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11.11.09
O leitor Eurípedes Paranhos, do Jardim Áustria, São Paulo, pede-me que publique sua carta. Como acredito que esse blog deve ser um espaço de pluralismo e tolerância, aqui vai ela. Cortei apenas palavras de baixo calão e os trechos que incitavam mais diretamente ao apedrejamento de adúlteras e a extirpação de clitóris. O resto, vai como recebi.
A carta chegou anteontem, antes que os jornais publicassem o recuo da UNIBAN da decisão de expulsar a aluna e antes que se soubesse que o Suplicy iria dar uma palestra na supracitada universidade. O leitor Eurípedes deve estar contrariado com os últimos ocorridos. Caso me escreva novamente, prometo publicar aqui suas opiniões.
"O senhor e a senhora, que pagam seus impostos e rezam suas Ave Marias, que estão em dia com o fisco, com Deus e com vossas consciências, devem ter ficado tão estarrecidos quanto eu, diante do caso ocorrido na UNIBAN. Por isso venho a público, prestar meu apoio àquela nobre instituição de ensino, vítima de um linchamento covarde, acuada numa sala de aula por mais de seiscentos jornais, revistas e canais de televisão que, brandindo gravadores, câmeras e celulares, ameaçam violentar o que ela tem de mais sagrado: sua reputação.
Eu já nutria simpatia pela UNIBAN mesmo antes do caso da garota Geisy, quando pouco sabia sobre a universidade. É que gosto de tudo o que acaba em BAN. O Taleban, por exemplo. Comete certos excessos? Sim, comete, mas não se pode negar que acabou com a pornografia, a televisão, o batom, o comunismo e o chiclete, lá no Paquistão. A OBAN: torturava? Torturava. Mas se não fossem eles, queria ver que que os baderneiros tinham feito desse país. Por último, o Bambam, aquele garotinho dos Flintstons, que se veste com pele de leopardo e anda com uma clava, treinando desde cedo para tratar as mulheres como merecem.
E como merece ser tratada a mocinha que vai à universidade com um vestido um palmo abaixo das nádegas?! Ora! Alguém que sobe as rampas mostrando as coxas aos alunos de engenharia quer o que? Quer dar! Quer dar! Onde já se viu, meu senhor, minha senhora?! Um mundo onde as mulheres saem por aí exibindo seus desejos não tardará em se transformar num mundo em que homossexuais do mesmo sexo poderão casar e adotar crianças! Em que a maconha será discriminada! Em que Deus, a Família e a Tradição evaporarão como água na panela.
Alguém tinha que tomar uma atitude, e a UNIBAN tomou, o que não deixa de ser um alívio, num momento crítico de nosso país, quando um nordestino analfabeto e cafona está na presidência da república e corremos o risco de ter uma bugra, ex-empregada doméstica, subindo a rampa do Alvorada - justo nesta hora em que todos os olhos do mundo estão sobre nós, por conta da Copa e das Olimpíadas!
Ainda bem que existem instituições sérias como a UNIBAN, que, como boa universidade, sabe que há o certo, o errado e que isso não se discute. Sabe que cada coisa tem que ser feita em seu devido lugar, e faculdade é lugar de ler, de escrever e, no máximo, acuar uma garota de vinte anos numa sala e ameaçar estuprá-la.
Não que eu concorde que essa tenha sido a melhor saída para ensinar a Geisy a respeitar os bons costumes, mas, veja bem, os jovens cometem seus excessos. Eu, por exemplo, quando tinha meus dezoito anos, ia na avenida do jóquei dar tiro de paintball e jogar ovo podre em travestis. Mas era na avenida do jóquei, não na faculdade, e eles eram travestis, não gente normal, de modo que nem sei porque estou contando isso.
Enfim, vai aqui minha solidariedade à UNIBAN. E saibam todos os que lerem esta carta que o dia em que não houver mais pessoas ou organizações idôneas lutando pela moral e os bons costumes, não hesitarei em tomar as ruas, brandindo minha clava, meu celular ou minha espingarda de paintball, que deve estar em algum lugar, no socavão, atrás das revistas pornográficas e das luzinhas de natal.
Grande abraço,
E. Paranhos"
18.08.09
(Esse texto, publicado na revista Espresso, foi a origem de outro texto, postado mais abaixo, o PROCON divino)
Poucas coisas, nessa vida, me entristecem mais do que deparar-me com uma mostarda vagabunda. Num boteco, numa padaria, numa parada rodoviária, num bar ajeitadinho, até, eu aperto a bisnaga amarela, vejo escorrer a gosma insossa e, com ela, vai minha fé na humanidade.
Eu fico cá a pensar: por que, oh Deus, alguém se dedica a fabricar uma mostarda vagabunda? Sim, pois a mostarda vem de uma fábrica, a fábrica tem um dono e houve um momento na vida desse sujeito em que ele decidiu que o que queria fazer nessa curta passagem sobre a Terra era uma mostarda de quinta. Oito horas por dia, cinco dias por semana ele acorda, se levanta, pega trânsito, briga com fornecedores, contrata, demite, tem pesadelos com planilhas, sofre com a crise, força esferográficas secas sobre folhas de papel e tudo isso para ver, no fim das contas, um trabalho mal feito?!
Já tentei acreditar, com otimismo, que ele não sabia que seu produto era ruim, mas não consegui convencer-me. Mostarda não é vinho, não é uma sinfonia, não é um salto duplo twist carpado, é um condimento simples: sementes, vinagre, especiarias. Se o dono da fábrica quisesse, a faria bem feita. Por que, então, ele não quer?
Ainda batalhando para manter meu otimismo no ser humano, pensei: ele faz um condimento vagabundo para que seja barato e assim os pobres, que não poderiam nunca comer mostarda de primeira, possam deleitar-se com o molho. A mostarda vagabunda seria, portanto, a vertente gastronômica da distribuição de renda.
Não! Quem come comida ruim não está sendo incluído no topo da pirâmide gustativa, está sendo enganado. Pelo preço da mostarda vagabunda o cidadão pode comprar vários caquis, não um caqui de quinta, mas o melhor caqui do mercado, o mesmo que o Obama ou a Rainha Silvia da Suécia comprariam, caso tivessem vontade de comer caquis. Se eu não tenho dinheiro para comer ovas de esturjão, não vou comer ovas de bagre, vou comer um espetinho de queijo coalho, ou tomate com azeite e manjericão, ou caquis, que são frutas maravilhosas, oras bolas.
A única conclusão é que o dono da fábrica está lucrando sobre a ignorância alheia. Está vendendo gato por lebre. Queria mandar uma carta para ele, tentando convence-lo de que, no desempenho de suas funções, faz do mundo um lugar pior, mas acho que não adiantaria. Ele a leria às gargalhadas, depois a queimaria com a brasa de seu charuto, escondido no bunker subterrâneo do Coringa, ao lado dos fabricantes de papel higiênico rosa, dos azeites misturados com óleo de milho, das roupas que se desfazem, das tesouras sem fio, dos hidratantes que melecam, dos liquidificadores que não liquidificam e soltam fumaça, dos chuveiros elétricos que prometem pressão e água quente mas só fazem pressão sem água quente e, evidentemente, ao lado dos fabricantes de margarina. Que tristeza, como deve ser grande esse bunker subterrâneo...
10.07.09
publicada na revista Espresso
“Obrigado”, eu digo, recusando a xícara e, um pouco mais baixo, para evitar que a informação escape para além da minha mesa, alargando o diâmetro de minha infâmia, confesso: “eu não bebo café”.
O nobre leitor (ou leitora) que, como 99% das pessoas civilizadas, creio, gasta um bom quinhão de seus momentos sobre a Terra diante de uma xícara de café, não imagina a miríade de olhares que caem sobre mim, assim que assumo o meu, digamos, desvio. Vejo, por trás das pupilas dilatadas pelo susto, sentimentos tão vastos como a raiva e a compaixão, todos oriundos, acredito, da mais profunda incompreensão. “Como pode uma pessoa alfabetizada, de boa família, não tomar café?!”, pensam, entre um golinho e outro,sem chegar a nenhuma resposta.
Nós, os não bebedores de café, somos a escória da restrição alimentaria. Você pode não comer carne vermelha, não apreciar bebidas alcoólicas, pode até ser contra o açúcar refinado ou refrigerantes e, oferecendo explicações muito nobres, que vão do efeito-estufa à evolução de nossos sistema digestivo, ser perfeitamente aceito dentro da chamada “diversidade cultural”, mas àqueles que recusam uma xícara de café não existe tal benevolência, pois acreditam, os connoisseurs dos grãs torrados, que não se trata de gosto ou opção, mas de ignorância.
Tenho amigos do peito que, toda vez que saímos para jantar, insistem para que eu dê mais uma chance ao expresso ou capuccino de tal lugar. Não é que não gostemos, eles pensam, é que “não entendemos o café”. E, ah!, meus caros, como eu gostaria de compreendê-lo! Como eu adoraria passar tardes numas dessas mesas na calçada, tomando uma xícara, fazendo anotações num bloquinho, ou lendo um jornal, com a elegância de um filósofo francês. Eu concordo com meus acusadores. Vocês estão certos! Que literatura pode surgir diante de uma lata de Coca-light? Que lirismo existe na imagem de um homem tomando H2O, às três da tarde de uma terça-feira, no balcão da padaria? Que Simone de Beauvoir ou Maria Schneider pendurará sua capa de chuva na cadeira e estenderá um sorriso molhado a um sujeito que bebe uma Fanta-Uva? Light, ainda por cima.
Estou pensando em mudar de estratégia. Da próxima vez que recusar uma xícara e enfrentar a incompreensão da sociedade, vou dizer, sem pestanejar: “adoro café, mas fiz promessa. Só volto a beber no dia em que o Sarney não madar mais nesse país.” Como sabem os que bebem e não bebem café, não terei que aceitar a xicrinha tão cedo.
03.06.09
Espremidos na mesinha, os heróis americanos fingem não perceber o tsunami de mangás japoneses prestes a arrebentar, ao fundo, na livraria Barnes & Noble.
Em espanhol, Budweiser, "the great american lager", comprada pela brasileira Ambev, tenta convencer os incautos de que nada está acontecendo...
