante.
Outras províncias, assoladas por crescentes déficits fiscais, estão em situação similar à de Córdoba. Segundo a consultoria Abeceb, o déficit fiscal primário consolidado das 24 províncias argentinas em 2009 chegaria a US$ 4,31 bilhão. Isso equivale a 1,4% do PIB da Argentina.
Os especialistas afirmam que as emissões de “moedas paralelas” aumentam as incertezas do público e dos mercados sobre o estado das finanças públicas.
Nos últimos meses, secretários da fazenda de várias províncias sugeriram que as circunstâncias poderiam criar um cenário no qual essas emissões seriam novamente necessárias.
Os economistas ressaltam que no primeiro semestre deste ano os governos provinciais realizaram um festival de gasto público por causa das decisivas eleições parlamentares de junho passado. As províncias elevaram os gastos em obras e planos assistencialistas para impedir a derrota nas urnas.
Diversos governadores, que estão atrasados nos pagamentos do funcionalismo público e fornecedores do Estado, avaliam pagar os salários em parcelas.
Segundo a consultoria Economia e Regiões, as províncias e a capital federal concentram 1,3 milhão de funcionários públicos, cujos salários absorvem 51% de suas finanças.
Extraoficialmente, os governos provinciais não descartam a medida drástica de emitir “moedas paralelas”, tal como fizeram durante a crise de 2001-2002, caso o cenário financeiro fique mais sombrio.
Após a derrota do governo nas eleições parlamentares do dia 28 de junho, os governadores começaram uma romaria pela Casa Rosada para pedir fundos extras à presidente Cristina Kirchner. No entanto, não tiveram muito sucesso.
Segundo o Instituto Argentino para o Desenvolvimento das Economias Regionais (Iader), entre as províncias com maiores problemas estão a de Buenos Aires (que concentra quase 40% da população argentina e é responsável pela produção de mais de um terço do PIB nacional), Río Negro, Mendoza, Tierra del Fuego e Chaco.
A província de Buenos Aires é a que está em pior estado financeiro. Governada por Daniel Scioli, fiel aliado dos Kirchners, o território bonaerense possui atualmente um déficit fiscal de US$ 1,43 bilhão.
Vinte províncias argentinas estão com problemas graves para fechar o ano. O cenário é intensamente diferente do ocorrido em 2008, quando 15 das 24 províncias argentinas encerraram o ano com superávit fiscal.
Os economistas alegam que de lá para cá, as províncias – que neste ano passaram por eleições cruciais – elevaram os gastos em obras e planos assistencialistas para tentar impedir a derrota nas urnas.
Esse festival de gasto público foi agravado pelo aumento de 15,5% no salário do funcionalismo dias antes das eleições e a queda abrupta na arrecadação tributária provocada pelo conflito ocorrido em 2008 entre a presidente e o setor agropecuário, que protagonizou cinco locautes.

O governador A. Schwarzenegger, nesta foto como Terminator após uns sopapos da srta. Sarah Connors (ou de seu filho), foi duramente afetado pela crise econômica e precisou recorrer a uma modalidade de californianos patacones. Link para matéria do jornal portenho “El Cronista”:
http://www.cronista.com/notas/194906-schwarzenegger-lanza-patacones-californianos-evitar-la-quiebra
No início deste ano, Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, EUA, decidiu emitir promissórias para o pagamento de dívidas desse estado americano. Essa medida, por tabela, intensificou os rumores que correm nos últimos meses em Buenos Aires sobre uma eventual cenário no qual as “moedas paralelas” ressuscitariam, tal como fizeram durante a crise de 2001-2002.
CIRCULANTE
Entre 2001 e 2003, no meio da falência generalizada, catorze províncias começaram a imprimir suas próprias moedas. Estas "quase-moedas" – criticadas intensamente pelo FMI - passaram rapidamente de representar 15% do circulante da Argentina na época para 38%.
Na época, além das "pseudo-moedas", a Argentina contava com o peso, a moeda nacional (e, de quebra, o dólar, cujo intenso uso transformou a Argentina no país com maior número de dólares nas mãos da população depois dos EUA e a Rússia).
Córdoba emitiu os "Lecor" em dezembro de 2001. A moeda circulou até 2003, quando foi resgatada pelo governo provincial. Ao longo de dois anos, circularam Lecors com valor equivalente a US$ 300 milhões. Mas, os Lecor foram apenas uma parte das moedas paralelas que circulavam pelo país na época.
A emissão de "Patacones", da província de Buenos Aires, chegou a um valor equivalente a US$ 900 milhões. A própria União, falida, teve que emitir os Lecops. O total desta moeda paralela equivaleu a US$ 1,06 bilhão.

