BLOGS
08.02.10
Aos dezessete anos eu sonhava com um mundo onde ninguém, em hipótese alguma, falasse sobre o tempo. Escrevia contos em que um sujeito mal terminava de pronunciar “que chuva, heim?” e um piano estraçalhava-se sobre sua cabeça. Se algum idealismo eu já tive, foi esse: tornarmo-nos adultos sem nos entregar à comodidade do lugar comum, viver a vida sem embolorá-la no mormaço do dia-a-dia.
Para quem não acredita em Deus, como eu, abandonar a infância implica a incontornável convivência com o absurdo. Que da água e dos minerais tenham surgido protozoários, cachalotes, eu e você, não é o mais lógico dos acontecimentos. Que das muitas relações sexuais de seu pai e sua mãe, justamente naquela lá, um óvulo tenha sido fecundado e dado início à sua existência - que sorte, não? (Quantos possíveis eus não terminaram em absorventes íntimos ou lenços de papel, no fundo de uma lata de lixo?).
A falta de sentido não me levava, contudo, ao niilismo. Pelo contrário. Já que era tão improvável estarmos aqui, tudo era valioso e, fundamentalmente, engraçado. Não tive um Deus para ordenar-me a realidade, mas as piscadelas cúmplices de Julio Cortázar, Woody Allen, Campos de Carvalho, Monty Python e outros artistas, de dentro de seus livros e filmes, tornaram mais fácil a aceitação e mais intensa a fruição dessa maravilhosa barca furada.
O que mais me angustiava na adolescência não era, portanto, a percepção do absurdo, mas como os adultos pareciam não se dar conta da estupenda improbabilidade de estarmos aqui por esse breve período, tendo ao nosso dispor o sexo, o baião, o bife de chorizo e - mais recentemente, que maravilha! - as cervejas artesanais. Eu os observava comentando a reforma da portaria do prédio ou aflitos com as parcelas do sofá e desejava que aquele piano caísse dos céus: a vida passava e eles não se davam conta.
Semana passada, quando soube da morte de J. D. Salinger, reli O apanhador no campo de centeio. A história de Holden Caultfield tocou-me mais do que da primeira vez que a li, aos quatorze. Talvez porque agora o adolescente revoltado com a falta de sentido da vida e a hipocrisia dos adultos não tenha encontrado em mim um cúmplice, mas um inimigo. Hoje, aos trinta e dois anos, quando fecha-se a porta do elevador e o silêncio toma aqueles três metros quadrados, eu viro para o vizinho e digo: que chuva, heim? Tenho trabalhado muito, me afligido com as contas e faz tempo que não faço um jantar para o meu amor. É preciso abrir os olhos, enquanto é tempo. Para isso servem os livros, para caírem sobre nossas cabeças como pianos e estraçalharem, mesmo que temporariamente, tudo o que não for fundamental.
Obrigado e adeus, Salinger.
25.01.10
Se o mundo fosse justo, o trocadilho teria seu lugar no panteão das criações humanas. Ficaria abaixo dos sonetos e das sinfonias, sem dúvida, mas acima dos provérbios e das palavras cruzadas. Infelizmente, tido como artifício banal, peixe abundante no vasto lago do pensamento – espécie de lambari do intelecto - o trocadilho é tratado com desprezo. Desdenhado pela maioria dos poetas e escritores, sobrevive apenas à sombra das máquinas de café, na firma, no papo dos donos de churrascaria e – mistério dos mistérios - nas fachadas de pet shops.
Por alguma razão, seres humanos que vendem produtos para animais de estimação têm uma compulsão por jogos de palavras nos nomes de seus estabelecimentos: AUqueMIA, AmiCÃO, CÃOgelados, SimpatiCÃO, Oh my dog!, CÃOboy, Pet&gatô, por aí vai.
Diante desses e de outros exemplos - que encontram-se em todo o território nacional, como provam as fotos no blog http://trocaodilho.tumblr.com – o leitor pode achar que nós, apreciado-res da “poesia de ocasião”, estamos contentes. Muito pelo contrário.
O trocadilho com T maiúsculo não é uma simples molecagem com sílabas. Ele cria um terceiro sentido, maior do que a soma de duas palavras. “Wim Wenders e aprendendo”, por exemplo, retira toda a graça do fato de os filmes do diretor alemão serem muito cabeças e, convenhamos, um pouco chatos. “A justiça farda, mas não talha”, escrito durante a ditadura, por Millôr Fernandes, trazia nas entrelinhas a ideia de que a censura podia até maquiar as aparências, mas não conseguiria evitar que a arte brotasse por aí. Já “guacamole em predra dura, tanto bate até que fura”, embora possa criar um sorriso maroto no rosto do infeliz que imagina o Atlântico transformado em pasta de abacate, não significa absolutamente nada. É só uma firula fonética, como Oh my dog ou uma criança dizendo patapatapata.
De todos os pet shops que já vi, um, no entanto, mereceu meu respeito. Fica na Av. Santo Amaro e chama-se Amaro’s Bichos. Veja que beleza, a introdução de um único apóstrofo antes do S é suficiente para o surgimento de tantos significados. Funciona em inglês, em português, resume a essência da loja e sua localização. Deviam criar para o dono da Amaro’s Bichos um cargo de analista para nomes de estabelecimentos dedicados aos animais. MaluCÃO? Licença negada. CÃO de mel? De jeito nenhum. HomeoPATAS? Talvez, vamos ver.
