BLOGS

02.06.09

por Antonio Prata, Seção: Geral 01:26:13.

Faz muito tempo que me pergunto por que o Brasil não faz sitcoms. Nunca nos faltaram bons humoristas na televisão: de Ronald Golias a Hermes e Renato, passando por Regina Cazé, Bussunda, Andréa Beltrão, Jô Soares, Pedro Cardoso, Chico Anísio; dava pra fazer dois times de futebol com nossos comediantes e ainda sobrava uma meia dúzia do lado de fora, comendo churrasco e fazendo embaixadinhas. Por que será então que, nos últimos quarenta anos, esse pessoal fez filmes e sketchs, novelas e paródias, fez humor político e palhaçada, foi da macaquice mais tosca à metafísica, mas nunca, ou quase nunca, aventurou-se pelo formato que, nas últimas duas décadas, representou o que de melhor se produziu em humor, no áudio-visual?

Anteontem, ao acordar e ver um post it colado no espelho do banheiro da minha irmã, entendi finalmente a razão. “Lembrar de levar o bolo!!!”, dizia o post it, com a letra do Corey, meu cunhado. Fazia uns três dias que Corey vinha falando do bolo. Era para Mrs. McCoy, professora de biologia na escola em que ele trabalha. Todo começo de ano, a escola faz um sorteio e cada funcionário fica encarregado de organizar uma “festinha” para outro, na sala dos professores. Levar o bolo era uma coisa séria. Se ele se esquecesse, seria uma grande mancada com a Senhora McCoy. Ia pegar mal lá no trabalho. Além de tudo, a senhora McCoy já tinha sido dona de uma empresa de catering, não era qualquer bolo que resolveria o problema. E nos dias em que passei em Poughkeepsie (estou agora num banco da ferroviária, esperando o trem para Manhattan), enquanto não estava dando aula ou explicando alguma coisa para seu cunhado brasileiro, Corey Gorey, professor de inglês e roqueiro, estava pensando no tal bolo.

Eis o paradoxo que os americanos vivem: para que a máquina funcione azeitadinha e ninguém atrapalhe a vida do outro, para que o republicano do Texas possa caçar e a Dominatrix de Nova York possa vestir-se de látex e o barrigudo do Iowa possa participar da corrida americana de salsichas sobre uma pista de ketchupe, sem que um atrapalhe o outro, todas as esferas da vida foram normatizadas. Não há degrau do comportamento humano ou possível situação do cotidiano para a qual eles não tenham desenvolvido um método de ação, um protocolo destinado a economizar tempo, dinheiro, neurônios e conflitos. E é do atrito entre as pulsões individuais e a opressão dessa microfísica do proceder que surge o sitcom. Ele é o happy hour, a válvula de escape que torna possível acordar no dia seguinte, estampar o sorriso na cara e levar o bolo da senhora McCoy.

Como eles fazem isso? Ironizando, subvertendo, escrutinando as mini-regras do cotidiano com as lentes do humor. No primeiro episódio de Seinfield, uma conhecida pede para hospedar-se na casa de Jerry. Ela quer fazer sexo? Ele deve colocar um colchão para ela na sala ou esperar que durmam juntos, na cama dele? Qual o procedimento padrão quando uma conhecida pede para hospedar-se na sua casa? Que sinais ela emitiu? Como analisá-los? Jerry e George passam todo o episódio discutindo o assunto.

Nós, no Brasil, não fazemos sitcom pois não existem as regras cotidianas a serem subvertidas, discutidas, ridicularizadas. Afinal, se ninguém sabe ao certo o que se deve e o que não se deve fazer nem nas maiores instituições, imagina nas festas de aniversário da firma! Ainda estamos tentando passar a reforma política e discutindo se um deputado pode ou não pode dar passagens pagas com dinheiro público para seus familiares, que pressão pode haver em torno da obrigação de se levar ou não um bolo de aniversário?

Se a espontaneidade nas relações é melhor ou pior do que o bolo pré-agendado da Mrs. McCoy para o futuro da nação é uma discussão cabeluda na qual não me atrevo a entrar. Mas, para o humor televisivo, não há dúvida de que a segunda opção foi muito mais frutífera.

* * *
No dia 19 estréia aqui Whatever works, o filme novo do Woody Allen. No papel principal (aquele que chamamos de “papel de Woody Allen”) está Larry David, o cara que, ao lado de Jerry Seinfield, criou o melhor sitcom de todos os tempos. Há uma matéria interessante sobre os dois e o humor judaico nos EUA na revista New York dessa semana.