Nota de dois lecops. Esta foi a moeda paralela que o próprio governo federal teve que emitir na época
BASTARDAS APRECIADAS
Desprezadas, ou pelo menos encaradas como párias ou bastardas ao longo de 2001, as “moedas paralelas” tornaram-se rapidamente – no meio da crise argentina de dezembro daquele ano - as novas divas do circulante monetário argentino.
O motivo para esta mudança de status quo foi o “corralito”, o confisco dos depósitos bancários imposto pelo governo do presidente Fernando De la Rúa em dezembro de 2001.
O “corralito” deixou fora do páreo do cotidiano uma ampla circulação de pesos e dólares, até esse momento, as moedas fortes do país.
Na categoria de “pseudo-moedas”, os bônus não entraram dentro do confisco, já que somente podiam ser “custodiados” nos bancos, e não “depositados”.
Desta forma, quem recebia em patacones estava com seu dinheiro livre do confisco.
Várias das moedas paralelas eram aceitas fora de suas próprias províncias, como o "patacón" e o "lecor", que tinham valores iguais ao do peso.
Mas, nem todas as moedas paralelas tinham "boa saúde" como os patacones.
No caso dos "cecacors", da província de Corrientes, as notas não chegavam a 45% de seu valor numérico nominal. Na prática, eram vistas como notas do jogo "Banco Imobiliário".

Patoruzú, um dos emblemáticos personagens dos comics argentinos, criado pelo desenhista Dante Quinterno.
Patoruzú possuía milhões em patacones. No entanto, não era em referência à recente moeda paralela, mas sim, alusão ao dinheiro usado nos tempos coloniais, feito de prata e ouro. Patacón e Pataca (esta, usada mais em Portugal) provém do árabe “batakká”.
Na Argentina, os patacones também foram usados no período 1881-83. Eram moedas de prata.
RETROSPECTIVA
Estadão faz retrospectiva da década: gol mais emblemático, o mulherão, conflito internacional, líder político,etc: http://blogs.estadao.com.br/retrospectiva/categorias-e-moderadores/
A meu cargo está a moderação do debate sobre a/o líder política/o da década. Estão todos convidados:
http://blogs.estadao.com.br/retrospectiva/ao-lider-politicao-da-decada/
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30.11.09
“Presidente? Hehehehe...! Tão difícil como um leitão assobiando!”. Desta forma, com uma piada típica do interior do Uruguai, o senador José ‘Pepe’ Mujica respondia quando um simpatizante ou um jornalista lhe perguntava, há poucos anos, se um dia disputaria as eleições presidenciais. Há apenas meia década parecia impossível que este ex-guerrilheiro tupamaro, que em 1969 havia protagonizado a ocupação armada da cidade de Pando, uma das principais do país, poderia aspirar à presidência.
Mas, Mujica conseguiu ser eleito presidente graças à uma combinação de carisma pessoal, moderação ostensiva de suas posturas políticas, um vice com grande trânsito pelos mercados (Danilo Astori, ex-ministro da Economia) e cinco anos de prosperidade econômica durante o governo do socialista ‘diet’ e atual presidente Tabaré Vázquez, seu colega na centro-esquerdista coalizão Frente Ampla.
Evidentemente, tudo condimentado com muito pragmatismo e aquilo que o próprio Mujica denomina de “paciência oriental”.
Números preliminares indicavam que Mujica recebeu neste domingo 53% dos votos, meta que ele considerava tão impossível quanto a de ver primos do Marquês de Rabicó entoando melodias assobiadas.
Seu rival, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, candidato do Partido Nacional (Blanco), de centro-direita, obteve 42,9% dos votos.
MESMO CACHORRO, MESMA CORREIA
Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro que há exatamente 40 anos defendia a luta armada para a conquista do poder e a implantação de um regime marxista, transformou-se nos últimos anos naquilo que ele próprio costuma definir de “vegetariano” ideológico, isto é, um pragmático que – embora mantendo certo verniz de utopia socialista – afirma que pretende atrair os capitais estrangeiros, manter o sigilo bancário, fazer acordos comerciais com os Estados Unidos e a China.
Mas, acima de tudo, Mujica sustenta que manterá a política econômica do presidente Vázquez.
De quebra, na reta final de campanha – além de ressaltar o respeito à propriedade privada e o equilíbrio fiscal - emitiu vários sinais de distância ideológica e de estilos com o presidentes Hugo Chávez da Venezuela e o boliviano Evo Morales e indicou similitudes com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
MARKET FRIENDLY
Para mostrar que será “market friendly” (amigável com os mercados), Mujica recorre aos ditados populares uruguaios e afirma que seu futuro governo manterá o mesmo clima aberto aos investidores e a previsibilidade na política econômica que a administração Vázquez: “será o mesmo cachorro com a mesma coleira”.
