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23.12.08
Para nossa sorte, o Museu da Língua Portuguesa não aceitava cartão nem cheque e o caixa automático mais perto ficava do outro lado do Parque da Luz. Quando digo sorte, não ponho nem uma gota de ironia.
Pertenço à primeira geração privatizada do Brasil. Na infância, ainda aproveitei aquele antigo espaço público chamado rua. Cresci numa vila, gritando um-dois-três-Antonio-salvo embaixo de goiabeiras e chapéus de sol, desenterrando moedas do vão entre os paralelepípedos, com interesse arqueológico e acreditando que o mundo era um lugar assim, por onde a gente podia correr, gritar e cavucar sem maiores problemas.
Quando cheguei à adolescência, contudo, a violência - ou o medo da violência, que não deixa de ser, também, uma violência – já havia transformado a rua em mera passagem entre um lugar e outro. Adolesci em casas, escolas, shoppings, restaurantes, cinemas e outras instituições intra-muros, num pedaço da cidade que raramente excedia os limites da Zona Oeste. De modo que, aos 30 anos, vergonhosamente, não conhecia o Parque da Luz.
No portão, uma senhora vendia maçãs do amor, ao lado de dois repentistas cantando uma embolada. Um boliviano de calça camuflada, chapéu de cowboy e barrigão para fora da camisa passou por nós fumando um charuto e cantando um rap em castelhano. Lá dentro, crianças brincavam no tanque de areia e corriam entre enormes esculturas de metal. A dois metros do tanquinho, senhoras de programa exibiam um despudor cheio de pudores – um discreto exagero no batom e nos decotes insinuava que não estavam ali a passeio.
Tímidos, garotos e garotas exalando hormônios e desodorante faziam o footing na alameda central, como antigamente, com uma ingenuidade que combinava com o chafariz e os bancos de madeira, mas não com a cidade em torno das grades de ferro. Por toda parte, imigrantes falavam castelhano e pensei que já era hora de parar de comemorar a chegada dos japoneses e começar a entender a entrada dos bolivianos.
Tiramos dinheiro do outro lado do parque e refizemos o mesmo caminho, reparando nas esculturas, nos chapéus de cowboy, nos decotes e sotaques tão distintos que, reunidos pela curadoria do acaso, faziam daquele quadrilátero verde uma província cosmopolita, avesso de São Paulo e, ao mesmo tempo, a sua cara. Pagamos o museu com uma nota de cinqüenta. Uma pena que o moço tivesse troco.
Comentários:
Comentário de: Andréa Cerqueira [Visitante]
23.12.08 @ 16:04Me fez recordar minha infância no Jd. Edda, próx. a Vila São José (região de Sto. Amaro), qdo ainda podia ouvir o zunido q vinha do autódromo de Interlagos nos domingos de provas e na mais esperada delas, a F-1. Rua que quando foi asfaltada, recebeu o nosso 1º campeonato de carrinhos de rolimã, construídos antes mesmo das máquinas terminarem de alisar aquele massa negra q fazia subir a adrenalina dos meninos (e de nós, meninas), imaginando quem seriam os 1ºs campeões. Pelo medo da violência, meu pai aceitou um emprego no interior e deixamos o Jd. Edda qdo eu só estava iniciando a adolescência. Mas daqui do interior pulsa a saudade da grande metrópole e as minhas idas p/ "Sampa", principalmente nas férias, são sempre para garantir as visitas à Pinacoteca, Museu da Língua Portuguesa, o Parque e a Estação da Luz, entre outros lugares incríveis assim. E a tarefa de sempre é "arrastar" algum de meus primos ou amigos paulistanos que, perdidos no tempo (no trânsito?) não conheçam ou não visitam há anos tais refúgios.
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Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica uma segunda sim uma segunda não na última página do caderno Metrópole
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