E já que entramos no terreno dos trocadilhos bilíngües, gostaria de expor um, de minha lavra. Surgiu quando eu descobri que jogo de palavras em inglês é pun, e pode ajudar a todos que, como eu, são repreendidos ao soltarem algo como “Wim Wenders e aprendendo”, numa mesa de bar. Basta encarar seus detratores e dizer, com falso arrependimento: “desculpa, pessoal, soltei um pun”.
11.01.10
Você não acha estranho que existam os outros? Eu também não achava, até anteontem, quando tive o que, por falta de nome melhor, chamei de SCA - Súbita Consciência da Alteridade.
Estava no carro, esperando o farol abrir e comecei a observar um pedestre, vindo pela calçada. Foi então que, do nada, senti o espasmo filosófico, a fisgada ontológica. Simplesmente entendi, naquele instante, que o pedestre era um outro: via o mundo por seus próprios olhos, sentia um gosto em sua boca, um peso sobre seus ombros, tinha antepassados, medo da morte e achava que as unhas dos pés dele eram absolutamente normais - estranhas eram as minhas e as suas, caro leitor, pois somos os outros da vida dele.
O farol abriu, o pedestre ficou para trás, mas eu não conseguia parar de pensar que ele agora estava no quarteirão de cima, aprisionado em seus pensamentos, embalado por sua pele, tão centro do Cosmos e da Criação quanto eu, você e sua tia avó.
Sei que o que estou dizendo é de uma obviedade tacanha, mas não são essas verdades as mais difíceis de enxergar? A morte, por exemplo. Você sabe, racionalmente, que um dia vai morrer. Mas, cá entre nós: você acredita mesmo que isso seja possível? Claro que não! Afinal, você é você! Se você acabar, acaba tudo e, convenhamos, isso não faz o menor sentido.
As formigas não são assim. Elas não sabem que existem. E, se alguma consciência elas têm, é de que não são o centro nem do próprio formigueiro. Vi um documentário, ontem de noite. Diante de um riacho, as saúvas africanas se metiam na água e formavam uma ponte, com seus próprios corpos, para que as outras passassem. Morriam afogadas, para que o formigueiro sobrevivesse.
Não, nenhuma compaixão cristã brotou em mim naquele momento, nenhuma solidariedade pela formiga desconhecida. (Deus me livre, ser saúva africana!). O que senti foi uma imensa curiosidade de saber o que o pedestre estaria fazendo, naquele momento. Estaria vendo o mesmo documentário? Dormindo? Desejando a mulher do próximo? Afinal, ele estava existindo, e continua existindo agora, assim como eu, você, o Bill Clinton, o Moraes Moreira.
São sete bilhões de narradores em primeira pessoa, soltos por aí, crentes que, se Deus existe, é conosco que virá puxar papo, qualquer dia desses. Sete bilhões de mundinhos. Sete bilhões de chulés. Sete bilhões de irritações, sistemas digestivos, músicas chicletentas que não desgrudam da cabeça e a esperança quase tangível de que, mês que vem, ga-nharemos na loteria. Até a rainha da Inglaterra, agorinha mesmo, tá lá, minhocando as coisas dela, em inglês, por debaixo da coroa. Não é estranhíssimo?
04.01.10
No último domingo, meu pai me telefonou. Fiquei contente, não só porque ele mora em Floripa e sinto saudades, mas por saber que uma ligação sua nunca é para tratar de assuntos sérios. Meu pai desistiu de falar sério lá por 1991. No começo, eu briguei com ele, achava que era preciso falar sério de vez em quando. Hoje, já não tenho tanta certeza e quando vejo o prefixo 48 no meu celular, abro um sorriso, esperando ouvir sobre uma partida incrível do Figueirense, no estádio da Ressacada, uma versão engraçada do jogo Tetris, que ele encontrou na internet, ou uma nova teoria que ele vem desenvolvendo, lá na varanda dele, de frente para o mar. No último domingo, era teoria.
Começou, como de costume, com uma frase pouco razoável, dita com a maior naturalidade: “Telefone é uma invenção que não deu certo”. Conhecendo bem meu pai, sabia que meu papel era demonstrar assombro, talvez até uma ponta de indignação, para que ele desse seqüência ao raciocínio: “Como assim, não deu certo, pai?!”. Calmo e seguro, ele continuou. “Telefone fixo, desses presos na parede? Não deu certo! Em primeiro lugar, a chamada nunca era pra quem atendia. Ficava aquela gritaria: “cadê fulano? Alguém viu fulano?”. Ou fulano tinha saído, ou tava “ocupado” – era o que a gente dizia quando alguém estava no banheiro. Aí, tinha que anotar o recado, a BIC não funcionava, o bloquinho havia sumido... Esquecia-se de dar o recado. Cada briga que dava por conta de recados não dados! Divórcios, até. Sem falar naquele fio enroladinho, cruzando a sala, só pra gente tropeçar. Mas pior que tudo, meu filho, era telefone com mau hálito. Lembra? O bafo que saía por aqueles furinhos! Um bafo de avô, não, de tio avô! Tio avô dos outros! Ainda bem que em dois, três anos, ninguém mais vai ter telefone fixo!”.
Quando meu pai terminou, sugeri que escrevesse essa crônica. “Não, filho. Escreve você. Presente de natal”. Aceitando-a, perguntei se havia outros objetos cuja obsolescência ele percebera, lá de sua varanda. “Não é bem objeto, mas tem o hino nacional. Só serve pra duas coisas: humilhar jogador de futebol e ferrar vestibulando. Tinha que trocar por Aquarela do Brasil. Imagina só, que beleza? Outra bobagem que precisa acabar é minuto de silêncio. Banalizou. Hoje em dia, morre o avô do ex-conselheiro da portuguesa, o primo do gandula, todo mundo tem que ficar quieto? Um absurdo!”. Agradeci. Desejamos feliz natal e desligamos, contentes com a conversa.