27.05.09
O bilhete está pregado na parede da classe, ao lado da lousa, embaixo de umas caricaturas feitas pelos alunos e do mapa do Iran, país que estão estudando em geografia: “Eu, Robyn Scarchilli, prometo solenemente não mandar mais mensagens de texto durante as aulas da bela Mrs. Mittenberg”. Robyn Scarchilli é uma baixinha ruiva e simpática que, apesar de ter sido pega usando o do celular durante as aulas, está concorrendo à presidente do grêmio na eleição de hoje. Seu slogan, “Don’t be silly, vote for Scharchilli!”, pode ser lido nas cartolinas espalhadas pelos corredores da escola Roy C. Ketchan, Poughkeepsie, onde passei toda a manhã assistindo às aulas de história da bela Mrs. Mittenberg -- minha irmã, Julia.
Uma das coisas boas de visitar os Estados Unidos é que você não se frustra: se há alguma surpresa não é por eles serem diferentes do que você esperava, mas pelo contrário, por serem mais do jeito que você esperava do que você esperava. Imagine o paradigma de uma high school: os lockers no corredor cheio de alunos, a cheer leader loira que namora o capitão do time de futebol, o nerd de óculos, cheio de espinhas, que tira as melhores notas e quase tropeça nos próprios pés, a cantina lotada de garotos e garotas bebendo leite de caixinha, o cara que puxa o boné do outro para trás e grita “loooooooooser!”; estavam todos lá, do jeitinho que eu aprendi nos filmes e nos seriados. (As duas loiras cheer leaders da classe chamavam-se Nicole e... Nicole). Só não encontrei o Marty Macfly (De volta para o futuro) porque ele está viajando no tempo, nem Ferris Buller (Curtindo a vida adoidado) porque justo hoje, vejam só, ele cabulou.
Confesso que cheguei à escola receoso. A adolescência não é uma doença da qual nos curamos por completo. Em alguma ranhura de nossos tijolos os vírus ficam dormindo e de vez em quando eles acordam, trazendo velhos anseios à tona. Quem foi nerd, mesmo que tenha tido alta, feito proezas como perder a virgindade e consiga até parecer uma pessoa normal, em público, nunca acha que está totalmente a salvo de ser descoberto e, quem sabe, tornar-se alvo de bolas de papel, ter o boné arrancado da cabeça (mesmo sem usar boné desde 1993) ou ser colocado sentado em cima do lixinho. (Nunca me aconteceu, mas já vi em algum seriado). O pessoal da Roy C. Ketchan, felizmente, era gente fina, e apenas me olhou de canto de olho, curioso, enquanto eu assistia às aulas sentado num canto.
Para entrar na escola, me deram um adesivo com meu nome e a data de hoje; um “Visitor’s Pass” que eu devia colar num lugar visível e não tirar em hipótese alguma. Se um estranho é visto pelos corredores sem identificação, alguém pode se assustar e dar o alerta: “stranger, danger! Lockdown!”. Os professores, então, devem trancar as portas das classes, apagar as luzes e fazer com que todos os alunos deitem-se no chão, longe das portas. Situações como a de Columbine ainda deixam todos assustados. Uma vez que você tem o adesivo no peito, contudo, professores e alunos são todos sorrisos. Devo ter ouvido “nice to meet you!” e “are you enjoying it here?” umas vinte e duas vezes.
Pelos corredores, os nomes dos candidatos escritos nas cartolinas davam uma boa idéia de quem são os Estados Unidos que elegeram Obama, e como foram cegos os republicanos ao apostar que “the good old white America” elegeria MacCain. Kevin de la Rosa. Michael Uloo. Jenifer Hernández. Jenny Chen. Patricia Wee. John Kazaburo. Adam Saad. Manaf Manam. Apenas um terço dos alunos, ns cinco aulas que assisti, passaria num teste para fazer figuração numa propaganda de natal do shopping Iguatemi. Havia muitos negros e mulatos, muitos latinos, orientais, um ou outro árabe ou indiano. Dentro da sala 129 da RCK, pelo menos, os EUA não me pareceram aquele horror de frieza e segregação de que nós costumamos acusá-los. Muito pelo contrário. Vi uma orquestra de mais de vinte pessoas ensaiar um jazz na sala de música. Caminhei pelo palco do teatro – aquele palco em que as crianças apresentam peças de fim de ano, fantasiadas de árvore ou flor, nos filmes --, vi os jogadores de futebol americano correrem em volta do campo, vestidos de vermelho, os jogadores de baseball lançarem e apanharem bolas, logo ao lado, vi casais se beijando pelos corredores e depois disso tudo confesso que, mesmo fazendo um esforço para enxergar o Elefant, o Juventude Transviada ou Beleza Americana por trás da superfície de Grease ou Anos Incríveis, continuei com uma ótima impressão. Os tacos de baseball, a lousa digital que abria e fechava programas de computador ao toque da Julia, o fagote, os trumpetes e os tímpanos da orquestra, a pesada cortina de veludo do teatro, tudo aquilo é público, pago pelo dinheiro do contribuinte e está disponível para qualquer americano.
Numa das aulas, Julia me mostrou dois alunos. Os pais do primeiro, um loiro de cabelo quase branco, escorrido sobre os olhos, são viciados em cristal meth (pílulas caseiras de meta anfetamina) e perderam todos os dentes - tragédia total. Os pais do outro, que eu não soube decifrar se era descendente de índios americanos, de chineses ou mexicanos, são professores em Vassar, a bela faculdade aqui ao lado onde - como lembrou-me a leitora Dorina -, estudou a poeta Elizabeth Bishop. Os dois garotos estavam ali, lado a lado, recebendo do Estado - e da bela Mrs. Mittenberg - a informação de que os Fenícios inventaram o vidro, o império Gupta criou o zero, que ao movimento no qual estavam inseridos Galileu e Leonardo da Vinci deu-se o nome de humanismo e a abertura que acarretou no desmantelamento da URSS chamaram de Perestroika.
Julia (Mittenberg é seu nome de casada) tentou minar meu otimismo, dizendo que os filhos de famílias ricas e cultas costumam ir muito melhor do que os de pais que não lêem nada nem incentivam os estudos dos filhos. Beleza, é mesmo difícil preocupar-se com que porra fizeram os Fenícios sei lá quantos séculos antes de Cristo quando seus pais banguelas não dormem desde domingo, mas entre os progenitores junkies e os catedráticos de Vassar há uma massa volumosa feita de Ferris Bullers, Martys McFlies, Kevin Arnolds e Robyns Scarchillis que terão a chance de chegar aos dezoito podendo escolher se querem tocar fagote, bater bolas com um taco ou estudar a fundo o comércio mediterrâneo na antiguidade. Convenhamos, é de se tirar o chapéu.
25.05.09
A primeira impressão é a que fica – para trás. O que não significa que devemos evitar as conclusões apressadas: elas podem não dizer nada sobre o objeto observado, mas talvez ajudem a compreendermos nosso olhar. Não sei bem onde quero chegar com esse raciocínio - talvez seja só consequência das horas mal dormidas de viagem... Enfim, vamos a elas, as primeiras impressões.
Da porta do avião até a estrada para Poughkeepsie, travei contato com quatro pessoas: nenhuma delas era americana. O guarda da imigração tinha sotaque indiano. A moça que organizava a fila puxava pro hispânico. Um policial pediu à moça ao meu lado “los documentos de ellas” e o moço que cuidava da cancela do estacionamento desejou-nos um bom dia com seu inglês vindo de algum CCAA para lá de Bagdá.
Dick Cheney e seus amigos realmente têm razões para ficar desesperados. Que peguem em armas, que façam milícias de fronteiras, Texas Rangers, Vigilantes: nós vamo invadir sua praia!
Do aeroporto JFK até a pacata Poughkeepsie é uma hora e meia de carro por bosques e florestas. Acho que nunca usei essa palavra, "pacata", mas se não for para falar de uma cidadezinha arborizada, onde patos passeiam com seus patinhos num lago e perus selvagens bicam pelo acostamento, então quando?
Um dos maiores perigos para o viajante ávido por compreensão é sair velejando nas tentadoras águas do determinismo geográfico. Dizer que o sertanejo é forte como o cacto e o esquimó é frio como a neve e a mulata é quente como o meio-dia em Copacabana é a forma mais fácil de falar bobagem. Mas, diabos, como não se deslumbrar com a simples organização de um bosque ao norte de NY e não achar que aquilo ali tem a ver com A Democracia na América? Como não acreditar que, nos Estados Unidos, cada árvore tem direito à sua existência enquanto indivíduo e que se o álamo ao lado meter seus galhos no carvalho ali de trás, poderá ser processado pela comissão de bosques do condado? É tudo tão organizado. Parecem florestas planejadas. Bonitas, bucólicas, tão diferentes daquela confusão apaixonada da Mata Atlântica onde você não sabe onde termina a trepadeira e começa o mangue, e o público, o privado, as ervas daninhas e os manacás se entrelaçam numa carnuda conurbação.
* * *
Para quem cresceu no terceiro mundo, nas décadas de oitenta e noventa, viajar pelos Estados Unidos é uma espécie de déja vu. É como voltar para uma infância que vivemos por tabela. A paisagem da maioria de nossos filmes, programas de TV, livrinhos infantis, etc, etc, etc, é essa. Você olha pra fora da janela do carro e pensa “olha ali o bosque em que Eliot levou o ET. Olha ali a marmota do Bill Murray. Olha ali o capim de onde voavam os patos naquele jogo do Nintendo, Duck Hunt. Olha ali os patos do Duck Hunt!”
Dezenove milhões de horas de televisão ao longo da vida imprimem no cérebro do sujeito a sensação de que esse é o mundo real. E que esses postos de gasolina, essas highways, essas concessionárias que vendem carros com os preços pintados nos parabrisas sob bandeirolas de festa junina e esse texugo atravessando a estrada são os cenários e personagens do mundo real, e que nós, pobres cucarachas, vivemos numa cópia mal-feita da Matrix, com nossos Bob’s, Reedrags, Le Chevals e os gambás que mais parecem ratazanas. E aí você entende porque olha pela janela em São Paulo e vê, na varandica do apartamento no décimo andar do enorme prédio ao lado (um por andar, seis suítes, doze vagas na garagem) três pinheiros plantados no canteiro, tentando dublar nossa paisagem exuberante e subdesenvolvida. Jardins americanos: versão brasileira, Álamo!
Agora vou ao supermercado, com uma cópia de A democracia na América, de Tocqueville, debaixo do braço, ver quantos tipos de cereais matinais eles vendem lá e que lições podemos tirar a respeito. Hasta luego, hermanos.
28.04.09
Publicado na revista Runners, para a qual eu agora escrevo mensalmente, ajudando a piorar o IMC (índice de massa corporal) da redação...