* * *
Alguém pode argumentar que Os Normais era um bom Sitcom. É verdade. E talvez a chave para ter funcionado tenha sido focar os conflitos em torno de um casal, não de amigos ou colegas de trabalho. Afinal, entre um homem e uma mulher, mesmo na mais esculhambada das sociedades, sempre existem regras - e onde há regra, há humor.

 

Link permanente Permalink 53 comentários

Comentários:

Comentário de: Luiz Horta [Membro]
02.06.09 @ 03:07
Larry David criou mesmo a melhor sitcom de todos os tempos. Chama-se "Curb your enthusiasm" e é Seinfeld sem doce.
Achei curioso esperar trem na rodoviária, bem sitcom esta coisa.
Comentário de: Alberto Martinet [Visitante]
02.06.09 @ 05:26
Olá Antônio,

Só para corrigir um escorregão: você certamente esperou o trem sentado num banco da estação ferroviária, não na rodoviária.

É lapso perfeitamente compreensível, dado que, no Brasil, as estações de trem deixaram de fazer parte da paisagem cotidiana para tornar-se elementos folclóricos.

PS: Era só um lembrete para você, por favor não publique este comentário.

Cordialmente
Comentário de: Mariana [Visitante] · http://www.tiazul.blogspot.com
02.06.09 @ 07:17
em primeiro lugar quero dizer que estou muito contente por fazer o primeiro comentário desse post (claro, se ele passar ileso por todos os critérios em vermelho e for publicado)! dito isso ( eu precisava dizê-lo), digo que não estou de acordo com sua afirmação de que o sitcom representaria o melhor produzido em humor nos últimos tempos.Mesmo sendo super fã de Mad About You ( aquele antiguinho com a Helen Hunt e o Paul Frasier) e absolutamente nada fã de Os Normais.Sim, até curto sitcoms (poucos diante da grande oferta) e também de seriados em geral...Mas aprecio e me divirto muito mais com as Escolinhas do Prof Raimundo, do Golias e até do Prof Girafales.Definitivamente não sinto falta dos Friends ou do Raymond para rir quando tenho A Grande Família do humor brasileiros e sua peculiaridade e multiutilidade.
Comentário de: L [Visitante]
02.06.09 @ 11:15
O Prata citando Seinfeld é muito pra mim! I love it!

Ah, essa sua série de crônicas dos EUA tá demais.
Comentário de: jv [Visitante] · http://febredemusica.blogspot.com/
02.06.09 @ 11:35
hmm gostei muito dessa análise. tb sempre me perguntei as mesmas coisas. mas isso quer dizer q nós, parcela minoritária que gosta dos sitcoms no Brasil, tb vivemos dentro dessas regras? em outras palavras, nos americanizamos?

além dos Normais, outra série boa era a "Sexo Frágil", q tinha um pé no teatro mas tb tinha um pouco de sitcom ali.
Comentário de: jv [Visitante] · http://febredemusica.blogspot.com/
02.06.09 @ 11:39
ahh e tinha tb Minha Nada Mole Vida, muito boa, q tb era com Luiz Fernando Guimarães.
Comentário de: Carol [Visitante]
02.06.09 @ 15:29
Já estava sentindo sua falta! É muito bom ver o ponto de vista de um Brasileiro escrevendo daí de cima... presenciando a rotina sem ser um intruso, sendo só uma visita de família!
Esperoq ue a viagem continue excelente e que vc tire muitas outras conclusões pra compartilhar!!!
Beijos!
Comentário de: FFF [Visitante] · http://www.faocubo.blogspot.com
02.06.09 @ 16:11
Seinfeld = melhor sitcom de todos os tempos...disparado

até hj sou extremamente fã das paranóias de george e kramer, e dos chutinhos (dança) de elaine benes