No dia seguinte, havia um recado no meu celular, bem ao estilo do meu pai, sem oi ou qualquer apresentação: “E aquelas três ligações pra Cachoeiro do Itapemirim, de R$ 16,58 cada, que a Dona Lurdes jura não ter ideia de quem fez?! Ainda dá tempo de botar na crônica?”.
14.12.09
As grandes ideias da humanidade não foram criações individuais, estalos de sábios isolados em suas cavernas ou gabinetes. O zero, o monoteísmo, a escrita, são iluminações coletivas, chamas oriundas da fricção de pensamentos distintos, em áreas de intenso tráfego humano. E qual ocupação mais obriga o indivíduo a chocar-se, diuturnamente, com todas as esferas do pensamento? Taxista, evidentemente. Eis porque o Seu Araújo, motorista com ponto ali na esquina da Monte Alegre com a Wanderley, é a pessoa mais criativa que eu já trombei nesses trinta e dois anos sobre a Terra.
De manhã é uma freira pra Casa Verde, depois o delegado, pros lados do Tucuruvi, então os estudantes de agronomia, aparentemente amaconhados, indo pro Sumarezinho, onde entra o atacadista coreano, atrasado para o jantar de fim de ano com seu grupo de night bikers. De cada um, Araújo retém uma gota, que deságua no vasto oceano de seu pensamento. Seu táxi é uma Mesopotâmia sobre rodas, Alexandria com faróis de milha, oráculo de Delfos cheirando a sachê de pinho.
Ontem, Seu Araújo levou-me de Pinheiros a Perdizes. Estava desanimado com o movimento nesse fim de ano. “É a crise”, eu disse. “Tsc tsc”, ele fez e, olhando-me como se eu fosse um desinformado, soltou: “o natal tá acabando”. “Como?!”. “Acabando. Em cinco, dez anos, no máximo, não vai mais ter nada disso de árvore, Papai Noel, presente... Vai ser que nem esses feriados que ninguém sabe a razão.” Eu quis saber por que, mas ele já havia mudado de assunto – e de humores. Indignado com o escândalo dos panetones, Seu Araújo deu-me a solução para todos os males nacionais: “Tinha que fazer uma revolução francesa. Sabe como é? Pega todo mundo que tá no poder: corta a cabeça. Bota uma turma nova. Aí, no que eles acostumam, decepa outra vez. Traz um pessoal diferente, vai cortando e trocando, cortando e trocando, que é pra não acomodar. Cê não acha que resolvia?!”.
De violência o papo descambou pra terrorismo, e foi aí que meu amigo contou-me que os atentados de onze de setembro nunca aconteceram. “Você conhece alguém que morreu lá?”. “Não, mas foi nos EUA, então é normal que...”. “Não conhece, né?!”. “Não”. “Tá vendo? Faz oito anos que eu pergunto, ninguém conhece! É efeito especial. Imagina se prédio cai retinho, daquele jeito...” O Bin Laden foi criado num computador, assim como a Xuxa, ele jurou de pés juntos, já no fim da corrida. “Tenho um cunhado que dirige uma van no Projac. Sabe tudo. Pô, a mulher taí desde oitenta e pouco, com a mesma cara?! O mesmo corpo?! É coisa daquele Hans Doner, computador! Ou cê acha que não?!”.
Eu? Quem sou eu, Seu Araújo? Trabalho sozinho, fechado em meu escritório e não sei nada das coisas desse mundo.
30.11.09
Deu em todos os jornais: o brasileiro está mais alto e mais gordo. E eu que, infelizmente, fiquei apenas mais gordo, estou sentindo-me diminuído. O compatriota tem 1,70, em média; tenho só 1,69 - todos os dias. Tudo bem, tudo bem, o brasileiro está feliz da vida e não serei eu, o baixinho-nervoso, a estragar sua alegria.
Por que a alegria? Ora, o brasileiro não está só crescendo e engordando, mas comprando carros e casando-se adoidado. Segundo as montadoras, de janeiro a outubro, foram mais de dois milhões e meio de automóveis vendidos. De acordo com o IBGE, no ano passado, houve 959.901 uniões registradas. Sem contar as não registradas, como a minha: posso ser baixinho, nervoso e barrigudo, mas consegui amasiar-me com uma brasileira muito jeitosa, na média da estatura nacional e um pouco abaixo do peso - embora reclame constantemente de umas gorduras localizadas não sei onde, pois nunca vi.
Com sobrepeso e o peito cheio de amores, era bom que o brasileiro cuidasse do coração - e ele cuida. Em 1989 (aquele ano em que o brasileiro cometeu um de seus maiores descalabros, elegendo o Collor), 31% do pessoal era fumante. Hoje, menos de 16% tem que se aglomerar nas calçadas, nos topos dos prédios e estacionamentos, em busca de um pedaço de céu para espraiar suas fumacinhas. Como consequência, o coração do brasileiro enfarta muito menos do que há vinte anos.
Cardiologistas comemoram, mas endocrinologistas desesperam-se: nunca o brasileiro sofreu tanto de problemas relacionados a diabetes. Essa quantidade de biscoito recheado, calabresa acebolada e Fanta Uva com Fandangos uma hora iria dar problema. Era o que dizia a mãe do brasileiro, mas o brasileiro ouve a mãe? Se ouvisse, a gente não tinha demorado tanto tempo para “decolar” - eis o termo do momento.