O provérbio será levado à sério, afirma Mujica, que também ressalta que seu vice, o economista Danilo Astori, será a pessoa que se ocupará das questões econômicas. Astori, em quatro dos cinco anos de governo Vázquez, foi o ministro da Economia.
Além disso, Astori definiu a nova equipe econômica, que, em sua grande maioria está composta por moderados economistas de sua extrema confiança.
Nesta equipe, o ex-diretor de macro-economia de Astori, o economista Fernando Lorenzo, é apontado como o virtual novo ministro da Economia.
Em entrevista ao Estado poucas horas antes da eleição, Lorenzo – embora não confirme o novo posto - sustentou: “continuaremos com a previsibilidade das políticas econômicas, que foram parte muito importante do sucesso que teve o governo de Vázquez”.
Segudo Lorenzo, o desenvolvimento que Mujica projeta para o Uruguai “é a somatória da prosperidade e da equidade social”.
O economista Marcelo Sibille, da consultoria KPMG afirmou ao Estado que Mujica “mostrou sinais de continuidade” da política de Vázquez “que foram compreendidos pelos mercados”.
Segundo ele, o melhor termômetro para mensurar temores, o mercado cambial, manteve-se plácido nas últimas semanas, ao longo das quais as pesquisas apontavam uma vitória assegurada de Mujica.
“Não temos temores”, afirma Javier Carrau, vice-presidente da Câmara de Indústrias. Na mesma linha, Alfonso Varela, presidente da Câmara de Comércio e Serviços, indica: “estamos tranquilos”.
Nas ultimas semanas Mujica também indicou que “a política econômica não estará aferrada a nenhum dogma definitivo”.
O ex-guerrilheiro sustentou, com ironia, que “não será Mandrake ou Papai Noel que chega ao governo. A vontade de repartir possui os limites impostos pela realidade de uma sociedade de mercado”. Segundo ele, a política de distribuição da riqueza “não poderá afetar o andamento da economia”.
Mujica, em sua chácara no bairro Rincón del Cerro, na periferia de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)
Nascido em 1935 no seio de uma família de classe média austera, Mujica aderiu na juventude ao conservador Partido Nacional. Mas, nos anos 60 passaria para a esquerda e fundaria, junto com outros colegas de origens comunistas e anarquistas, o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros. Ali conheceu Lucia Topolanski, uma bela militante que transformou-se em senadora e sua esposa.

Mujica, nos tempos que participou da criação do movimento tupamaro, antes da Ditadura
Em 1972 foi detido no meio de um confronto com as forças de segurança. Foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Sua prisão foi prolongada. Um total de 14 anos, ao longo dos quais foi torturado físicamente com intensidade pelos militares no final do governo civil e ao longo da Ditadura (1973-85).
Sua psique também foi alvo de terrorismo. Mujica, nos dias de bom humor dos guardas, só podia ir ao banheiro uma vez a cada 24 horas. Mas, com um capuz na cabeça que o impedia ver e com as mãos algemadas.
Nos dias de má vontade de seus carcereiros, Mujica não podia ir no banheiro. Sem alternativa, suas fezes e urina escorriam pelas pernas.
Seu colega de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro, recentemente, em um comício, indicou que Mujica, em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem lhe dar água, precisou recorrer ao próprios fluídos corporais. “Talvez tenhamos pela primeira vez um presidente que teve que beber sua urina”, ilustrou.
Mujica é o primeiro ex-guerrilheiro a chegar à presidência de um país na América do Sul. Foto de Mujica quando estava preso
Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade. Adaptado aos novos tempos, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que integra a coalizão Frente Ampla.
Eleito senador, posteriormente, no governo do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da Agricultura.
Ali, começou a planejar sua conquista da presidência. Para não assustar a classe média e alta, indicou – com uma metáfora bovina - que não pretendia mais combater a burguesia: “não quero mais esmagá-la. Não. Eu quero é ordenhar a burguesia!”.
‘NÃO PODEMOS TER DOGMAS’
Mujica diz que será o ‘Néstor’ da ‘Ilíada do Mercosul’
Cansado de longos e intensos meses de campanha, o septuagenário senador e floricultor José ‘Pepe’ Mujica decidiu driblar sua própria equipe de assessores no fim da noite da quinta-feira, quando desapareceu dos principais eventos eleitorais da última jornada política antes da votação deste domingo. A ponto de transformar-se no primeiro ex-guerrilheiro que chega à presidência de uma república sul-americana, Mujica optou pela calma de um show de tango no tradicional Teatro Solís, em pleno centro de Montevidéu.