Quem teve aulas de educação física antes da queda do muro de Berlim certamente se lembra de fazer polichinelos. O mundo era mesmo outro: davam-se ovos às crianças, fumava-se dentro dos ônibus, ninguém usava protetor solar e, antes do futebol, do vôlei ou do basquete, ficávamos dando aqueles pulos ridículos, abrindo e fechando braços e pernas no ar, como se estivéssemos num porto a nos despedir de parentes num navio distante.
É de se imaginar que alguém dessa geração, que cresceu praticando formas medievais de aquecimento (imagina só o que aqueles pulos de pernas abertas e esticadas não eram para as articulações dos joelhos e tornozelos?!) só podia olhar com desconfiança para um medidor de freqüência cardíaca. Eu achava que era muita frescura ter que consultar um relógio para descobrir se estava cansado, coisa de gente neurótica, que analisava a tabela nutricional antes de comprar um pote de iogurte.
Acontece que quem teve aulas de educação física antes da queda do muro de Berlim já não é mais uma criança, e uma das vantagens da maturidade é que ficamos mais tolerantes com nós mesmos, admitimos algumas frescuras e aceitarmos nossas neuroses, de modo que, não muito tempo depois de começar a analisar a tabela nutricional dos potes de iogurte, comprei um Polar pela internet.
Não sou o tipo de pessoa que lê manuais de instrução, mas em bula de remédio vou até o fim (pulo só “gravidez e lactação”), e o manual do Polar é um meio termo entre os dois gêneros literários. O medidor de frequência é uma espécie de videogame de nós mesmos, um joguinho com nosso corpo, no qual temos apenas uma vida para gastar e, portanto, não é bom vacilar.
Programei-o com esmero. Pus ali idade, altura, peso. Resisti à tentação de me dar uns dois centímetros a mais, ou uns três quilos a menos – mentir para o próprio Polar é o cúmulo da mitomania - e, depois de alguns minutos, apertei o botão maior, esperando para ver o que ele fazia com meus dados.
Comecei a correr aos vinte anos, quando parei de fumar e passei a comer bolo de rolo de doce de leite com Häagen Daaz de doce de leite e, por cima de tudo, doce de leite. Não corro muito, umas três vezes por semana, quarenta minutos, uma hora. Meu máximo foi uma São Silvestre -
- coisa que não causa grande efeito entre os entendidos, mas me rende algum prestígio em festas e bares da Vila Madalena. Tendo passado de sedentário à corredor, contudo, sinto-me um grande atleta. Ou sentia-me, antes do Polar...
A tela piscou e começou a surgir uma palavra, da esquerda para a direita. Fiquei excitado. Não era só o diagnóstico do computador sobre minha forma física, mas a primeira comunicação daquele ser que eu acabara de ensinar a falar, e que a partir de então iria comigo de cima para baixo, amarrado ao peito e ao punho. E o que foi que ele disse, o ingrato? “Overweight... Overwieght... Overweight...”. Gordo! Gordo! Gordo!, era o que passava na telinha.
Tá certo, tá certo. Não adianta querer se enganar. Pelo menos, não com um Polar no pulso. O jeito é correr mais e comer menos. Agora que escrevo para a Runners, tenho não só uma desculpa, mas a obrigação de fazer com que esse medidor de frequência engula seus impropérios. Ele vai ver só. Essa barriga ainda vai ser coisa do passado, assim como os cigarros, os ovos, os polichinelos e o muro de Berlim.
21.04.09
(publicado na revista da marca Los Dos www.losdos.com.br)
Caro leitor, antes que eu continue, é preciso que façamos um trato. Você não mostrará essa crônica a mulher nenhuma. As coisas estão bem como estão e caso o presente texto caia em mãos erradas, estamos fritos. (Razão pela qual coloquei esse título, que não tem nada a ver com o assunto doravante tratado e visa exclusivamente a despistar o interesse feminino). Tudo certo? Então vamos lá.
As mulheres não são loucas. Nem imprevisíveis. Ou melhor, são sim, mas só na medida em que o ser humano é louco e imprevisível. Essas acusações são uma tática que criamos em séculos de hegemonia masculina para pôr fim às discussões antes que comece o jogo do Corinthians.
“Ela é maluca!”, dizia meu amigo, indignado. “Brigou comigo só porque eu fiquei no bar até quatro da manhã!”. Na boa, ela pode ser chata, mas não louca. Muitas mulheres são chatas. (Muitos homens também, mas isso é tema para outra crônica).
Quer coisa mais óbvia? Você fica no bar até tarde, ela briga. Mulheres são previsíveis. (Você fez uma promessa lá em cima, lembra?). Nós sabemos bem o que elas querem e sabemos melhor ainda o que não querem. Acontece que às vezes queremos o que elas não querem: ir ao estádio no dia do aniversário de namoro, ficar no bar até mais tarde, deixar um scrap engraçadinho no Orkut da ex-namorada. Aí elas brigam e nos saímos com essa: loucas!
Claro que, para que possamos acusá-las assim, na hora do vamos ver, é preciso mantê-las sob uma aura permanente de mistério. Quantas matérias em revistas ou programas de TV você já não viu com a pergunta: “o que as mulheres fazem juntas no banheiro?”. Me diga, companheiro, você realmente acha que elas façam qualquer coisa de extraordinário? Que arranquem as roupas e lambam-se famintas, em delirantes sabás sanitários? Que nada. Elas fazem xixi, retocam a maquiagem, falam mal da Ju, da Má, da Re, depois comentam que o Rô é gatinho, que o Fê tem mau hálito e voltam pra mesa, como se nada tivesse acontecido - o que faz todo sentido, uma vez que nada aconteceu.
Suspeito que haja ainda uma segunda razão para que as transformemos nessas figuras desequilibradas. É a nossa necessidade de fingir que temos algum equilíbrio. Que estamos no controle. Por isso penduramos quadros, arrumamos o porta malas com esmero, fingimos que sabemos exatamente onde estamos indo e não pedimos informação, jamais!, mesmo estando perdidos.
Mesmo assim, não nos iludimos. Por mais que nos esforcemos, sabemos que a vida continua sem sentido e que a gente não controla quase nada. Nem as mulheres, mas isso tudo bem, afinal elas são completamente loucas.
13.04.09
Explicação necessária
Numa noite quente de fevereiro, no final do segundo milênio, eu tive minha primeira aula na faculdade de Ciências Sociais, na PUC, em São Paulo. Éramos muitos na classe, uns quarenta, e apesar do pé direito alto, das belas janelas compridas que davam para o pátio, o calor incomodava bastante. Lá pelo terceiro dia de aula, Alice, uma garota gente fina, que havia estudado comigo no colégio Equipe, resolveu fazer um abaixo assinado pedindo para que instalassem ventiladores. (Como éramos felizes, no colegial, não havia problema do mundo que não julgássemos passível de ser resolvido com um abaixo assinado).
Fizemos ali, em cinco minutos, um textinho de um parágrafo explicando a situação - quarenta alunos, calor, ventiladores - e ela desceu, no intervalo, para digitá-lo e imprimi-lo no Centro Acadêmico. Voltou mais de uma hora depois, com os olhos arregalados e um texto de duas páginas nas mãos. Havia sido “ajudada” por um guerrilheiro maoísta do CA. O texto começava assim: “A educação no Brasil tem sofrido diversos ataques dos governos que aí estão. Exemplos disso não faltam. Somente no ano passado o governo Mario Covas demitiu 1700 professores, o que deixa claro o projeto de sucateamento da educação” e blablabla. Terminava, triunfalmente, da seguinte forma: “Diante das questões levantadas, exigimos, imediatamente:
A) A divisão da turma em duas classes.
B) Ventiladores”
Eu nem achei que fosse necessário entrar no mérito do texto,
ou mencionar que quem inicia numa negociação não deve chutar a porta exigindo algo, “imediatamente”. Apenas perguntei: “Alice, a divisão da turma em dois significa contratarem o dobro de professores! É uma reforma institucional! A gente só precisa de um Ventisilva preso à parede”. Alice, mais assustada que eu, disse: “eu sei, mas o cara do CA falou que a gente tem que apresentar uma alternativa à reitoria, senão eles não topam negociar”. Pensamos em colocar:
A) Um frigobar cheio de Boêmias e Chicabons.
B) Ventiladores
Infelizmente, não tivemos coragem. Jogamos fora aqueles papéis, alguém ficou de refazer nosso humilde parágrafo em casa e, poucos dias depois, chegaram os ventiladores.
Anos mais tarde, escrevi o texto abaixo para a revista da FAPESP, livremente baseado em fatos como o descrito acima.
O texto, enfim:
ATA 387
Aos três dias do mês de setembro de dois mil e seis, às vinte horas e trinta e dois minutos, na sala S-48, sede do Centro Acadêmico Dezoito Brumário, da Faculdade de Ciências Sociais, de acordo com o disposto no artigo 8º do estatuto do regimento interno do órgão supracitado, os membros se reuniram extraordinariamente com a seguinte pauta: decidir o destino das verbas angariadas no evento intitulado “Chopada dos Bichos”, no valor de mil e noventa e três reais e setenta e três centavos.
Compareceram o diretor geral do CA, Augusto de Oliveira (Cabeleira), o diretor administrativo Robson S. Torres (Rob Marley), o diretor de comunicação Felipe Cuglioni (Lipão) e a diretora financeira Olívia Ramos (Lilica). Marcos Azambuja (Bujones), diretor de programação, não apareceu para o início da reunião.
Havendo número regimental, o diretor geral Cabeleira iniciou os trabalhos apresentando aos demais presentes a lista de possíveis investimentos para a verba arrecadada, elaborada na última reunião ordinária, no último dia trinta, a saber: 1) Uma mesa de pebolim para o C.A. 2) Um novo computador para o C.A. 3) Reforma do sofá do C.A. O diretor geral Cabeleira propôs o voto direto para decidir-se a questão.