“Brasil decola”, estava escrito na capa da revista The Economist, com a imagem do Cristo Redentor subindo aos céus, não como da primeira vez, ressurrecto, mas tal qual um foguetão. (Eu, modestamente, sempre achei que aquele Cristo, de braços abertos, preparava era um mergulho na lagoa Rodrigo de Freitas, mas fiquei contente com sua versão supersônica). Com o Redentor nas alturas, nosso destino não será apenas abrasileirar o mundo, como alardeava Darcy Ribeiro, um de nossos mais entusiasmados brasilófilos , mas tropicalizar o Cosmos.
Antes de dominar a lua, contudo, o brasileiro precisa resolver algumas pendências urgentes. Segundo a OMS, dezoito milhões de pessoas ainda não têm esgoto, em nosso país. Enquanto uns decolam, outros têm que agachar-se no fundo do quintal, apoiar-se numa bananeira e fazer a mira num buraco. Complicado. Ainda mais agora, que estamos mais altos e gordos.
16.11.09
“Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?” Desde que a enquete apareceu no site do senado, faz umas semanas, evangélicos de todo o país iniciaram uma cruzada via internet, pelo direito de ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo.
Uma senhora chamada Rosemeire, por exemplo, expondo num blog seu temor de que a lei seja aprovada, disse que vivíamos “O início da Ditadura Gay no mundo!”. Pelo que entendi, Rosemeire acredita que está em curso uma batalha global, travada entre héteros e homossexuais, pela hegemonia na Terra. Hoje, os héteros estão vencendo, mas é só porque têm amparo legal para chamar os gays de viadinhos, as lésbicas de sapatonas e rir das piadas do Juca Chaves. No momento em que passarem a punir quem ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo, elas perceberão que chegou a hora, sairão todas correndo da The Week e tomarão o poder.
Imagine só, Rosemeire? Criancinhas terão de cantar Village People, na escola, enquanto assistem ao hasteamento da bandeira do arco-íris. Aos domingos, em vez de futebol, as TVs transmitirão Holiday on Ice e, com dezoito anos, os jovens serão obrigados a alistar-se no exército, fazer flexões de braço, dormir e tomar banho, uns na frente dos outros. Que horror!
Se você acha que Rosemeire exagerou, é porque não leu o blog de Rozângela Justino, cristã, psicóloga e indignada: “Se este Projeto (...) for aprovado, estaremos institucionalizando em nosso país o sistema de castas e todos aqueles que não forem homossexuais serão considerados cidadãos de segunda classe.”
Uau, Rozângela! O mundo, então, seria governado pela casta das Drag Queens? Um advogado gay, de terno e cabelo curto, seria de uma casta intermediária? E lutadores do Ultimate Fighting, viveriam de esmolas? Bem, talvez não...
Quanta imaginação têm as duas mulheres. Se seus piores pesadelos fossem filmados, seria preciso unir o talento de um Fellini com o de um Clóvis Bornay; juntar, no mesmo caldeirão, George Orwell e Andy Warhol; vislumbrar as ruas de Nova Déli sendo percorridas pela banda de Ipanema.
Se bem que... Sei lá. Pensando melhor, talvez o temor de Rosemeire e da Dra. Justino tenha algum fundamento. Veja o caso dos negros: há poucas décadas, todo mundo contava piada racista e eles eram cidadãos de segunda classe. Veio esse papo de igualdade, o que aconteceu? Um mulato chegou a presidente dos Estados Unidos!
A batalha racial já está perdida, mas a sexual ainda pode ser ganha! Basta ir ao http://www.senado.gov.br/agencia/default.aspx?mob=0, clicar em NÃO e mostrar a todos que ainda tem gente disposta a lutar por um mundo injusto, desigual e preconceituoso!
03.11.09
Dizem que otimista é o cara que vê o copo meio cheio, enquanto pessimista é quem o enxerga meio vazio. A imagem é batida, mas vem a calhar, pois não é outro o tema desta crônica senão a água. Muita água. Trilhões de litros de H2O, que serão acrescidos aos oceanos nas próximas décadas, quando as calotas polares derreterem.
Os pessimistas, claro, só conseguem ver o lado ruim da mudança climática: a morte de milhões de pingüins, focas, leões marinhos, ursos polares e a extinção de algumas espécies desconhecidas; o alagamento de certas cidades litorâneas como Rio de Janeiro, Nova York, Xangai, Veneza, Barcelona e a perda de boa parte do patrimônio histórico e cultural da humanidade; o aumento de catástrofes naturais como tufões, furacões, dilúvios, enchentes e a desgraça humana decorrente desses aguaceiros. OK. O Rio é legal. As focas e a Piazza San Marco, também. Mas focar-se (sem trocadilho) apenas nos aspectos negativos da lambança climática impede-nos de perceber outros acontecimentos maravilhosos que se avizinham. Praia em São Paulo, por exemplo.
Claro que a tese ainda não é um consenso entre a comunidade científica. Alguns estudiosos, desses que só conseguem ver a parte vazia do copo, afirmam que, por mais que a gente queime todo o petróleo existente, o aumento do nível dos oceanos será apenas de alguns metros. Cientistas de ânimo mais solar, contudo, garantem que o que conhecemos como pólo norte é, literalmente, apenas a ponta do iceberg e, se tudo der certo, antes de 2020, vai ter prédio na Berrini com vista pro mar.