abraço
Comentário de: sandra [Visitante]
02.06.09 @ 16:13
Antonio, que texto, hein?!? Muito bom!
É ótimo ler as diferenças entre um país e outro ainda mais descritas por você.
*
Lembrei de um amigo que foi trabalhar e estudar aí, ele morou no que chamam de "cinturão bíblico", contou alguns eventos que me deixaram com a confirmação da impressão que os eua sempre me deram: não é insípido tanta organização?, não mata a vida e a espontaneidade tão queridas a nós, os brasileiros?
Ele dizia assim: "aqui onde estou morando não dá nem para pensar em pensar mal de Deus/Religião, você vira suspeito e mal visto na hora... numa festa me perguntaram que carro eu tinha, respondi "nenhum", ela virou as costas e simplesmente não me dirigiu mais a palavra, quem não tem carro aqui não é ninguém... tudo funciona perfeitamente, mas para funcionar tem que haver muita repressão, é aquilo, a flia americana tem sua casa, seu carro, seus filhos, um cachorro, trabalha, leva vida tranquila, mas não parecem ter as amizades que a gente tem no Brasil..." E ainda: "você não encontraria num bar alguém para conversar sobre literatura, filosofia, alguma esfera mais existencial, eles são ótimos em exatas, mas o resto.... ai ai só indo para a universidade".... por outro lado, meu irmão já foi diversas vezes para os eua para participar de congressos na área dele (telecomunicações) e adorou a ordem, a tranquilidade, a segurança, a compra de eletrônicos, claro, etc. Contou que um cara foi entregar pizza de bmw, porque lá os carros são muito baratos. quer dizer, aí.
Antonio, eu gostaria de ver você falar sobre essa parte mais existencial/filosófica que rola aí. Que impressão você teve sobre esse lado mais estado de alma, digamos assim?
*
beijo, boa viagem, curtam as coisas boas e escreva bastante aqui para os/as fãs, sim?
(Ah, e se casar naquele estilo que descreveste aqui, por favor, coloque algumas fotos no blog para vermos?, seria adorável, hehehe)
Comentário de: Marcelo Donati [Visitante] · http://ed-motta.blogspot.com/
02.06.09 @ 17:20
Miguel Falabela atesta que o seu "Toma Lá Dá Cá" é um sitcom...
Comentário de: sr. n [Visitante]
02.06.09 @ 17:33
Mto bom o texto, Prata!

Realmente, lá há as regras, os padrões para tudo.

Aqui, a "espontaneadade", prevalece.

E, assim, a diversidade num e noutro existe.

Mesmo as regras dos relacionamentos entre casais lá e aqui são diferentes. Teríamos Os Normais aqui e lá...? O que mudaria de um para outro basicamente pode ser interessante ver.

Fica a sugestão.

Abraço!
Comentário de: João [Visitante]
02.06.09 @ 18:02
Concordo e discordo do texto. Realmente o americano é super regrado e dá mais "motivos" para ser satirizado, porém o brasileiro tem sim ótimas oportunidades de se criar humor em cima do cotidiano, como o exemplo citado "Os Normais", posso voltar um pouco mais, precisamente nos anos 90 quando surgiu a Comédia da Vida Privada, muito melhor que Os Normais. Acredito que o nosso problema é mais em baixo, esse tipo de comédia está muito ligado a um senso de humor mais qualificado e nosso povo semi-analfabeto não tem condições de interpretar o "time" da piada, é como assistir Simpsons, Friends e o próprio Sinfield. Hoje a parcela da população que tem TV a cabo e, por questões óbvias, também tem mais acesso à informação, estudo etc...Não sustenta uma produção na TV aberta para fazer programas com esse nível de qualidade, ou seja, não dá IBOPE. Hoje costumo ver assistir The Big Bang Theory e dar muitas risadas. O tipo de humor brasileiro é a velha receita baseada no exdrúxulo, nas fantasias coloridas, nas mulheres semi nuas. Realmente, eu que sempre defendo a inteligência do público, só posso concluir que comédia inteligente não infelizmente funciona com público burro.
Comentário de: Marco Fábio Domingues [Visitante]
02.06.09 @ 18:13
Caro Antonio Prata, por indicação na Livraria Cultura, comprei "As Pernas da Tia Corália", mas confesso que não gostei... Mas o seu blog está muito bom... Acabei acessando por conta da figura so Seinfeld no Estadão. Acabei lendo bastante e seus textos sobre as coifas e do gelo nos mictórios estão sensacionais! Já inseri seu blog nos "Favoritos". Espero ler mais sobre sua viagem.
Comentário de: sandra silva [Visitante]
02.06.09 @ 18:15
Antonio Prata,