Neste ponto, o diretor administrativo Rob Marley pediu a palavra para um aparte. Aparte aceito, Rob Marley objetou que, não estando presente à reunião do dia trinta do mês último, quando foi elaborada a lista, não poderia reconhecê-la como legítima, sendo o pebolim, o computador e a reforma do sofá alternativas autoritariamente impostas de cima para baixo, reproduzindo o sistema opressor que eles mesmos diziam combater, qual seja: o oligopólio neoliberal escamoteado como democracia. A diretora financeira Lilica lembrou o diretor administrativo Rob Marley do regulamento seis, inciso quatro, do estatuto do Centro Acadêmico, que estabelecia que, mesmo na ausência de algum dos membros, havendo quorum de 75%, as votações eram válidas. Lembrou-o ainda que, quando da votação, o diretor administrativo havia sido visto saindo do almoxarifado com uma primeiranista de psicologia, atitude que, embora não condenada pelo estatuto do centro acadêmico, merecia no mínimo uma admoestação verbal. O diretor administrativo Rob Marley argumentou que não tinha vergonha de seus atos e que bastava ler Reich ou Marcuse para saber que a revolução decorrerá de ações como as por ele praticadas no almoxarifado, não da burocracia cinzenta das altas esferas do poder, sendo aplaudido entusiasticamente pelo diretor de comunicação Lipão. A diretora financeira Lilica ameaçou sair da sala, mas foi dissuadida pelo diretor geral Cabeleira, que insistiu na importância de sua presença, dada a natureza do tema serem exatamente as finanças.
Acalmados os ânimos, foi pedido ao diretor de comunicação Lipão que preparasse as cédulas. Neste ínterim, o diretor administrativo Rob Marley pediu a palavra e levantou a questão do efeito estufa, do aquecimento global e do degelo das calotas, propondo que, a longo prazo, o CA Dezoito Brumário se engajasse mais na questão ecológica. Sugeriu, porém, a curtíssimo prazo - tendo em vista a boa hidratação de todos os presentes – que se comprasse algumas cervejas. A proposta foi aceita por unanimidade. A diretora financeira Lilica disse que não iria ser ela a comprar as cervejas, posto que nas últimas duas reuniões havia sido encarregada de tal função. Sublinhou ainda que poderia haver sob tal insistência um fundo de machismo dos membros do C.A. O diretor geral Cabeleira ofereceu-se para buscar as cervejas, mas lembrou-a que de machismo ele não poderia ser acusado, sendo a prova cabal de sua idoneidade o tema de seu trabalho de iniciação científica: Margaret Mead e a questão do masculino e do feminino nas sociedades "ditas" primitivas. A diretora financeira Lilica declarou nada saber a respeito da iniciação científica do colega e pediu mais informações, mas o diretor geral Cabeleira disse que preferia ater-se à pauta da dia. Antes de sair, percebendo certa animosidade no recinto, sugeriu que o diretor administrativo Rob Marley preparasse um cigarro de maconha. (Ficou acertado que o dinheiro para as cervejas seria abatido do total arrecadado, na qualidade de “custos adicionais” e que o diretor administrativo Rob Marley seria ressarcido do fumo ali consumido.
Tendo o diretor geral Cabeleira voltado com as cervejas e vendo que as cédulas estavam prontas, decidiu abrir a votação. O diretor de comunicação Lipão observou que o cigarro de maconha também estava pronto e que colocar o trabalho antes do lazer era uma imposição burguesa às classes trabalhadoras, citando um ou outro trecho de Foucault e propondo, destarte, que fumassem o baseado. Foi bastante aplaudido.
Findos os trabalhos canabino-revoluvionários, adentrou o recinto o diretor de programação Bujones, tocando ao violão a canção Viva a sociedade alternativa! (de autoria do músico baiano Raul Seixas), acompanhado por três intercambistas bolivianos, munidos de flautas de bambu. Após a execução da música, Bujones cumprimentou a todos os presentes e convocou-os para a cervejada do C.A. de psicologia. O diretor administrativo Rob Marley defendeu a idéia com eloquência e, citando Maquiavel, argumentou que a união dos CAs. era fundamental e que a separação entre eles era justamente o projeto de dominação da reitoria. A diretora financeira Lilica afirmou saber exatamente o tipo de união que ele buscava no CA de psicologia. O diretor de programação Bujones e os três bolivianos deram início à execução da canção Volver a los 17, de Violeta Parra. Projetando a voz, o diretor geral Cabeleira propôs que se encerrassem os trabalhos. A diretora financeira Lilica fez o uso da palavra para protestar contra o que chamou de “furdunço engajado” e deixou claro que se o C.A. Dezoito Brumário continuasse com tamanha propensão para a esbórnia, ela sairia da chapa. O diretor administrativo Rob Marley aproveitou a deixa para encorajar a colega a assim proceder, pois suas posturas pequenoburguesas não condiziam com a postura revolucionária do grupo. Dada a agressividade do diretor administrativo, a diretora financeira decidiu responder a altura e, arrancando a flauta de bambu da mão de um dos intercambistas bolovianos, deu com a mesma na cabeça do diretor de administração que, ao cair no chão, bateu com a cabeça na *ni&fanckekk32724rehm%$$JNNKN7 máquina de escrever e derramou no carpete considerável quantidade de sangue. Diante da conjuntura adversa, o diretor geral Cabeleira achou por bem encerrar os trabalhos e dirigirem-se todos à Santa Casa de Misericórdia - sem votação.
Tendo todos os membros deixado às pressas o recinto, às vinte e uma horas e quarenta e nove minutos da data mencionada anteriormente, encerrou-se, sem conclusão sobre a pauta, na sala S-48, a reunião de número 387 do Centro Acadêmico Dezoito Brumário.
Sem mais, Buzunfa (estagiário).
11.03.09
Rápido e Rasteiro
Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.
Chacal
O poema é uma maravilha. Mas numa festa, no último sábado, pensei que dava para ir além:
Rápido e Rasante
Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o chão pedir pra parar.
aí eu paro
tiro o chão
e danço o resto da vida.
10.02.09
(crônica publicada na revista Espresso)
Não é que eu não goste de cachorros. Até gosto. Acho-os bonitinhos quando pequenos e simpáticos depois de grandes. Só não quero que eles babem na minha mão, estampem as digitais em meu peito ou resolvam, na flor da idade, aliviar suas urgências mais íntimas em minhas castas panturrilhas.
Se eu dissesse que não quero que um colega de trabalho lamba minha mão, enquanto digito, ou que o vizinho adolescente atraque-se à minha coxa, toda vez que tomo o elevador, seria acusado de misantropo? De inimigo da humanidade? Pois então, meus senhores, o que há de errado em esperar dos quadrúpedes – domesticados, de acordo com seus defensores – o mesmo respeito a certas regras mínimas de conduta e civilidade?
Acreditem, não é fácil, hoje em dia, ter qualquer reserva quanto aos cães. Nós, os que não ficamos contentes com o inesperado corpo-a-corpo com um animal desconhecido pelas esquinas da cidade, chegamos a ser até mal-vistos, socialmente. Crêem-nos seres desalmados, só por tentarmos nos desvencilhar do mamífero atracado a nossos sapatos, com discretos chacoalhões de perna, delicados safanões com o jornal. O tipo da pessoa que, se houver um crime no prédio, vai ser o primeiro suspeito. “Um cara estranho”, dirão.
Acho que cachorro, assim como sushi e religião, é um negócio com o qual a gente se acostuma desde pequeno, ou nunca mais. Lá em casa, íamos bastante à Liberdade, tínhamos uma vaga noção sobre Deus, mas nenhum relacionamento com bichos de estimação – peixes dourados e pintinhos, recebidos como brinde em feiras e festas infantis, não contam.
Consegui conviver razoavelmente bem com esse, digamos, desvio, até que fui conhecer minha sogra, semana passada. “Ela é muito tranqüila”, avisou-me minha namorada, querendo acalmar-me, a caminho do almoço. “Fica ali na Granja Viana, com seus 17 cachorros, sossegada. A única coisa que ela não tolera é gente que não curte bicho. Ela acha que não é bom caráter”. Fiquei petrificado: aquela gente era eu.
Esforcei-me, nas duas horas que durou o almoço, para disfarçar minhas reservas. Cheguei a ficar com dois cachorros no colo, durante algum tempo – fazendo carinho - e fui até capaz de discorrer sobre as virtudes e vícios do governo Lula enquanto um deles envernizava meu cotovelo com várias demãos de saliva.
Estava já no carro, crente que havia vencido a barreira da caninofobia e conquistado minha simpática sogra, quando ela se apóia na janela e me diz, sem rodeios: “você não gosta de cachorro, né?”. Quis explicar-lhe minha teoria sobre a civilidade inter-espécies, pensei em exemplificá-la dizendo como seria estranho se eu lambesse seu cotovelo, mas achei melhor resignar-me num sincero “não muito”.
Despedimo-nos melancolicamente. No caminho de volta, minha namorada tentou me consolar, dizendo que não tinha problema. O pior que poderia acontecer era, na próxima visita, sairmos de lá com um filhotinho de Dogue Alemão. Ela falava sério. Eu devia ter dito que era alérgico. Agora, só me resta comprar uma cumbuca e um ossinho e aguardar a chegada dessa peluda prova de amor.
06.02.09
Eu não vou sair de casa porque tenho que escrever o romance. Eu não vou sair de casa porque tenho que escrever o romance. Eu não vou sair de casa porque tenho que escrever o romance. Eu não ia sair de casa porque tinha que escrever o romance.
Então, da Mercearia nós fomos – seis homens num Ford Ka – para uma festa no Berlim. Seis homens num Ford Ka é das ocorrências mais ridículas sobre a face da Terra. Durante o trajeto falou-se de dois assuntos: o aperto ali dentro e operações de troca de sexo – talvez pelo receio dos condenados ao banco de trás de que algo do gênero pudesse acontecer, como conseqüência da gangrena.
Quando chegamos ao Berlim, o papo tinha mudado um pouquinho e Fialho afirmava que tá cheio de mulher que tira uma costela para ficar com a cintura mais fina. Eu jurava que isso era impossível e os outros quatro apenas ouviam e evitavam tomar posição, mesmo porque, naquele sufoco, a única posição possível era aquela em que eles já estavam.
Chegamos. A multidãozinha saiu do carro. O flanelinha nos olhou com um misto de pena e ironia. O segurança foi babaca, como se nós fôssemos esse tipo de gente -- que nós, de fato, éramos --, que se mete, seis, num Ford Ka, e se joga na balada atrás das mina. Uhu.
Primeira verdade absoluta inferida na noite de ontem: estou muito velho para frequentar baladas onde demora mais para comprar uma cerveja do que para bebê-la. Aliás, acho que estou muito velho para chamar programas noturnos de balada. Decididamente, estou muito velho para andar, com cinco homens, num Ford Ka.