Quanta coisa boa há de acontecer! Já pensou que belo cartão postal, a ponte estaiada com praia ao fundo? E seus filhos colhendo mexilhões nos pés do Borba Gato? Consigo ver, facilmente, a 23 de Maio tomada por ambulantes, vendendo óleo bronzeador, canga, Shhhhkol e Biscoito Globo. O Morumbi, com as casonas nas colinas, debruçadas sobre o mar, será a Beverly Hills paulistana. E nossos restaurantes, já tão afamados, o que não farão com peixes fresquinhos e frutos do mar, trazidos diretamente pela comunidade caiçara de Santo Amaro? O lago do Ibirapuera não teve sempre a vocação para ser a nossa Rodrigo de Freitas? E qual o sonho da Vila Nova Conceição, senão tornar-se a Barra da Tijuca?
Cruzemos os dedos, meus queridos paulistanos, pois muito em breve, quando as margens plácidas do Ipiranga ouvirem um estrondo, não será o brado retumbante de um povo heróico, mas o som das ondas quebrando na Avenida do Estado. E, nesse instante, o sol da liberdade, com seus raios fúlgidos, dourará os corpos estirados à beira mar. E ainda tem gente preocupada com o futuro. Tsc tsc...
19.10.09
Vi num programa de televisão que, entre as inúmeras melhorias necessárias para as Olimpíadas do Rio, está “a limpeza da Baía de Guanabara”. Dita a frase, a TV mostrou um sofá, encalhado num mangue: três lugares, revestimento acetinado, puxando pro lilás, com os assentos enlameados sendo disputados por dois urubus. Incrível.
Não pretendo, de forma alguma, desmerecer o Rio. Quando vi o presidente do COI tirando o cartão do envelope e dizendo Rrrio de Rrranêro, no início do mês, lágrimas cruzaram minhas bochechas, tão rápidas quanto, imagino, canoas e barcos à vela singrarão as águas da rediviva Cidade Maravilhosa, daqui seis anos e meio. A amplitude de meu desespero vai muito além das pequenas rixas regionais: como pode um ser humano, oh céus!, jogar um sofá no mar?
Todos nós já nos encontramos na rua, algum dia, com um papel de bala na mão, ou uma latinha de refrigerante, olhando em volta, em busca de uma lixeira. Muitos de nós, não encontrando nenhuma, já jogaram o papel no chão, colocaram a latinha num canto, ou ao lado de um saco de lixo – como se, durante a noite, por osmose, quem sabe, ela fosse parar do lado de dentro do plástico preto. Agora, até onde pude ver, nesses trinta e dois anos sobre a Terra, as pessoas não andam por aí com sofás velhos nos ombros. Sequer com poltronas. Nem mesmo uma almofada costuma-se levar à rua. Para se atirar um móvel ao mar, portanto, é preciso não apenas má fé, mas esforço, engenho, planejamento e trabalho em equipe.
Imagino o sujeito, lá pela quarta-feira, ligando pros amigos: “Ô Gouveia, tudo bom? É o Túlio. Seguinte, tô precisando de uma forcinha aí, no sábado, pra jogar um sofá da ponte...”; “Maravilha, Valdeci! Então sábado à tarde cê traz a Kombi do teu cunhado e a gente resolve o problema”; “Fica tranqüilo, Murilão, depois a gente volta aqui e faz um churrasquinho!”.
Sábado à tarde, os amigos se reúnem. O Valdeci com a Kombi do cunhado, o Murilão e o Gouveia cheios de entusiasmo, o Túlio pondo as Brahmas pra gelar, enquanto sua mulher orienta os homens na sala: “cuidado com o batente”, “olha o abajur, o abajur, Gouveia!”
Os amigos amarram o sofá na caçamba da Kombi – é uma dessas Kombis caminhonete - e dirigem meia hora até a ponte mais próxima. Talvez, no caminho, façam um bolão: sofá bóia ou afunda? O Murilão diz que o fogão da prima afundou, semana passada. O Valdeci comenta que a geladeira da tia boiou, já faz o que, dois anos?
Chegam à ponte. Param no acostamento. Tiram o sofá da caçamba, contam um, dois, e lá vão os... Pronto, atiraram o sofá no mar. O sofá bóia. Os três o contemplam, sendo levado pela correnteza, naquele silêncio que só as verdadeiras amizades permitem. Túlio brinca: “saravá, Iemanjá!”. Depois vão comer churrasco. Incrível.
05.10.09
A loja de artigos esportivos tem as paredes forradas por fotos de jovens correndo, escalando montanhas, remando canoas. O supermercado exibe cartazes com casais brindando, crianças babando sorvete, velhinhos comendo mamão. A confecção da esquina expõe as roupas na vitrine, em manequins, como se fosse uma turma de amigos, a contemplar a paisagem. Todo o comércio se esmera em criar um climinha em torno do seu produto, em imitar os ambientes e situações em que ele será usado: só as lojas de colchão é que não. Nesses cubos brancos, banhados a luz fria, os colchões são expostos nus, sem direito sequer a lençol, sobre camas em que ninguém dormiu nem dormirá – e isso tudo me deixa triste como o diabo.
É o colchão, não o cachorro, o melhor amigo do homem. Do colchão viemos, ao colchão voltaremos, senão na última de nossas noites, aquela que não verá aurora, ao menos ao fim de cada dia, quando, esgotados pela vigília e purificados pelo banho, sonhamos com mulheres nuas e elefantes alados - ou elefantes nus e mulheres aladas: nunca se sabe o que pode acontecer num colchão, depois que apagam-se as luzes.