o Brasil não faz sitcom não é por falta de convenções, códigos ou normas sociais...por aqui também existem as sras McCoy...a diferença é o sistema de produção estruturado no País. Para atingir mais pessoas a TV é extremamente popular...sitcom é para um público mais restrito. O humor faz sucesso em qualquer esfera e classe e horário. Mas já há algumas mudanças. As TVs brasileiras estão se abrindo mais para produções independentes e os produtores têm a cabeça cheia de idéias bem distantes da novela das 8. A produção de TV nos EUA é a maior do mundo e há muita produção independente por lá. Por aqui, é só o começo...A Globo produziu Os Aspones (o Selton Mello estava fantástico) mas ficou pouco tempo no ar. Também é cultural. Produtos para a família ver junto, nos EUA os filhos saem cedo de casa para estudar e toda a sociedade é muito mais independente...etc...Lá do passado vem um exemplo de muito sucesso Confissões de Adolescente mas era para nicho. E há outros por aí...Para sitcom fazer sucesso no Brasil tem de crescer o modelo de produção independente e o hábito cultural. Gente talentosa e bons roteiristas tem bastante. Noto que os sitcom que mais fazem sucesso na TV por assinatura são de mulheres bem sucedidas, médicos, policiais e ficção cientifícia...bem distante dos códigos do dia a dia de Seinfield
Comentário de: Robert Dois [Visitante]
02.06.09 @ 18:25
E a Família Trapo? E a Grande Família? Sai de Baixo, A Diarista, Os Normais... se forçar a memória houve vários outros. Mas, concordo, nada como há nos Estados Unidos. Tenho uma tese: as novelas tiram do público o tempo, o espaço e a paixão. Americano não gosta muito de novela...prefere suas series e sitcoms, ao contrário do público brasileiro...
Comentário de: Flá Couto [Visitante]
02.06.09 @ 18:34
Antônio, vc já assitiu The Office? Aproveite que vc tá aí e dê uma conferida. É incrível! Não conheço ninguém que já trabalhou em um escritório que não tenha achado MUITO engraçado! E tem a "versão" brasileira, com funcionários públicos (é claro!): Os Aspones. Beijos, e bom resto de viagem, Flá
Comentário de: Emerson Silva [Visitante]
02.06.09 @ 18:37
Ponto de vista no mínimo muito interessante. A leitura da sociedade americana é sempre carregada de ideologia do tempo da guerra fria. Pena que textos como esse sejam cada vez mais raros.
Comentário de: Gui Peres [Visitante]
02.06.09 @ 18:45
Realemente nao existem bons sitcoms brasileiros como o genial Sienfeld. Mas creio que programas como o antigo "Sai de Baixo" ou "A Grande Família" podem ser considerados versões brasileiras de sitcoms. Apesar de serem meio novelísticos (ora, são da Globo), creio que são exemplos de nossa versão de um sitcom.
Comentário de: felix [Visitante]
02.06.09 @ 18:47
é uma teoria, mas somente uma teoria! poderia listra centenas de argumentos que dissessem o contrário. como em tudo na vida.

na minha modesta opinião, falta criatividade às TVS brasileiras. tudo gira em torno de telenovelas. o brasil não tem bons seriados em geral, como 24 horas, gossip girl, CSI, Cold Case, Bones, Ugly Betty, two and a half man. não é só no humor a lacuna. é nos seriados em geral.

abs
Comentário de: Peh de Chinelo [Visitante]
02.06.09 @ 18:48
A verdade eh que nao ha BONS humoristas no Brasil. Quando voce ve o Jo Soares copiando Jay Leno (incluindo a posicao da mesa, a caneca, etc.) voce fica horrorizado com a falta de criatividade do brasileiro neste setor. Nao eh possivel copiar siticoms porque por definicao eh uma comedia sobre uma situacao, neste caso bem local, bem cultural...Daih....
Comentário de: jotha melo [Visitante]
02.06.09 @ 18:54
Você respondeu a uma pergunta que há muito estava em minha cabeça e, ainda por cima, tirou um peso de minha consciência.
Escrevo roteiros para curtas e sempre sonhei em escrever um sitcom mas nunca consegui sair da terceira linha.
Valeu!
Comentário de: Pedro Reis [Visitante] · http://www.farolcomunitario.com.br
02.06.09 @ 18:57
Nosso país é um sitcom. Engraçado fica quando se quer fazer as coisas com ordem e progresso, porque aí chamam a gente de louco.
Ou chato.

Lá, ou aí conforme o ponto de vista, acredita-se em Papai Noel, Peru de Ação de Graças, Tio Sam e tantos outros personagens. Eles mitologizam tudo nós não, somos mitológicos por natureza.