Ficamos uns quarenta minutos ali, zanzando, em meio a umas duzentas pessoas que também zanzavam. Tive uma conversa rápida com uma ex-namorada que eu não via faz tempo e gosto muito. Ela disse que capotou o carro. Disse que a vida tinha literalmente dado uma virada e agora ela queria ter filhos. Perguntou se eu acreditava nessas coisas e eu disse que sim, sem nenhuma ironia. E não sei por que cargas d´água resolvi, já que a gente estava falando coisas profundas, dizer que ela tinha se comportado muito mal há uns anos, quando tivemos um revival e ela sumiu sem mandar nem um e-mail. Não era pra ofender, nem pra começar uma discussão, era só uma coisa que eu queria falar. Ela disse que tinha mandado um e-mail, sim. Eu disse que ela não tinha mandado e-mail, não. Então nenhum dos dois soube mais o que dizer, era absolutamente inoportuno puxar um papo sobre troca de sexo ou extração de costelas, ela disse “é, eu sou uma escrotona”, coisa que nós dois sabemos que não é ver-dade, virou as costas e sumiu.
Tive uma rápida e interessante conversa sobre design com o Barão, que me explicou coisas muito curiosas sobre a cama, os co-pos e a função das meias, então decidimos, os seis homens, voltar para o Ford Ka e ver o que estava acontecendo do CB, ali do lado. No meio do caminho nos demos conta de que faltavam dois. Caralho, tínhamos esquecido o Zé e o Barão. Peguei uma direita, depois uma esquerda e, quando vi, estava na Avenida Paulista. Liguei para o Zé, expliquei a situação e eles foram andando. Chegamos ao CB na mesma hora.
Custava quinze reais para entrar, a pequena autoridade da porta, ou a porta da pequena autoridade, disse que não importava que fosse três e meia da manhã. Daniel citou a máxima de algum pré-socrático, “vocês têm alguma coisa melhor para fazer?”, e entramos. Dentro do CB era idêntico a dentro do Berlim e nós, os quatro homens do Ford e os dois a pé, ficamos zanzando, tendo conversas pi-cadas com conhecidos e dançando ao lado de desconhecidas. Algumas vezes, os seis em torno da mesma desconhecida que, mui prontamente, saía de fininho. Tomamos Guiness, dançamos, Paulo chegou com sua jaqueta de couro, camiseta do Luis Miguel e lábia maldita e me convenceu, às cinco da manhã, a ir a uma festa. Eu disse que era impossível haver uma festa com gente dentro, quarta, às cinco da manhã. Ele disse que não era. E como, mais uma vez, não tí-nhamos nada melhor a fazer, fomos.
Foi ali no caminho, quando éramos dois num ford ka, que tive o primeiro lampejo existencial e me dei conta de que estava atravessando uma noite absolutamente vazia e sem sentido ao fim da qual minha vida não haveria mudado nem um milímetro, apenas minhas roupas teriam um terrível cheiro de cigarro. Será que eu estaria atravessando uma vida absolutamente vazia e sem sentido?
A festa de fato existia e havia umas dez pessoas -- que há uns dez anos atrás eu chamaria de “uns dez adultos” -- conversando. A dona era simpaticíssima e quando vi estava na cozinha diante de um prato de peru, arroz amarelo e umas panquequinhas que não consegui descobrir do que eram, mas comi umas quinze.
Quando você se vê numa cozinha desconhecida comendo panquequinhas e peru às cinco e meia, acha que a vida às vezes pode ficar bem estranha. Talvez por isso não se importe em participar, com sete desconhecidos (um deles, um garoto de uns nove anos), da dança das cadeiras, ao som de Rita Lee. O dia amanheceu, o moleque ganhou, eu fui para casa e pensei: afinal, o que eu quero com isso tudo? São sete da noite e, sinceramente, ainda não sei.
Agora com licença que, como eu ia dizendo, tenho que escrever o romance.
26.12.08
Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?
23.12.08
Meu pai nunca entendeu que eu e minha irmã não tínhamos a mesma idade que ele. Isso não se restringia a nós nem mudou com o tempo: até hoje ele conversa com uma criança de três anos de igual para igual, o que faz com que elas o adorem, como se o tom as promovesse a outro patamar. Quando você é filho, no entanto, a coisa é um pouco mais complicada.
Era domingo e não sei por que cargas d’água meu pai resolveu nos levar ao Pico do Jaraguá. Não era o tipo de programa que fazíamos nos fins de semana - um sim, um não - que passávamos com ele. Íamos a restaurantes, bares, às casas de amigos dele, ao cinema ou ao teatro. Aquele, contudo, era um domingo atípico, tanto é que a Julia, minha meia irmã (filha do meu padrasto), também estava conosco.
Lembro-me de estar deitado no banco de trás da Brasília, com as pernas esticadas por cima do encosto e a cabeça pendendo entre os bancos da frente, próxima à base do freio de mão. Hoje em dia, se a polícia pára um carro e flagra uma criança nessa posição, o motorista deve perder a carta, talvez até guarda dos filhos, mas estávamos em 1984 e o mundo era outro, não se usava cinto de segurança nem protetor solar, as pessoas não andavam por aí com garrafinhas d’água, como se fosse o elixir da vida eterna, fazíamos cinzeiros de argila para os pais nas aulas de artes e o colesterol era apenas uma vaga ameaça de gente paranóica, como a CIA ou a KGB, dependendo da sua visão de mundo; de modo que eu seguia feliz, estrada acima, vendo as árvores passarem de cabeça para baixo, lá fora.
Foi a Maria, minha irmã mais nova, sentada próxima a janela da esquerda, quem deu o alarme: “Ó lá ela chupando o pinto dele!!!”. A Julia pisou na minha barriga, passou por cima de mim e também grudou a cara na janela, eu levantei correndo mas só cheguei a tempo de ver uns vultos dentro da Variante bege parada no acostamento. A Maria jurava ter visto direitinho: o cara pelado, uma mulher chupando-lhe o pinto. Nós três começamos a pular e gritar no banco de trás, como chipanzés amotinados. “Chupando o pinto!”, “Hahahaha!”, “Chupando o pinto dele!”, repetíamos, sem acreditar que havíamos passado tão próximos daquele evento inencaixável na ordem geral das coisas. A gritaria estancou de imediato quando meu pai, com a naturalidade de quem discute a situação com senhores de cinqüenta anos, perguntou: “o que é que tem?”.
Até aquele segundo, em minha vida, chupar pinto não tinha nenhuma relação com a sexualidade humana, o prazer, o afeto. A frase “chupa meu pinto!” pertencia ao terreno das ofensas, ao jargão do futebol, como “prensada é da defesa”, “gol só dentro da área”, e “vou te encher de porrada” – essa sim uma ameaça que poderia ser cumprida. Chupar o pinto era metafórico, como “cospe e sai nadando” ou “vai ver se eu estou na esquina” e jamais tinha passado por nossas cabeças (eu devia ter uns nove, a Julia oito e a Maria, sete) que alguém de fato fizesse aquilo - e por que faria?!
“Não sei do que vocês tão rindo tanto”, continuou meu pai, sério. Eu só consegui gritar o óbvio, de pé no assento de trás, metendo o corpo entre os bancos da frente: “pai! Ela tava chupando o pinto dele!”. Meu pai abanou a cabeça. “Antonio, chupar pinto é uma coisa muito normal. E saudável. Todo casal faz isso” – ele disse, e acreditem: era só o começo. O pior, o que subverteu todo o arcabouço conceitual construído até meus nove anos, o que provavelmente faria com que fogos de artifícios fossem vistos nos dois hemisférios do meu cérebro, caso estivesse num desses aparelhos de ressonância magnética, o que, dada a intensidade, provavelmente fixou toda a história em minha cabeça, desde a posição em que me encontrava no banco da Brasília até a cor do céu, quando chegamos ao mirante, lá no alto, viria a seguir: “Normal, sim. A Juliana chupa meu pinto. A sua mãe chupa o pinto do marido dela. Sua avó chupa o pinto do seu avô. A tia Lurdes chupa o pinto do Augusto, a professora Carla chupa o pinto do Josué, ah!, os homens que namoram homens então, como o Pedrinho e o Ivan, chupam muito o pinto um do outro. Todo mundo que namora faz isso. E é muito gostoso. Não tem porque rir.”
Chegamos ao Pico do Jaraguá, descemos do carro e vimos o pôr do sol. Eu olhava a cidade lá longe e só conseguia pensar que por trás de cada janela, dentro de cada carro, debaixo de cada teto, atrás de cada porta havia pessoas que chupavam ou eram chupadas, meus pés pisavam sob um planeta onde dois bilhões e meio de seres humanos colocavam os pintos dos ouros dois bilhões e meio na boca. Talvez fosse o vento, ou a memória tenha inserido o áudio mais tarde sobre a imagem, mas o som que eu ainda ouço, lá no alto, é equivalente ao de um canudo do tamanho de um prédio puxando o último gole de um copo gigante de milk-shake: sssrrrrrrrlllllllllllluuuuuuuuurrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrp!
Na volta, ninguém falava nada. Entramos em casa correndo, com os olhos arregalados. Não tão arregalados quanto ficaram os de minha mãe, meu padrasto e mais uns dois casais de amigos, que tomavam vinho e comiam alguma coisa, quando desandamos a falar: “Mãe! Mãe! É verdade que você chupa o pinto dele?!”. “A vovó chupa o pinto do vovô?!”, “A minha avó também, pai?! A minha avó também chupa pinto?!!”, “Todo mundo?! Todo mundo chupa pinto?!”. “Mãe, mãe, quando eu crescer eu também vou ter que chupar pinto?!”. “Com que idade?! Com que idade começa a chupar pinto, pai?!”.
A última cena de que me lembro nesse dia é vista do alto da escada, de onde eu estava bisbilhotando, já de pijama. Havia taças vazias e pratos sujos na mesa, os casais tinham ido embora. “Mas será que você não entende? Eles são crianças!”, dizia minha mãe ao meu pai, pelo telefone, aparentando mais cansaço do que raiva na voz. Não lembro com que sonhei naquela noite.
(Publicado na Vogue Homem)
Do bafômetro I
Está em vigor, desde o dia 20 de junho, a nova lei 11.705, que pune com cadeia quem for pego dirigindo com mais de 6 dg/L de álcool no sangue.
“Você pode ser preso por ter comido um bombom de licor!”. Eis o que bradam, pelas bombonieres do Brasil, os indignados chocólatras. Eles, minha gente, que ajudaram a fazer de nosso país, como você bem sabe, a “a pátria da trufa com Frangélico”.
“Vai em cana por bochechar com Listerine!”. É o que gritam os neocons da higiene bucal, provavelmente receosos de que a lei vá disseminar em nossa terra, já tão cheia de mazelas, as pragas do tártaro e da placa bacteriana.