O colchão é o locus do sono, do sonho, do sexo, é um bom companheiro, ninguém pode negar: por que então, ó Deus, suas lojas mais parecem consultórios dentários, templos calvinistas? Não sei. Andei pensando umas coisas aí. Talvez a intimidade entre o colchão e seu dono seja tanta que impossibilite uma ambientação verossímil. Um decorador que tentasse criar um climinha acabaria transformando o estabelecimento num sex shop ou no quarto de um estranho - e nada nos é menos íntimo do que a intimidade alheia. Daí que as lojas ficam com essa pinta de tapperware gigante, onde os colchões, pavões sem plumas, aguardam seus futuros donos em silêncio, exalando antiácaro.
Os futuros donos andam por entre as camas, apertando timidamente a espuma. Um ou outro, mais ousado, senta na beiradinha. O vendedor incentiva: “vai em frente, deita, sente as molas! E o revestimento? 100% algodão egípcio!”. O cliente sorri amarelo, não quer deitar, não quer que saibam como, de noite, sonha com mulheres nuas, elefantes alados, ou vice-versa. Não vê a hora de adotar um colchão, leva-lo dali e lhe dar casa, cama, roupa lavada.
No mundo todo é assim. Já vi lojas de colchões em Girona, interior da Catalunha, na avenida Xietu, zona sul de Xangai, em Poughkeepsie, norte de Nova York: não muda. Câmaras criogênicas, como aquelas em que os astronautas aguardam, congelados, a longa viagem de volta para casa, nos filmes de ficção científica. É a vida, sem vida. Talvez só os bares de strip e as praças de alimentação sejam lugares mais tristes do que a loja de colchões. Mas só talvez.
01.10.09
Comentário de Inês:
"Respeito seu ponto de vista. No entanto, antes de emiti-lo, convém assegurar-se do que escreve. Kindle não vem de "kind=simpático". Kindle significa: acender, estimular, incitar, despertar. Literalmente, usa-se para indicar a ação de acender o fogo. Em sentido figurado, pode significar a estimulação do intelecto, do espírito, da curiosidade, da inteligência etc..
Se você usar aquele cursorzinho prateado meio dancing-days, aplicando-o na palavra Kindle, poderá certificar-se da informação."
Pior é que a Inês tem toda razão. Sorry, pessoal.
30.09.09
Quando saiu o primeiro modelo do Kindle, um tempo atrás, a Revista do Fantástico me convidou para testá-lo.
Para quem não sabe, o Kindle é um livro eletrônico, lançado pela Amazon. Um retângulo branco, com uma tela cinza, que serve para baixar e ler obras literárias, jornais, revistas. A Oprah adora. A New Yorker detesta. Eu achei médio...
Quase
Ao começar a mexer no Kindle, lembrei-me de uma viagem aos Estados Unidos em que fui apresentado ao hambúrguer de soja. “Não é igual?”, quis saber minha irmã, vegetariana, antes que eu engolisse a primeira mordida. Era quase: tinha cara de hambúrguer, cheiro de hambúrguer, gosto de hambúrguer mas... não era hambúrguer.
O Kindle é assim. Faz um esforço danado para ser um livro mas, embora esteja mais perto do original de papel do que o bolinho de soja está para a carne, não é. Pareceu-me um objeto útil e fácil de usar, mas esse desejo indisfarçável de ser uma outra coisa me deixou desconfiado. Com uma certa pena, até, como se ele fosse um patinho feio dos hardwares, um Pinóquio dos eletrônicos, cujo grande sonho fosse ser de celulose, como seus amiguinhos que moram todos juntos, nas prateleiras.
Fui lendo um livro de Stephen King, com facilidade, mas não conseguia parar de pensar em como o Kindle era um objeto complexado, escondendo sua verdadeira condição eletrônica sob uma capa de couro, seu disfarce de livro. Até seu nome, Kindle (de kind: simpático?) parece atestar sua baixa auto-estima e o desejo de ser aceito num mundo que não é o seu.
Conforme fui virando as páginas digitais na maquininha, meu preconceito foi diminuindo. Você pode, a qualquer momento, clicar numa frase e ver o significado das palavras no dicionário. Isso é ótimo. Um clique do lado direito, a página vira. Um toque na esquerda, ela volta. Há cinco tamanhos possíveis para as letras e é possível fazer anotações, caso você seja, como eu, um grifador compulsivo.
Claro, tudo isso e muito mais pode ser feito em qualquer computador com internet ou em telefones celulares, mas computadores são muito grandes, celulares são muito pequenos. Ou seja: o grande negócio do Kindle não é uma ferramenta ou um salto tecnológico. Ele é só, simplesmente, apenas e tão somente a máquina mais parecida fisicamente com um livro que já foi inventada.
Não acredito que vá mudar o mercado editorial como o MP3 está mudando a indústria musical. Não porque tenha essas veleidades de neo-velho, de sair defendendo o cheiro do livro, o farfalhar das folhas ao serem viradas, a textura do papel sob a pele do polegar. O Kindle também tem seus cheiros, seus barulhos e tato, de forma que se os livros acabassem e todos passassem a usá-lo, em pouco tempo já haveria todo o romantismo em cima de sua tela cinzenta, sua capinha de couro, seu cursor prateado meio dancing-days.
Não consigo é imaginar uma razão forte o suficiente para comprá-lo. Levar duzentos livros para o fim de semana? Para que? Se acordar no meio da noite em Botucatu, desesperado para saber em que peça de Shakespeare um personagem diz que “há algo de podre no reino da Dinamarca” - coisa, aliás, que nunca me aconteceu -, vou ao google. De forma que, concluo, o Kindle é muito útil e completamente dispensável. Além do que, se meu tubo de xampu abrir na mala, na volta de Botucatu, prefiro perder uma edição de bolso comprada por 9,99 no sebo da esquina do que a máquina de 327 dólares. Por mais simpática que ela seja.