Tô gostando de seguir a série. Boa estada
Comentário de: Riccardo (California,USA) [Visitante]
02.06.09 @ 19:09

Boa pergunta.

Sendo um residente dos Estados Unidos a quase 30 anos(me mudei para ca ainda no colegial).

Tambem sou uma pessoa que adora Sitcoms desde o tempo do "What's Happening" "Different Strokes" ao famosissimo "Cosby Show"by Bill Cosby ate os episodios de "Friends" e tambem do "Seinfeld" e ate mais recentemente no HBO, Larry David's "Curb your Enthusiasm"

No Brasil acho que existe algumas razoes porque os Sitcoms nao existem, uma grande razao e o fato das Novelas serem superpopulares e elas dominam no horario que normalmente os Sitcoms dominam nos EUA (Prime Time viewing hour).

Outra razao e que fazer um sitcom e um alto investimento e na realidade os sitcoms so viram successos financeiros depois de dois anos ou 22 episodios de "ratings" bem succedidos, dai eles tem chance de irem para "sindication" um mercado secundario de programas de tv de canais para cidades menores. Uma coisa que nao existe no Brasil.


A respeito de so a cultura Americana criar este tipo de pessoas stereotypicas que sao famosas nos sitcoms nisso nao concordo porque muitos destes characteres sao totalmente ficcionais. Pensando bem ate bons characteres que existem em novelas podem ser tornadas para o humor.



Um dia gostaria de ver uma boa sitcom brasileira.



abs



Comentário de: Filipe [Visitante]
02.06.09 @ 19:09
Gostei do se post, Antonio, e sempre me peguntei a mesma coisa. Mas discordo no Brasil não tenhamos essa tal "microfísica do proceder". Temos, mas é diferente. Ou talvez a ausência delas seja justamente o fator engraçado (as pessoas que insistem em ficar na porta do ônibus mesmo que não desçam no próximo ponto; ou aqueles que se levantam assim que o avião pousou - como vc já citou no blog). Acho que o problema do sitcoms aqui é mais técnico. As produtoras são as próprias emissoras de TV, o que limita temas, roteiristas, anúncios, elenco, às condições da emissora. Só há poucos anos a Globo começou a fazer seriado sem cara de novela. É isso. Abraços!
Comentário de: Alexandre [Visitante] · http://www.quartodoescritor.blogspot.com
02.06.09 @ 19:16
Olá, Antônio. É estranho sabermos rir dos sitcoms e no entanto quando a globo e as outras menos dotadas de $$ tentam realizar algo ficam entre o absconso e a trivial novelinha com toque de humor esculhambado e gratuito. Nosso povo sente-se ferido, raivoso com um humor menos derreado. A coisa se não for papagaiada é vista como arrogante. Mas há um sitcom que pegou firme no Brasil o BBB, tanto que aqui o troço faz mais sucesso que em qualquer outro lugar. Aquele humor insciente é que pega aqui. É só andar por ai e ver. E talvez seja impossível mesmo fazer sitcoms num país onde tudo na sociedade, em todas suas esferas emana um tom de descaso.
Para fazer humor saudável é preciso uma sociedade também saudável.
Comentário de: Alexandre Teixeira [Visitante]
02.06.09 @ 19:16
Outro dia fui a um velório. Uma situação muito triste pois era um enterro de um garato de 17 anos que morreu de dengue - uma doença que está ligada a hábitos de terceiro mundo. O interessante foi a quantidade de celulares tocando durante o velório. Cada toque mais estridente e chamativo que o outro. As pessoas não sabem como se comportar com este aparelhinho que invadiu nossas vidas e tão pouco em outros momentos do dia-a-dia.
Comentário de: gustavo [Visitante]
02.06.09 @ 19:26
"A Grande Família" e "Toma Lá, Dá Cá" são o quê então?
Comentário de: Sandro [Visitante] · http://www.sandrodesigns.com
02.06.09 @ 19:39
Logico que se faz sitcom no Brasil, e ha muito tempo! A diferenca esta no tipo de filmagem, que no Brasil e videotape digital, com aquela aparencia de novela e nos EUA sao as peliculas de 35mm e contem risadas da pequena audiencia do estudio ou risadas enlatadas. O conteudo no entanto e o mesmo. Nos EUA se produz mais e mais frequentemente por haver as 4 gigantes TV abertas alem das menores e as a cabo, que la existem desde o inicio dos anos 80. Essas emissoras tem orcamento para esse tipo de producao, enquanto no Brasil so a Globo, (e em alguns poucos exemplos, o SBT com producoes do tipo 'Grande Pai').
Se faz sitcom no Brasil, pelo menos desde o inicio dos anos 80. Por favor, nao exagere so para citar diferencas nas culturas, para isso, crie um post que fale sobre essas diferencas.
Comentário de: Tatiana Wise [Visitante]
02.06.09 @ 19:46
Hmm, esse texto me deixou um pouco confusa. Eu tentei pensar em "tentativas" de sitcoms no Brasil, e a primeira lembrança que me veio à mente foi A grande família - as duas versões. Por que um programa como esse não pode ser classificado como Sitcom? Em parte sim, é uma sátira sobre o que acontece no Brasil. Mas o que te impede de classificar algo assim no gênero de sitcom?