Estou realmente admirado que a minha turma do bar esteja se unindo em torno de duas causas tão nobres: bombons e cáries. Claro. Afinal, exigir o direito de dirigir bêbado ninguém tem coragem. Ou tem?
Do bafômetro II
“Um chopinho! Uma tacinha!”, sussurram os mais ousados, olhando para os lados, conferindo se não estão mesmo sendo ouvidos. Tá certo, eu também acho que uma taça de vinho e um chope poderiam ser liberados. Se fizerem abaixo assinado para mudarem a lei, me mandem por e-mail, eu assino – como, aliás, tenho assinado todos os que me mandam contra o desmatamento da Amazônia, a guerra do Iraque, o relatório de Kyoto, os ursos chineses que são amarrados nas jaulas e cuja bílis é cruelmente extraída para fazer já não me lembro mais o que.
A que quantidade de álcool permitida, no entanto é um detalhe ínfimo, diante da boa notícia de que, finalmente, beber e dirigir vai se tornar um crime de verdade e que milhares de vidas serão poupadas. (Milhares, aqui, não é força de expressão. São mais de trinta mil mortos por ano, no trânsito. Boa parte dos acidentes, causados por motoristas bêbados).
Acho estranho tanto fervor na defesa de um chopinho e uma tacinha. E na vidinha, não vai nada?
Da jaca
Antes de mais nada, preciso dizer: não comemoro a cruzada puritana que assola o globo. A tentativa de impor ao corpo os valores de eficiência e produtividade – as barrigas de tanquinho ISO 12000 expostas como propagandas de nosso superávit muscular e superegóico; o troféu pela dominação de nossas panças e nossos instintos.
Todo poder ao telecoteco, ao ziriguidum, à picanha, ao vinho, à cerveja e ao doce de leite argentino. Viva Dionísio, Zé Celso, o Saci Pererê e essa coisa toda. (Se não fosse o álcool, aliás, acho que seria virgem até hoje – no meio da adolescência, só um psicopata pode ter a frieza de ficar pelado, na frente de uma garota, em pleno domínio de suas faculdades mentais). Mas, como dizia Confúcio, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: assim como quem vier explicar a origem da tabela de logarítimos no meio de um bloco de carnaval deve ser mandado para a Sibéria, não dá pra conduzir uma máquina de uma tonelada a cinqüenta quilômetros por hora, depois de beber.
Porém, ah, porém...
Do bafômetro III
Sexta-feira, agora, um cara me dizia, furibundo, já no quarto uísque com red bull:
- E se eu quiser tomar um chope saindo do trabalho? Vou preso!
- E desde quando você toma um chope? Você enche a lata!
- Eu sei, mas suponhamos que eu queira, é um absurdo não poder!
Eu, que já estava na terceira long-neck (and rising...), enchi o peito de virtude e passei um sabão no sujeito. Disse que era egoísta da parte dele. Que se a suposta ruína do happy hour viesse a salvar cinco mil vidas, que fosse, já estava valendo.
Fiquei até arrepiado com minhas próprias palavras. Depois, peguei o carro e fui-me embora para casa. Veja bem: eu, quando como bombom recheado, bochecho com Listerine ou bebo cerveja, dirijo com muito cuidado. Como todo o Brasileiro, aliás.
Do bafômetro IV ou: da lei (I)
Nós, brasileiros, temos um individualismo natural. Não aquela papagaiada dos americanos, que enchem a boca para citar a primeira emenda e o direito do Ser Humano viver como quer e longe dos tentáculos do Estado. Nosso individualismo é menos triunfal, mais íntimo. Entendemos que a lei exista, afinal, o ser humano faz um monte de besteiras por aí. O ser humano precisa de leis. O ser humano é um vacilão. Mas eu? Veja bem: eu tenho “as manha”.
No sábado, enquanto bebíamos vinho, num jantar, um cara argumentava que a lei era “muito autoritária. Uma coisa de cima pra baixo, muito radical”. Aí me lembrei de uma mulher que, na época da campanha pelo desarmamento, disse-me que votaria contra a proibição das armas porque, desde os anos 70, seguia um princípio: “é proibido proibir”. Não era uma velha hiponga, mas alta executiva (CEO, como dizem agora) de uma Multinacional (corporação?). Síntese curiosa entre libertários e liberais. Alguma coisa entre Caetano Veloso e Thomas Friedman.
No Brasil, toda vez que se discute uma nova lei, não é somente o conteúdo da mesma que está em pauta, mas o próprio conceito de lei, Estado, contrato social. “Como assim?!”, dizemos. “Alguém quer me proibir de fazer uma coisa?!”. Mais ainda: “vale para mim e todo mundo?! Estão me igualando à patuléia?! Nananina! Qual é mesmo a emenda lá que os caras sempre citam no final do filme, amor?! Aquela lá que eles falam na hora do tribunal, antes de beijar a loira?! É isso aí! Isso aí que eu acho dessa lei nova!”.
Tolerância zero
Na minha primeira aula da disciplina Ética I, na faculdade de filosofia, o professor Renato Janine Ribeiro informou que seríamos avaliados por um trabalho, cujo limite eram 4 mil caracteres. Levantei a mão e perguntei, já quase afirmando: “mas se passar um pouco de 4 mil não tem problema, né?”. Janine começou a rir. Limite é aquilo que não se pode transpor. É o fim da linha, certo?Não no Brasil! No Brasil tudo tem um chorinho. A dose não é a dose, nem no copo, nem no tempo, nem na lei.
A lei anterior, que permitia uma taça de vinho ou dois chopes, não era um retumbante NÃO ao álcool. Ela permitia um pouquinho. Então preferíamos, em vez de nos apegarmos ao texto da lei, nos focar em seu princípio – não sei se por nossa grande capacidade de abstração ou se simplesmente por preguiça –: “pode beber, mas não muito”. Ou seja, pegávamos o limite de dois chopes ou uma taça, adicionávamos o chorinho que acreditávamos caber a cada um de nós e lá se iam 30 mil vidas, a cada ano.
Agora, não tem mais chorinho nem vela. Bebeu um chope, adeus carro. Que país é esse, minha gente?!
Do bafômetro V ou: da lei (II)
Desde que eu me entendo por gente, a 11.507 é primeira lei que surge ameaçando levar todo mundo pra cadeia. Rico, pobre, peão, deputado, acrobata amador ou poeta neo-concretista: dirigiu e bebeu, o pau comeu. Claro, todas as outras leis também deveriam ser para todos. Mas não são. A 11.507, a julgar pelas fotos dos motoristas assoprando o bafômetro, é ampla, geral e irrestrita.
Uma associação de bares e restaurantes está ameaçando entrar com ação na justiça, para garantir o direito inalienável de seus clientes atropelarem pedestres e chocarem-se contra Kombis escolares na contra-mão. Maravilha. A Kopenhagen e a Johsons, quem sabe, também vão fazer a mesma coisa.
Enquanto isso não acontece, no entanto, sugiro outra alteração na 11.705, para que ela não seja assim tão contrária à nossa natureza, à nossa cultura: cadeia diferenciada, dependendo da bebida que tiver sido ingerida pelo motorista.
Da penalidade
Uísque doze anos - O doutor vai para aquela casona bonita da Polícia Federal, no bairro paulistano de Higienópolis, que já hospedou Lalau e Rocha Matos. (Vão precisar comprar mais algumas mansões decadentes se a coisa começar a ficar preta pra turma do Black Label, mas tudo bem, para essas coisas nunca falta $$$).
Chope em bar carioca - A galera vai para celas especiais nas delegacias comuns. (Vão precisar fazer mais celas especiais pra acomodar todo o pessoal de óculos com armação de acrílico preto, mas tudo bem, algumas ONGs vão pressionar, a imprensa apoiará e o governo vai acabar cedendo).
Serra Malte, Original e Boêmia de garrafa – Os amantes da tradição são mandados para Ilha Grande, a masmorra mais cool de nossa história, que abrigou até Graciliano Ramos. (O presídio precisa de uma reforma, mas o pessoal da cerveja de garrafa pode trabalhar nisso, com materiais recicláveis e energia solar).
Schincariol de garrafa ou pinga 51 -- Mete o vagabundo no xilindró e acabou. (Vão precisar fazer mais xilindrós, porque os que existem hoje já estão superlotados, mas isso pode esperar, como sempre, porque ninguém que a gente conhece vai pra lá, mesmo).
Campari, Sangue de Boi e Smirnoff Ice, campo de concentração no Acre, pra aprender a beber direito. Não tem conversa. (Nem piadinha entre parênteses).
(Publicado na Vogue)
“Olha o vestidinho wrap dress de jersey, galera! O vestidinho caiu de cem para oitenta e quatro e noventa!” – anunciava o locutor, com aquela animação de FM, no bazar de uma grife famosa. “Oitenta e quatro e noventa! Não dá pra perder, é pegar ou largar!”, ele insistia, e eu, que estava ali só para comprar uma calça jeans, que nem sabia que bazar tinha locutor ou o que diabos seria o tal wrap dress de jersey, me peguei andando, aflito, em direção à arara no fundo do galpão, com medo de estar perdendo aquela incrível oportunidade de compra.
Parei a uns dois metros da balbúrdia, assustado: uma dúzia de mulheres ofegantes arrancava os vestidos das araras e os viravam do avesso, atrás das etiquetas, como se encontrar a letra certa -- P, M ou G – lhes fosse abrir as portas do paraíso. Eu não sabia que esse negócio de bazar era tão sério.
Enquanto esperava na fila do caixa -- minha calça jeans pendurada no braço direito, como o pano de prato de um garçom -- me dei conta de que a cena dos vestidos não existia isolada, era uma dessas metonímias que a vida nos apresenta, pequenas amostras com as quais, fazendo uma simples regra de três, conseguimos vislumbrar o X de alguma questão superior. Pois se a balbúrdia dos vestidinhos – “caiu pra R$ 59,90! Loucuuura!” -- pouco me iluminou sobre os mistérios do wrap dress de jersey, acabou sendo muito elucidativa sobre o comportamento de uma parcela das mulheres da minha geração: as moças estão em busca de maridos com a ansiedade furiosa das compradoras do bazar. Mal encontram um homem solteiro, mais ou menos do tamanho e modelo que procuravam, já vão logo olhando a etiqueta, querendo saber se o tecido é de qualidade, se não vai desbotar assim que lavar ou soltar a costura no primeiro aperto.