Acompanhado de sua esposa e um único guarda-costas, Mujica, ao sair do espetáculo, no hall do teatro, concedeu uma breve entrevista ao Estado - na qual misturou gírias com alusões à odas gregas - enquanto adolescentes aglomeravam-se ao redor para fazer uma foto com o informal líder esquerdista que pretende – por sua idade – ser uma espécie de ‘Néstor’ (o sábio guerreiro ancião da Ilíada de Homero) entre os jovens presidentes da região.
Estado - Recentemente o senhor disse, em relação à integração internacional de um país pequeno como o Uruguai, que “leitão magro sonha com milharal gordo”...
Mujica – Temos que nos localizar no mundo no qual vivemos. O mundo está ficando cada vez menorzinho e estão sendo formadas grandes unidades. Nós, uruguaios, nos perguntamos o que faremos. O mundo caminha – aos tropeções – para a abertura econômica. Não podemos de jeito nehum ter dogmas. O mundo está em momento de inflexão. É provável que daqui a um certo tempo teremos que fazer algumas mudanças para nos reposicionar. Essa matéria do ‘mundo’ vai ficar um pouco mais complicada do que hoje em dia, né? As fronteiras ficam ‘porosas’ com o desenvolvimento tecnológico. O caso do Brasil é que é um pais continental. Mas, o Brasil precisa também do resto do mundo. Agora, é evidente que o Brasil possui a responsabilidade natural (de liderança no Mercosul), derivado de suas dimensões e recursos...
Estado – O senhor costuma elogiar o governo Lula e até indica admiração pela forma como lida com a oposição...
Mujica- Lula é um velho amigo. Há pouco lá em Brasília deu para a gente um grande conselho, o de transformar grandes tensões em negociações, e não em confrontos. Ora, Lula comanda um país enorme, tem minoria no Parlamento e por isso dá mais espaço à política do que ao confronto. E nós, aqui, vamos dar sustentabilidade para que os conflitos se transformem em saídas.
Estado – O senhor sempre foi favorável à integração do Mercosul. Mas este cresceu da forma esperada? No Uruguai existe certo ‘merco-ceticismo’...
Mujica - O Mercosul começou muito ‘fenício’ (em alusão ao mercantilismo), essa coisa de ‘quanto você vende para mim e quanto eu te vendo’. Alguém pode acreditar que agricultura argentina ou brasileira será comida neste continente? Por muitos anos teremos que vender alimentos ao mundo. Por isso digo que precisamos integrar a energia, portos, estradas, e a inteligência!
Estado - O senhor tem 74 anos, tomará posse quase aos 75 e concluirá o mandato a menos de dois meses do octogésimo aniversário...
Mujica – Uma das coisas vantajosas da velhice é que a gente pode dizer o que pensa. Mas isso geralmente provoca um ‘rebu’, pucha!(‘putz’)!!! (Ri e faz uma loga pausa como se fosse encerrar a entrevista, mas inesperadamente retoma)...Me disseram o outro dia que serei o presidente mais velho da América Latina. Os presidentes da região terão que lembrar o discurso de Néstor, na Ilíada de Homero...
Estado – Néstor, embora sendo um ancião, não ficaria nas naves, já que participaria da conquista de Tróia dando ponderados conselhos aos jovens...
Mujica – Pois é, é algo antropológico, os gregos escutavam os mais velhos! Eram velhos e muito ouvidos também (Winston) Churchill e aquele general russo que fez que Napoleão se retirasse da Rússia (o caolho Mikhail Kutusov). Ora, eles (os presidentes mais jovens) vão ter que me respeitar...(ri)
BAIRRO
Mujica disse que ainda não sabe quando voltará ao Brasil, onde esteve recentemente. Mas, declarou que, com certeza, sua primeira visita oficial será “no bairro”, maneira como – informalmente – designa a região.
Candidatos presidenciais uruguaios, tão velhos como a população, segundo “El Observador”:
http://www.observa.com.uy/actualidad/nota.aspx?id=89420&ex=25&ar=3&fi=21
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados.
Tampouco serão publicados ataques pessoais entre leitores nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes.
Além disso, não publicaremos palavras ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como back ground antropológico).
Ariel Palacios é correspondente em Buenos Aires de O Estado de S.Paulo. Master em Jornalismo pela Universidad Autónoma de Madrid/Jornal "El País".
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