Na minha opinião, o Brasileiro tende a olhar muito pro que é produzido nos EUA e esquece de algumas pérolas nacionais. Alguém pode me dizer que programas como "Bronco" e "Sai de Baixo" teriam sobrevivido o auditório americano como no Brasil?

Apenas uma observação. :)
Comentário de: Edson [Visitante]
02.06.09 @ 19:55
"Nós, no Brasil, não fazemos sitcom pois não existem as regras cotidianas a serem subvertidas, discutidas, ridicularizadas."
Não é bem assim. Se as sitcoms americanas ou inglesas fazem sucesso aqui também é porque existe identificação, sem identificação não existe humor de situações, e se identificamos é porque passamos pelo mesmos conflitos.
Não existe porque não fazem, ou não levam em frente. Além disto, "A Grande Família" é uma perfeita sitcom. "A diarista" também era.
Comentário de: Leonardo C. [Visitante]
02.06.09 @ 19:57
Muito bom o texto. Também sempre me perguntei isso, no geral detesto os programas de humor brasileiros. Mas acho que sua teoria pro problema é só um dentre muitos fatores.. outros comentários aqui falaram disso: o fato de os meios de comunicação aqui serem concentrados nas mãos de poucos, a falta de infra-estrutura, falta de "n" coisas.......
"Corey Gorey".. esse é o nome dele mesmo? hahah achei ridícula a rima, os pais do seu cunhado que me perdoem... :p
Comentário de: renan [Visitante]
02.06.09 @ 20:49
O Brasil tem bons comediantes, a exemplo de Chico Anysio?! Me desculpe, mas... Hahahahahahahahahahahahahahaha!! Sitcoms nao se fazem com aquelas piadinhas fáceis, previsíveis e maliciosas :)
Comentário de: Flavio Ribeiro [Visitante]
02.06.09 @ 20:59
Antonio,

Ao meu ver, você escolheu uma explicação sociológica para uma questão que seria muito melhor respondida com uma abordagem econômica.

Situation comedy é apenas um dos gêneros dos seriados americanos. A maior parte das séries sequer é de comédia, tal que a sua explicação não se aplica.

A explicação para a falta de seriados no Brasil é muito simples: na TV brasileira, eles perdem para as novelas. Enqüanto o brasileiro típico não for para a escola, ele nunca vai gostar de sitcoms, muito menos seriados médicos ou de ficção científica.
Comentário de: Rodrigo [Visitante]
02.06.09 @ 21:32
Grande Família? Sai de Baixo? Normais??? Fala sério! Versões tupiniquims, baixas, rasteiras, pobres, bem de acordo com o público a que se destinam... Bobagem tentar explicar o que representa Seinfeld ou Everybody Loves Raymond, Kramer ou Marie (Ray's mom) pra esse publicozinho de Fantástico e Galvão Bueno... Excelente o texto Prata! Obrigado!
Comentário de: Rui Linden [Visitante]
02.06.09 @ 21:45
O que está faltando aqui no Brasil, é de humor e de humoristas inteligentes. Talvez as redes de televisão não valorizem a questão também com inteligência!
Comentário de: Nestor Flagrão [Visitante]
02.06.09 @ 22:13
Sitcom é seriado?
Comentário de: João da Silva [Visitante]
02.06.09 @ 23:02
Lamentável a postura de alguns comentaristas que repisam o eterno preconceito "nós somos semi-analfabetos sem cultura, eles é que são inteligentes de verdade". Pior fica quando estes comentaristas posicionam-se "do lado de lá", "eu sou como eles, porque eu 'gosto' de Seinfeld, Friends, etc.". Pois eu penso que estes seriados são justamente humor para inglês ver, ou seja, totalmente sem graça. Questão cultural? Claro que sim! Mas, por favor, não me venham com essa de que quem não gosta de Seinfeld é semi-analfabeto. Não sou obrigado a gostar de algo porque os "inteligentes" de plantão acham uma obra-prima da cultura americana.
Comentário de: carlos 3m [Visitante]
02.06.09 @ 23:30
prata, achei ouro sua analise.