O que faz com que, dos vinte e cinco para cima, as mulheres olhem os homens encostados no balcão do bar (ou da ponte-aérea, ou da Casa do Pão de Queijo, ou da, ou da, ou da...) como se fossem as últimas peças disponíveis na arara? E por que, mal disseram olá, elas já pensam se ele preferiria um labrador ou um border collie na casa que construirão juntos, depois do nascimento do segundo filho (uma menina)?
Em minhas imprecisas pesquisas, os hormônios aparecem como os maiores vilões, acusados de ser tão impertinentes quanto o cara do microfone, a gritar “os óvulos estão acabando! Os óvulos estão acabando!” nos ouvidos das pobres moças em flor. Minhas caras, culpem o tempo em seu devido tempo. Quem tem trinta anos hoje ainda tem óvulo pra dedéu. Não é preciso correr entre uma arara e outra, nem sofrer quando souber que uma boa peça, que estava dando sopa por aí, caiu nas mãos da concorrência. Mesmo porque, com os avanços da medicina, tem muita mulher com idade para ser avó dando entrada na maternidade.
Se a necessidade biológica não é a força motriz da ansiedade casadoira, o que seria? Carência, pura e simples, aparece em segundo lugar em minhas enquetes. As mulheres consultadas dizem ter síndrome de abstinência, às vezes com delirium tremens se, na tríade dominical DVD-Pipoca-Namorado, o terceiro elemento falta por mais de quatro semanas. Será que é isso? O medo de ficarem sozinhas as lança atrás de um projeto de longo prazo, envolvendo damas de honra, FGTS, babás no fim de semana, contrato judicial e idas freqüentes à Alô bebê?
Curioso é que essas mulheres são as filhas de 68, das mães que queimaram soutiens e de peito aberto, literalmente, foram atrás de suas independências. Então as meninas que nasceram supostamente libertas dos grilhões da falocracia chegam à maioridade e, em vez de se ajoelharem diante de uma foto de Simone de Beauvoir, acendem velas para Branca de Neve?
Não estou falando do desejo de se apaixonar, de viver uma história arrebatadora, de ter as pernas trêmulas e a voz gaga quando o cara surge. O que vejo, no fundo dos olhos de algumas mulheres, é muito mais o desejo de encontrar alguém para dividir um título familiar do Clube Pinheiros do que para tomar champanhe em Paris, e acho isso triste. Porque o título familiar, as idas à Alô bebê e a união dos FGTSs para comprarem uma casa juntos, onde crianças aprenderão a andar embaixo de uma jabuticabeira e ganharão um cachorrinho (labrador ou border collie?) só pode dar certo – na visão desse ignorante, que nem sabe o que é um vestidinho wrap dress de jersei, que também quer ser feliz com uma mulher e sofre quando está sozinho, não só aos domingos – se for a conseqüência inevitável do amor arrebatador, das pernas trêmulas, do desejo incontrolável e recorrente de tomar champanhe em Paris. (Ou Kaiser quente em Jundiaí, que seja, desde que com ele, desde que com ela).
O amor e o tesão são forças por demais poderosas – e, no entanto, delicadas – para serem trocadas pela serenidade de uma jabuticabeira. Viva Dionísio! Abaixo a planilha Excel! Eu vejo por aí os casais precocemente infelizes, que nasceram da fuga da solidão, e quase não acredito. Quando tivermos netos poderemos aceitar que o companheirismo tenha brotado ali onde antes crescia o desejo. Não agora. Esqueçam o locutor. Não comprem na promoção.
(publicado na revista Capricho)
Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando, pela boca, cantando, pelas pernas, tremendo, pelas mãos, suando. (Só pelo umbigo é que não saía: o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado).
O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando o amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe, tinha mais quinze meninos. Na escola, trezentos. No mundo, vai saber, uns dois bilhões? Como é que ia acontecer de a menina se apaixonar justo por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como: nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu então congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura - só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas de Star Fix por onde pisava.
O que é que eu faço? - perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e a um pessoalzinho que passava a vida sentado em frente ao posto de gasolina. Fala pra ela! - diziam todos, sem pensar duas vezes, mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha pra dar? Ele ia murchar que nem uva passa, explodir como bexiga e chorar até 31 de dezembro de 2978.
Tomou então a decisão: iria atirar seu amor ao mar. Um polvo que se agarrasse a ele - se tem oito braços para os abraços, por que não quatro corações, para as suas paixões? Ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e o maior sentimento do mundo.
Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia era que seu amor era maior do que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor.
Até que sentiu uma gota na ponta do nariz. Depois outra, na orelha e mais outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava. E assim que a água tocou sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois já fazia meses que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já nem cabia dentro dela.
Depois que o muro de Berlim foi partido em cubinhos e vendido como souvenir, Che Guevara passou a usar o chapéu do Mickey Mouse e a Colgate uniu o mundo num único e branco sorriso, muita gente pensou que esquerda e direita tinham ficado para trás. Dizia-se que, dali em diante, os termos só seriam usados para indicar o caminho no trânsito e diferenciar os laterais no futebol. Afinal de contas, estávamos no fim da história e, como sabíamos desde criancinhas, todos viveriam felizes para sempre.
Mas o mundo gira, gira e – eis aí um grande problema de rodar em torno do próprio eixo – voltamos para o mesmo lugar. Se a história se repete como farsa ou como história mesmo, não faço a menor idéia, mas ouso dizer, parafraseando Nelson Rodrigues (que já foi de direita, mas o tempo e Ruy Castro liberaram para a esquerda), que hoje em dia não se chupa um Chicabom sem optar-se por um dos blocos.
Ah, como fomos tolos! Acreditar que aquela dicotomia ontológica resumia-se à discussão sobre quanto o Estado deveria intervir no mercado (ou quanto o Mercado deveria ser regulado pelo estado, o que vem a ser a mesma coisa, de maneira completamente diferente) é mais ou menos como pensar que a diferença entre homens e mulheres restringe-se ao cromossomo Y. Ou ao comprimento do cabelo.
Estado e Mercado são apenas a ponta de um iceberg, ou melhor, dois icebergs sociais, culturais, gastronômicos, gramaticais, musicais, lúdicos, léxicos, religiosos, higiênicos, esportivos, patafísicos, agronômicos, sexuais, penais, eletro-eletrônicos, existenciais, metafísicos, dietéticos, lógicos, astrológicos, pundonôricos, astronômicos, cosmogônicos -- e paremos por aqui, porque a lista poderia levar o dia todo.
Justamente agora, quando esquerda e direita, pelo menos em suas ações, pareciam não divergir mais sobre as relações entre Estado e Mercado (ponhamos assim, os dois com maiúsculas, para não nos acusarem de nenhuma parcialidade), a discussão ressurge lá do mar profundo, com toda a força, como o tubarão de Spielberg.
Para que o pasmo leitor que, como eu, dá um boi para não entrar numa discussão, mas uma boiada para não sair, não termine seus dias sem uma única rês, resolvi enumerar algumas diferenças entre essas, digamos, maneiras de estar no mundo. Dessa forma saberemos, ao comentar numa mesa de bar, na casa da sogra ou na padaria da esquina, “dizem que o filme é chato” ou “como canta bem esse canário belga”, se estamos ou não pisando inadvertidamente numa dessas minas ideológicas, mandando os ânimos pelos ares e causando inestancáveis verborragias.
A lista é curta e provisória. Outras notas vão entrar, mas a base, por ora, é essa aí. Se a publico agora é por querer evitar, mesmo que parcialmente, que mais horas sejam ceifadas, no auge de suas juventudes, nas trincheiras da mútua incompreensão. Vamos lá.
* * *
A esquerda acha que o homem é bom, mas vai mal - e tende a piorar. A direita acredita que o homem é mau, mas vai bem - e tende a melhorar.
A esquerda acusa a direita de fazer as coisas sem refletir. A direita acusa a esquerda de discutir, discutir, marcar para discutir mais amanhã, ou discutir se vai discutir mais amanhã e não fazer nada. (Piada de direita: camelo é um cavalo criado por um comitê).
Temos trânsito na cidade. O que faz a direita? Chama engenheiros e constrói mais pontes. Resolve agora? Sim, diz a direita. Mas só piora o problema, depois, diz a esquerda. A direita não está preocupada com o depois: depois é de esquerda, agora é de direita.
Temos trânsito na cidade. O que faz a esquerda? Chama urbanistas para repensar a relação do transporte com a cidade. Quer dizer então que a Marginal vai continuar parada ano que vem?, cutuca a direita. Sim, diz a esquerda, mas outra cidade é possível mais pra frente. A direita ri. “Outra” é de esquerda. “Isso” é de direita.
Direita e esquerda são uma maneira de encarar a vida e, portanto, a morte. Diante do envelhecimento, os dois lados se dividem exatamente como no urbanismo. Faça plásticas (pontes), diz a direita. Faça análise, (discuta o problema de fundo) diz a esquerda. (“filosofar é aprender a morrer”, Cícero). Você tem que se sentir bem com o corpo que tem, diz a esquerda. Sim, é exatamente por isso que eu faço plásticas, rebate a direita. Neurótica! -- grita a esquerda. Ressentida! -- grita a direita.
A direita vai à academia, porque é pragmática e quer a bunda dura. A esquerda vai à yoga, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado. (Processo é de esquerda, resultado, de direita).
Um estudo de direita talvez prove que as pessoas de direita, preocupadas com a bunda, fazem mais exercícios físicos do que as de esquerda e, por isso, acabam sendo mais saudáveis, o que é quase como uma aplicação esportiva do muito citado mote de Mendeville, de que os vícios privados geram benefícios públicos -- se encararmos vício privado como o enrijecimento da bunda (bunda é de direita) e benefício público como a melhora de todo o sistema cardio-vascular. (Sistema cardio-vascular é de esquerda).
Um estudo de esquerda talvez prove que o povo de esquerda, mais preocupado com o processo do que com os resultados, acaba com a bunda mais dura, pois o processo holístico da yoga (processo, holístico e yoga são de extrema esquerda) acaba beneficiando os glúteos mais do que a musculação. (Yoga já é de direita, diz alguém que lê o texto sobre meus ombros, provando que o provérbio correto é “pau que nasce torno, sempre se endireita”).
Dieta da proteína: direita. Dieta por pontos: esquerda. Operação de estômago: fascismo. Macrobiótica: stalinismo. Vegetarianismo: loucura. (Foucault escreveria alguma coisa bem interessante sobre os Vigilantes do Peso).
