BLOGS

23.12.08

por Antonio Prata, Seção: Crônica do Metrópole 03:04:30.

Dizem que num dos pergaminhos do Mar Morto, escrito em aramaico no século II A.C. e só recentemente decifrado, encontraram um versículo perdido do Gênesis. Depois de expulsar Adão e Eva do paraíso e condená-los aos castigos já conhecidos, Deus teria acrescentado: “E mais! Ireis para a cama dispostos, mas acordareis um caco” – numa livre tradução.

Não sei quanto a Adão, Eva e você, leitor, mas em mim a pena ainda vigora, forte como nos tempos pré-diluvianos. Um minuto antes de deitar-me tenho ganas de ler toda a obra de Machado, pegar a Sessão Corujão do comecinho, arrumar a gaveta onde cartas da primeira namorada misturam-se às últimas declarações do imposto de renda. Já ao abrir os olhos pela manhã, tudo o que eu queria era poder dormir de novo, para sempre. Depois de atravessar esse lusco-fusco existencial em que a vida, pendurada nas pálpebras, faz todos os projetos parecerem impossíveis, ganhar o pão com o suor do próprio rosto é fichinha.

Assombra-me que o direito ao sono não tenha surgido na pauta de nenhuma vanguarda do século XX. Liberaram o sexo, acusaram a família, o Estado, a Igreja; queimaram fumo, a bandeira americana, sutiãs: por que raios não foram às praças pisotear despertadores? Por que os mesmos que conseguiram fazer “samba e amor até mais tarde” não tiveram coragem de dormir mais um pouquinho, evitando “muito sono de manhã”? (Alarme, do italiano, às armas! Pode haver etimologia mais nefasta para trazer-nos dos sonhos à labuta?).

O honrado leitor, que acorda com os galos ou as primeiras buzinas, talvez ache o assunto por demais comezinho para uma passeata. Não deve ter compreendido, ainda, as repercussões políticas da auto-gestão do sono. Se cada um acordasse quando quisesse as pessoas sairiam de casa aos poucos, não haveria rush, o transporte público daria conta do recado, as emissões de carbono despencariam, a Islândia pararia de derreter, a Björk estaria salva, assim como os ursos polares, Ilhabela, o futevôlei, Veneza, os pingüins e Ubatuba, sem contar que teríamos tempo para ler, ver TV, arrumar a gaveta, fazer samba e amor até mais tarde e não ter muito sono de manhã.

Embora o tema seja urgente, não o vi ser discutido em nenhum debate pelos candidatos que hoje disputam nosso voto. Sequer um nanico ou aspirante a vereador, desses que encampam as bandeiras mais disparatadas, levantou a voz (abaixou, talvez, seja o termo correto) para defender o sono de 10 milhões de habitantes.

Podem alegar que, dada a grandeza do problema, não caiba ao município resolvê-lo, mas ao governo federal ou talvez à ONU. De acordo, mas em algum lugar a revolução tem que começar. Ou nos levantamos imediatamente pela auto-gestão de nosso sono, ou daqui a pouco a água estará batendo em nossas olheiras. Ou vice-versa. Às armas!

 

Link permanente Permalink 2 comentários

Comentários:

Comentário de: Ana Paula [Visitante]
06.01.09 @ 17:22
Faço parte da grande trupe que destila seus devaneios existenciais e tenta não desperdiçar a noite que passa tão depressa e que, no dia seguinte, lamenta fazer parte do proletáriado meio intelectual e meio de esquerda que não se pode dar ao luxo de mandar seu chefe capitalista às favas e simplesmente dizer NÃO ao rush matutino.
De todo modo, penso que uma das vantagens é poder, quando os problemas no trabalho permitem, chegar cedo em casa (de preferência, antes do Jornal Nacional) e decidir, sossegadamente, como serão destilados os minutos de mais uma noite preguiçosa e deveras existencialista que começa novamente.
Parabéns pelas crônicas! Um abraço,
Comentário de: maluco [Visitante]
13.01.09 @ 15:56
se tiver que ir as armas, irei junto !

Deixe seu comentário:

Serão rejeitadas mensagens que desrespeitem a lei, apresentem linguagem ou material obsceno ou ofensivo, sejam de origem duvidosa, tenham finalidade comercial ou não se enquadrem no contexto do blog.

Seu endereço de email não será exibido nesse site.

Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>

authimage

Opções: (Quebras de linha se tornam <br />)
(Configura cookies para o nome, email & url)

 

Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica uma segunda sim uma segunda não na última página do caderno Metrópole





Todas as Palavras
Qualquer Palavra
Toda a frase