tal como falou fff, disparado, o seinfeld eh o melhor de todos os tempos.

e nao eh so pelo lado subversivo em relacao as regras da sociedade em que acontece, mas porque amplifica os nossos pequenos humanos defeitos em tal magnitude que ficam visiveis para quem quer ver. a mesquinhes, a incontrolavel baixa autoestima, a inveja obsesiva, a displicencia, as taras sexuais e a longa lista que continua, saltam aos olhos dos telespectadores amortecidos pelo sutil humor pastelao, fisico e verbal.

primordialmente psicologia da natureza humana em forma de risada. nao conheco nada que chegue perto.

qto aos nacionais, alem do que o prata falou, penso que o problema tambem se amplifica ao considerar o tipo de publico que gera a receita financeira que banca o programa. no offense.

Comentário de: mauricio olivier [Visitante] · http://www.lookmade.com.br
02.06.09 @ 23:46
Sou roteirista e achei que sua abordagem é interessante mas não sei se é isso que diferencia o humor americano do humor brasileiro.
Temos um humor pouco inteligente.
No sitcom americano, o público ri no "intervalo" da frase. Ou seja no tempo de raciocinar e sacar a piada, que exige mais inteligência do público.
Nosso humor é mais pastelão, no Toma Lá Dá Cá que é o que temos de melhorzinho, rimos de um cara que fala por exemplo para uma lésbica: "sai pra lá seu sapatão". rimos de que? rimos "durante" a frase por que não há nada para se pensar sobre ela depois. O Falabela tem capacidade para fazer piadas mais inteligentes, mas se fizer isso o tempo todo, como nos sitcom, a audiência vai para baixo na hora. No Toma Lá, talvez uns 20% das piadas requeiram algum neurônio. Os shows de humoristas em teatro, mesmo no Brasil, usam piadas mais inteligentes, tipicas de sitcom. As pessoas demoram um milésimo de segundo para começar a rir, é o tempo dos neurônios sairem do marasmo. Temos um problema de público. De culura. De formação das pessoas.
O sucesso do filme "Se Eu Fosse Você" mostra exatamente o padrão cultural do público, rimos de um homem fazendo firulas como se fosse mulher e de uma mulher falando igual homem.
Rimos de quê? Rimos "durante" a piada pois não há nada para rir depois.
Comentário de: JÚLIO COSTA [Visitante]
03.06.09 @ 00:39
Bastante crível.


Ainda assim penso em:

1 - Seria um humor sem mercado. O que você vê meu caro é produto de elite. A CNT / SENSUS ta aí pra provar!
2 - Já tivemos inúmeros sitcons de qualidade - mas de fim súbito. E a "comédia da vida Privada"? Carecemos de continuidade, carecemos de escribas. Ou carecemos de espaço televisivo. Espaço nas nets, Sky e afins? Carecemos!
3 - Seu texto vai alem da relação espaço/ consumo. Falas da capacidade de criar! Posso pensar que estamos todos nós nessa terra buscando ver o “longa vida” na geladeira. O carro na garagem. A casa no bairro de classe média. A previdência privada... Aquela condição estável que nos torna deletérios e enfadonhos caçadores de “nuances” pitorescos do cotidiano.

Convenhamos, não temos cabeça pra sitcons - MANDA O CASSETA AÍ GENTE!

4 - Deixa os sitcons para nós, eu e você e outros ENLATADOS!

PS. não há humor maior que o humor folclórico! O do Auto, lembra?
PS. embora THE OFFICER (o inglês) teime em me contrariar.

inté!
Comentário de: seu_madruga@email.org [Visitante]
03.06.09 @ 00:54
A ultima vez que vi uma tentativa de sitcom no Brasil foi no SBT, acho que o nome era "Camara Cafe".

Na minha opiniao, funcionava. Nao sei por que acabou.
Comentário de: Riccardo (California,USA) [Visitante]
03.06.09 @ 02:35

Lembre tambem que o ultimo capitulo novo do "Seinfeld" faz exatamente dez anos de idade.