23.09.09
Hoje, por volta das oito e meia da noite, a vizinha do quarto andar foi vista batendo cinzas na janela. Minha mulher, a quem as bitucas incomodam sobremaneira, correu para a sala, pegou seu celular e documentou a cena.
O porteiro foi avisado, interfonou para o zelador, que ligou para o síndico, que foi imediatamente à casa da vizinha. Não revelaremos seu nome, apenas que tem vinte anos, mora sozinha e alegou inocência. Disse, em sua defesa – ou não exatamente – que muitas amigas frequentam o apartamento e que elas, talvez, joguem bitucas. Pediu desculpas e prometeu alertar as comparsas.
Desculpas aceitas. Aguardemos os próximos dias...
(E se o leitor desavisado não entendeu lhufas desse post, favor ler o texto abaixo)
21.09.09
Moro num apartamento térreo, com um pequeno quintal, cheio de plantas e bitucas de cigarro. As plantas são as mais variadas, as bitucas são todas iguais: Marlboro light, manchadas de batom vermelho, fumadas só até a metade.
Quando vim morar aqui, reclamei com o síndico. Ele escreveu uma carta, colou-a no elevador: “Caros moradores do Ed. Maria Regina: favor não atirar lixo ou demais objetos pela janela. Muito obrigado, A Administração”. Você acha que adiantou? Dia após dia, as guimbas de Marlboro Light, manchadas de batom vermelho e fumadas só até a metade continuaram a brotar, toda manhã, entre marias sem-vergonha e manacás.
Resolvemos apelar para a emoção. Escrevemos, a quatro mãos, uma segunda circular: mencionamos o risco de incêndio, o ralo entupido, o possível alagamento do quintal, da sala, a chance da água vazar para o hall, entrar no fosso do elevador e danificar o motor - já aconteceu, uma vez. A vizinha está convencida, contudo, de que meu quintal é o seu cinzeiro. Já faz quatro anos...
Não há dia em que eu não pense em quem será essa minha inimiga, invisível e incansável. Confesso que o batom me confunde. Antes de morar aqui, eu simpatizava com bitucas manchadas de vermelho. Evocavam certo fascínio misterioso e anacrônico, pensava em Ingrids Bergmans ou Marilyns Monroes, tomando bourbon e rindo alto, com os ombros de fora.
Não é o caso da minha vizinha, certamente. Não posso imaginar uma mulher daquelas concentrada numa atividade tão mesquinha como atirar bitucas num vaso de manacá. Se é para jogar alguma coisa no quintal alheio, a femme fatale ataca logo o tomateiro, como faz Marilyn, em Seven years itch.
Será a vizinha uma sociopata, dessas que vão pelo acostamento, quando engarrafa, e maltratam garçom, em restaurante? Ou será uma pobre coitada, que atira suas guimbas só de raiva, porque eu tenho um jardim, ela não tem? Por isso só fuma metade dos cigarros? Para poder jogar logo, acender outro e jogar mais uma vez?
Começo a sentir pena da vizinha. Imagino-a só, fumando pelo apartamento, de roupão e batom vermelho. (como Gloria Swanson, em Sunset Boulevard, para continuar nos exemplos cinematográficos). Talvez a guerrinha entre seus cigarros e meu jardim seja a única coisa que ela tem. Eis a grande marca que ela deixará no mundo, quando se for: uns queimadinhos cilíndricos, no meu chão de pastilhas brancas.
Pobre alma! Não posso arruinar sua vida. Pode continuar jogando, vizinha! Principalmente agora, que os manacás estão todos floridos e as gardênias, cheias de botões. Eu varro suas bitucas, no fim da tarde. Nem vou vê-las, no lixo, perdidas entre as pétalas das flores. E se pegar fogo no prédio, bom, não foi por falta de aviso...
16.09.09
(Publicado na revista Cláudia)
Evidentemente, eu nunca fui traído - chifres, brochadas, hemorróidas, não é o tipo de coisa que acontece com a gente. Mas acontece, sempre, com um primo da gente, e esse meu primo me contou, tim tim por tim tim, como foi que ele descobriu que sua namorada tinha ido para cama com um cara que não era ele, como pensou em homicídio, suicídio, depois ouviu Tim Maia por semanas a fio e acabou reconciliando-se com a vida. De forma que posso relatar às leitoras, com alguma verdade, o que se passa dentro da cabeça de um homem quando ele descobre que, do lado de fora, nasceram dois portentosos chifres.
Homicídio
Meu primo e sua namorada estavam dormindo, quando o telefone dela tocou. Ele acordou, pegou o aparelho, viu lá “Adalberto” piscando, entregou para ela. Ela desligou imediatamente. “Quem era?”. “Ninguém”. “E por que “ninguém” se chama Adalberto?”, ele insistiu, ela gaguejou, a casa caiu. A namorada do meu primo chorou, disse que o amava, que estava arrependida, mas que tinha, de fato, dado pro tal Adalberto - o mundo às vezes é muito cruel.
“Eu mato esse filho duma égua!”, gritou meu primo, minutos an-tes de expulsar a namorada de sua casa. O impulso homicida, felizmente, passou em menos de 24 horas, e a raiva foi solapada pelo total desespero, quando meu primo deu-se conta de que um filme pornô ininterrupto era projetado na tela de seus pensamentos, estrelado por sua amada e um tal Adalberto.
