BLOGS

23.12.08

por Antonio Prata, Seção: Geral 02:21:10.

Nós somos ricos?, perguntei à minha mãe, aos cinco anos. Eu achava que sim. Afinal, para mim, os pobres eram aquelas pessoas que eu via com uma prematura angústia, através do vidro de nosso Passat verde musgo, na pequena favela da Juscelino Kubitschek, perto de casa. Minha mãe disse que não éramos ricos nem pobres, éramos de classe média.

Achei o termo meio nebuloso e confesso que só fui entendê-lo realmente, em suas profundas implicações sócio-econômico-culturais, na última terça, durante o banho, quando o vizinho de cima deu a descarga e a minha água pelou. Eu gritei um palavrão, abri mais a torneira e, enquanto as costas voltavam a uma temperatura suportável, pensei: ah, então é isso.

Ser de classe média significa ter uma proximidade compulsória com os outros e, consequentemente, estar em constante negociação com o mundo. Afinal, você não está entre a minoria que faz as regras, nem junto à massa que apenas as seguem. Eu não imagino, por exemplo, o Antonio Ermírio numa reunião de condomínio, secando o rosto com um lenço e dizendo, exaltado: “nem vem, Dona Arminda, a vaga do 701 já tava prometida pra mim faz tempo, a senhora devia era cuidar do Arthur que faz um escarcéu com o patinete no playground bem depois das dez”.

Depois que minhas costas pelaram, comecei a me ver classe média a toda hora. Restaurante por quilo, por exemplo. Tem coisa mais classe média? Tudo bem, posso dizer que sou de uma classe média intelectualizada – o que significa que não ponho feijoada e sushi no mesmo prato --, mas seria ridículo negar minhas origens, na fila, diante de uma cestinha contendo “palha italiana” e ouvindo o mantra diário do capitalismo nosso de cada dia: “crédito ou débito?”

Rico não come em quilo nem morto. Ou você consegue imaginar, digamos, Paulo Skaff botando aquele tempero pronto para salada nuns ovinhos de codorna, enquanto aguarda um bigodudo gordo liberar o réchaud de croquetes?

Se um dia tiver de responder a um filho a pergunta que fiz à minha mãe, darei a explicação que ouvi de um comediante americano na televisão: “se no trabalho seu nome está escrito na roupa, você é pobre. Se o nome está escrito na mesa, você é de classe média. E se estiver escrito no prédio, você é rico”. Mas isso é coisa para me preocupar daqui a muitos anos. Urgente mesmo é, na próxima reunião de condomínio, colocar na pauta a questão da descarga do 204. 100% classe média.

 

Link permanente Permalink Deixe seu comentário

Comentários:

Sem Comentários para esse post ainda...

Deixe seu comentário:

Serão rejeitadas mensagens que desrespeitem a lei, apresentem linguagem ou material obsceno ou ofensivo, sejam de origem duvidosa, tenham finalidade comercial ou não se enquadrem no contexto do blog.

Seu endereço de email não será exibido nesse site.

Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>

authimage

Opções: (Quebras de linha se tornam <br />)
(Configura cookies para o nome, email & url)

 

Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica uma segunda sim uma segunda não na última página do caderno Metrópole





Todas as Palavras
Qualquer Palavra
Toda a frase