Todos esses que esta falando aqui nos States e tudo repetido de faz tempo.

abs
Comentário de: Joel [Visitante]
03.06.09 @ 04:13
"Sociedade esculhamba" ???!!!!!!
Tomare que você não volte para o Brasil e continue na Sociedade Perfeita ai.
Comentário de: Andrea [Visitante]
03.06.09 @ 05:44
Oi Antônio,

Concordo com a sua abordagem e você tocou no calcanhar de aquiles da nossa sociedade: a falta de regras. E por que ela assim se apresenta? Uma boa resposta está no comentário do Flávio Ribeiro: sem educação básica, a população desconhece e/ ou desrespeita as regras de civilidade. Estas que muitas vezes confrontam com o lado mais primitivo do ser humano e que nos fazem rir nestes citcons! Sem educação, também não há a como apreciar um humor mais inteligente.

Falando nisso, um ótimo e antigo sitcom inglês: "Kepping Up Appearences" com a Patricia Routledge.

Um abraço,
Comentário de: Elcio [Visitante] · http://estilingada.com
03.06.09 @ 06:32
Concordo com o Roberto Dois. Temos vários progrmas que se assemelham aos Sitcons, embora a aceitação do público nosso seja mais para "soap opera" (novelas). E vou mais longe: "A Grande Família" é uma sitcon, sim. E tem o mesmo formato desde os anos 70, quando era ainda melhor do que é hoje
Comentário de: Marcos [Visitante] · http://www.pensandomarketing.com
03.06.09 @ 07:39
O Brasil não tem bons roteiristas, ponto final. É só apelação, no humor e nas péssimas novelas.
Nada como um CSI, um House, um Desperate Housewives, que são bem escritos, produzidos e interpretados.
A TV daqui é um LIXO.
Comentário de: walter anesio [Visitante] · http://www.graficodiario.com.br
03.06.09 @ 08:59
O Brasil sempre tentou fazer sitcom. Falta o que tem muito nos EUA: gente respeitada que escreve os textos. Aqui no Brasil o roteiro das histórias parece um frankenstein.
O Ronald Golias fazia algum tipo de sitcom, desde a família trapo, e sempre usou (como texto) um leque de piadas antigas coladas, engraçadas mas numa sequência vasqueira que ninguém entende onde queriam chegar.
O Tom cavalcanti tenta fazer, mas o roteiro parece um colcha de retalhos de piadas e trejeitos sem graça.
é isso aí.
Comentário de: Rodrigo L [Visitante]
03.06.09 @ 09:11
Uma dúvida:

O SAI DE BAIXO, A GRANDE FAMILIA, TOMA LA DA CA, OS NORMAIS entre outros, não eram SITCONS?
Comentário de: Cláudia [Visitante]
05.06.09 @ 14:20
É realmente impressionante o nível de regramento social dos EUA. Até o "date" é previamente estabelecido o que, convenhamos, tira muito a graça da coisa. Mas também não me atreverei a encarar uma discussão espontaneidade x planejamento - discutir um assunto desses seria muito anti-espontâneo para o meu gosto.
Comentário de: Aurelio [Visitante]
07.06.09 @ 14:18
Grato,

Respendeu minha mesma pergunta sobre este tema.
Comentário de: Fernando Stickel [Visitante] · http://www.stickel.com.br/atc
08.06.09 @ 11:47
Now, Corey, do not forget to bring the fucking cake!!!!!!
Comentário de: ju saad [Visitante] · http://www.umbrais.blogspot.com
09.06.09 @ 00:58
ai, antonio, que dificil. nao vou mais te ler de madrugada. mas entendi. e concordei. de qualquer forma, nada importa, só me importa saber de las vegas. já foi? já foi? hahaha beijo.
Comentário de: Gabriela [Visitante]
11.06.09 @ 12:55
Antônio,

REGRA é chata!

Prefiro o improviso,o ar sem graça diante do que fazer....

Deixe seu comentário:

Serão rejeitadas mensagens que desrespeitem a lei, apresentem linguagem ou material obsceno ou ofensivo, sejam de origem duvidosa, tenham finalidade comercial ou não se enquadrem no contexto do blog.

Seu endereço de email não será exibido nesse site.

Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>

authimage

Opções: (Quebras de linha se tornam <br />)
(Configura cookies para o nome, email & url)

 

Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica uma segunda sim uma segunda não na última página do caderno Metrópole





Todas as Palavras
Qualquer Palavra
Toda a frase