Evidente que, dependendo da época, as coisas mudam de lugar. Maio de 68: professores universitários eram de direita e mídia de esquerda. (“O mundo só será um lugar justo quando o último sociólogo for enforcado com as tripas do último padre”, escreveram num muro de Paris). Hoje a universidade é de esquerda e a mídia, de direita.
As coisas também mudam, dependendo da perspectiva: ao lado de um suco de laranja, Guaraná é de direita. Ao lado de uma Coca-Cola, Guaraná é de esquerda. Da mesma forma, ao lado de um suco de graviola, pitanga ou umbu (extrema-esquerda), o de laranja vira um generalzinho. (Anauê juice fruit: 100% integralista).
Leão, urso, lobo: direita. Pinguim, grilo, avestruz: esquerda. Formiga: fascismo. Abelha: stalinismo. Cachorro: social democrata. Gato: anarquista. Rosa: direita. Maria sem-vergonha: esquerda. Grama: nacional socialismo. Piscina: direita. Cachoeira: esquerda. (Quanto ao mar, tenho minhas dúvidas, embora seja claro que o Atlântico e o Pacífico estejam, politicamente, dos lados opostos aos que se encontram no mapa). Lápis: esquerda. Caneta: direita. Axilas, cotovelo, calcanhar: esquerda. Bíceps, abdomem, panturrilha: direita. Nariz: esquerda. Olhos: direita. (Olfato é sensação, animal, memória. Visão é objetividade, praticidade, razão).
Liquidificador é de direita. (Maquiavel: dividir para dominar). Batedeira é de esquerda. (Gilberto Freyre: o apogeu da mistura, do contato, quase que a massagem dos ingredientes). Mixer é um caudilho de direita. Espremedor de alho é um caudilho de esquerda. Colher de pau, esquerda. Teflon, direita. Mostarda é de esquerda, catchupe é de direita -- e pela maionese nenhum dos lados quer se responsabilizar. Mal passado é de esquerda, bem passado é de direita. Contra-filé é de esquerda, filé mignon é de direita. Peito é de direita, coxa é de esquerda. Arroz é de direita, feijão é de esquerda. Tupperware, extrema direita. Cumbuca, extrema esquerda. Congelar é de direita, salgar é de esquerda. No churrasco, sal grosso é de esquerda, sal moura é de direita e jogar cerveja na picanha é crime inafiançável.
Graal é de direita, Fazendinha é de esquerda. Cheetos é de direita, Baconzeetos é de esquerda e Doritos é tucano. Ploc e Ping-Pong são de esquerda, Bubaloo é de direita.
No sexo: broxada é de esquerda. Ejaculação precoce é de direita. Cunilingus: esquerda. Fellatio: direita. A mulher de quatro: direita. Mulher por cima: esquerda. Homem é de direita, mulher é de esquerda. (mas talvez essa seja a visão de uma mulher -- de esquerda).
Vogais são de esquerda, consoantes, de direita. Se A, E e O estiverem tomando uma cerveja e X, K e Y chegarem no bar, pode até sair briga. Apóstrofe ésse anda sempre com Friedman, Fukuyama e Freakonomics embaixo do braço. (A trema e a crase acham todo esse debate uma pobreza e são a favor do restabelecimento da monarquia).
“Eu gostava mais no começo” é de esquerda. “Não vejo a hora de sair o próximo” é de direita.
Dia é de direita, noite é de esquerda. Sol é de direita, lua é de esquerda. Planície é de direita, montanha é de esquerda. Terra é de direita, água é de esquerda. Círculo é de esquerda, quadrado é de direita. “É genético” é de direita. “É comportamental” é de esquerda. Aproveita é de esquerda. Joga fora e compra outro, de direita. Onda é de direita, partícula é de esquerda. Molécula é de esquerda, átomo é de direita. Elétron é de esquerda, próton é de direita e a assessoria do neutron informou que ele prefere ausentar-se da discussão.
To be continued (para os de direita)
Under construction (para os de esquerda)
(crônica para a Capricho)
Toda sexta-feira ele chegava, num FIAT bege, para buscar a mim e a minha irmã. Pequenininhos, nos encaixávamos nos programas do pai separado e boêmio. Adorávamos: nos bares em que nos levava, éramos paparicados por mulheres bonitas e cheirosas, que riam alto e usavam roupas engraçadas. (Só muito mais tarde fui descobrir que a esse tipo de mulheres dá-se o nome de “atrizes”). Pedíamos coca, fanta e sprite e misturávamos tudo. Meu pai nos deixava comer pastéis, batatas-fritas, frango à passarinho e todo tipo de besteira, mandando por água abaixo, em minutos, toda a educação nutricional que minha mãe havia imposto durante a semana, com muito esforço, brócolis, sorrisos e papaias.
Nos períodos em que meu pai tinha alguma peça em cartaz, íamos ao teatro todo fim de semana. Lá pelos meus cinco anos, estreou a peça Besame Mucho. Era encenada no teatro Cultura Artística. Fica ali perto da Augusta, em meio a várias casas de strip e outros estabelecimentos cheios de neons e mistério, que eu olhava fascinado. Chegava a sentir uma certa pena do meu pai: o teatro dele me parecia o ponto mais desanimado de toda a rua, ofuscado por fachadas de castelos medievais, onde portas espelhadas davam para corredores esfumaçados e coloridos.
Perguntei o que eram aqueles lugares e meu pai disse que eram bares. Mas por que eram tão diferentes dos outros, em que comíamos frango a passarinho com Guara-cola? Meu pai explicou-me que naqueles bares havia mulheres peladas. Como?! Por que?! Do alto de minha meia década de existência, “mulher pelada” evocava a imagem de minha mãe ou irmã entrando ou saindo do banho, de toca na cabeça e toalha na mão. Não conseguia imaginar muito bem que razão levaria mulheres nuas a comer pastéis. Meu pai seguiu a explicação, deixando-me ainda mais confuso: homens que não tinham namorada pagavam para ver aquelas mulheres peladas. Imaginei uns caras tristes, barba por fazer, a preencher palavras-cruzadas e bebericar um chope, enquanto mães e irmãs nuas iam e vinham de chuveiros inexistentes. A coisa não fazia o menor sentido. Pedi para irmos a um daqueles bares. Meu pai explicou que era proibido para crianças. Pela primeira vez, alguma coisa pareceu-me lógica. Devia ser para evitar que víssemos aqueles homens tristes e sozinhos, perdidos entre neons e tocas de banho.
Só vinte anos depois atravessei um daqueles corredores. As mulheres eram bem diferentes do que havia imaginado no meio de minha infância, mas os homens estavam lá, exatamente como eu os havia pintado.
Segundo a pesquisa que li outro dia, os homens preferem loiras falsas às verdadeiras. A matéria tratava o resultado com assombro. Confesso que achei muito natural: afinal, loira falsa tem algo que a verdadeira, ao menos à primeira vista, não tem: vulgaridade. Nós, homens, apreciamos essa virtude.
Posso ouvir, daqui, o grito de horror de uma leitora. Compreendo. No dicionário hierárquico feminino, vulgaridade é uma das últimas palavras, embolada, na zona de rabaixamento, com “celulites”, “pochete” e “torresminho”.
Por que é que as moças odeiam tanto essa, digamos, postura diante da vida? Por que, meus caros, minhas caras, ela é o ponto central de uma contradição feminina. Para quem se emperiquitam as mulheres? Quem querem impressionar indo à academia, ao cabeleireiro, fazendo os pés e as mãos, usando vestidos, brincos, batons, ziriguiduns e balangandãs? Nós, homens, e as outras mulheres. Não necessariamente nessa ordem. E aí é que elas se estrepam, pois é impossível servir a dois deuses tão distintos.
Homem gosta de barriga de fora, de calça apertada na bunda, de decotão. De fritura, açúcar, carne, cachaça. Somos explícitos. Essa pashmina é mesmo linda, meu bem, mas deixa ela de lado e se espraia aqui, toda center folder, no meu sofá. Esse negócio de ficar fantasiando, imaginando, isso é feminino. Não é à toa que, numa mentalidade masculina média, de arquibancada, esse papo de arte é coisa de veado. (E todo homem, não importa quantas vezes ler Drummond ou assistir Antonioni, sempre terá uma mentalidade masculina média, de arquibancada, dentro de si).
Se as mulheres quisessem apenas nos impressionar, sem se importar com as outras, o mundo seria um baile funk. Só ia dar calça da Gang e top pelas calçadas. Acontece que elas também competem entre si. E, na competição feminina, ganha quem consegue seu homem dentro do regulamento: ou seja, sem a tal da vulgaridade. Pois mulher valoriza elegância. Discrição. Sutileza. Existe um acordo tácito: ok, meninas, nós queremos esses homens, mas não vamos baixar o nível. Não vamos trair nossos valores. Vamos trazê-los até nós pelo que nós acreditamos ter de bom, não pelo que eles acham. É quase uma atitude política. Pedagógica, sem dúvida. E o que faz a mulher vulgar, que deixa as outras tremendo igual panela de pressão, chamando-a pelos mais baixos nomes de que dispõe a última flor do Lácio? Ela simplesmente ignora a batalha intra-gênero e parte para o ataque colocando na bandeja o que Deus lhe deu -- ou conseguindo na chapinha, no blondor, no bisturi ou na maquiagem o que Deus não deu. Ela trai a classe, vem jogar no nosso campo, segundo as nossas regras. Vulgaridade é o carrinho por trás do futebol feminino. É gol de mão.
É roubo, mas não é blefe. E nesse ponto entra a loira falsa. A cor do cabelo não é verdadeira, mas ao imaginário masculino ela oferece algo extremamente genuíno e valioso: a expressa vontade de dar – that’s what vulgaridade is all about.
Afinal, se os homens preferem as loiras e uma morena tornou-se uma delas, foi para agradar o gosto masculino. E assim que a tintura toca suas melenas, a moça imediatamente sai do time da pashmina e começa a rebolar “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”, no meio do salão.
Evidente que não existe nenhuma ligação empírica entre tinturas capilares e desejo sexual. Mas nós, homens, somos toscos. Não pescamos sutilezas, detalhes, entrelinhas. Precisamos de sinais claros e nesse caso, assim como no trânsito, o amarelo significa: preste atenção. Imagem essa, aliás, de péssimo gosto. Bem masculina. Média. De arquibancada. Vulgar, sem nenhuma virtude. Perfeita para terminar o texto.
Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica uma segunda sim uma segunda não na última página do caderno Metrópole
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