Suicídio
Adalberto não tinha um rosto no filme, uma vez que meu primo não o conhecia, mas seu pinto era imenso e fazia a moça gozar e gritar “meu Deus, Adal, isso é que é sexo, não aquela mixaria que eu tenho com o primo!”. Meu primo estava ferido no centro de sua masculinidade. Sentiu-se um personagem de Nelson Rodrigues, tinha ganas de sair na rua gritando “sou corno! Sou corno!”, depois tomar formicida e atirar-se de um precipício.
Tim Maia
Meu primo bebeu cachaça, ouviu “Me dê motivos” 3423 vezes, até que um dia, depois de ter derramado lágrimas suficientes para encher todas as garrafas que havia esvaziado, quando seu ego estava desidratado como uma banana passa, teve uma iluminação. Não que a dor tivesse sumido, o céu continuava carregado, mas de um buraco entre as nuvens surgiu o raio de luz, ele viu aquele mesmo filme e pensou: “Ela deu pra outro cara. Ela gozou com outro cara. E daí? Eu não sou o único homem desse mundo. Ela ama a mim, não a ele. Paciência”.
O tal do Adalberto surgira numa época em que meu primo esta-va viajando toda semana para Goiás, muito empolgado com a venda de polias para o maquinário de uma fábrica. Estava dando pouca atenção à sua namorada. Ele havia, até mesmo, ido para a cama com uma moça chamada Neiva, numa tarde, em Goiânia. E sabe o que ela representava para ele? Nada, só isso, uma moça chamada Neiva, numa tarde, em Goiânia. Se meu primo gostava da namorada, teria que perdoá-la e aceitar que ela ter transado com um cara chamado Adalberto significava o mesmo que ele ter transado com uma moça chamada Neiva. Ele teria que escolher entre seu amor e seu narcisismo, e ficou com o primeiro.
Meu primo namorou mais um ano aquela mulher. Depois terminaram, por razões internas que não vêm ao caso e nada têm a ver com o nome no celular. Meu primo diz, hoje, que acha até bom que tenha passado por isso tudo. Ele amadureceu, descobriu a dimensão trágica escondida atrás da música pop e, de quebra, ainda perdeu a barriga de tanto chorar de estômago vazio. ("Um bom pranto vale por mil abdominais", me disse). Hoje, acredita, é até uma pessoa mais serena. Mas ai se descobrir que a atual namorada o traiu: ele mata os dois! Mata, esfola e joga no rio!
14.09.09
Publicado na Revista Espresso
Quando você vai ver, seu nome está numa mesa, com uns amigos do pai da noiva que você nunca viu antes: um brigadeiro reformado, um ex-diplomata que serviu muitos anos no Laos, a esposa do diplomata e um casal de engenheiros químicos que trabalham na indústria farmacêutica.
Felizmente, todos estavam animados, empenhados em criar um ambiente agradável e não demorou para encontramos um terreno comum: viagens. Nem dois minutos depois de sentarmos, estávamos todos concordando, entusiasticamente, com a afirmação do brigadeiro reformado – Eurico, era seu nome - de que poucas coisas evoluíram tanto, nos últimos anos, como as malas. Eurico, que havia servido na aeronáutica, enumerou o que, a seu ver, foram a três grandes revoluções, nessa área: o surgimento das rodinhas, nos anos sessenta, a mudança das rodinhas da parte de baixo (o lado maior do retângulo) para a lateral, nos anos noventa e, recentemente, a introdução das rodinhas que giram. A engenheira química disse que, para ela, o aparecimento dessas malas duras, metálicas, era tão importante quanto as rodinhas, mas diante do repúdio geral dos comensais, foi forçada a recuar e admitir que a mala dura, embora importante, era um advento menor na história das bagagens.
“A história de evolução das malas é a história da evolução da democracia”, disse o ex-diplomata e, diante de nossos olhares curiosos, deu uma brilhante palestra sobre o assunto, que nos levou da salada à sobremesa, sem que percebêssemos a passagem do tempo. Há cem anos, disse ele, viagem era programa de gente muito rica, que não carregava a própria bagagem. Tinham serviçais pra isso, então levavam tudo em baús ou até caixotes de madeira, sem alça. Com a ascensão das classes populares e a extensão do lazer a amplas camadas da população, especialmente da década de cinqüenta em diante, as pessoas passaram a carregar as próprias malas. Foi aí que o mercado percebeu que era um bom negócio torná-las mais práticas. A química disse que não era coincidência, portanto, que as rodinhas tivessem surgido na década de 60, quando os baby-boomers atingiam à maioridade, e seu aparte foi muito bem vindo (acabando com a pequena desarmonia que havia, entre ela a mesa, desde o comentário sobre as malas duras). Eu perguntei se alguém sabia quando e quem havia inventado a mochila. Parecia-me coisa de americano, o ápice da comodidade e do individualismo. O engenheiro químico, que disse ser um fã de westerns, sugeriu que a mochila era uma evolução do alforje, aquela bolsa que os cowboys levavam sobre as selas de seus cavalos, e diante da discussão que iniciou-se, sacou seu blackberry para googlar “back pack”, mas foi justamente aí que começou a tocar New York, New York, o pai da noiva a tirou para dançar e fomos todos para a pista, ver mais de perto.
Ainda cruzei os quatro, outras vezes, e houve um momento em que eu, a mulher do diplomata e o brigadeiro dançamos YMCA, mas não voltamos a trocar palavras. Aquela coisa de casamento.
10.09.09
Você não acha incrível que os prédios não caiam? Existem milhões de prédios no mundo, muitos estão de pé há anos e anos, com quarenta, noventa andares, uns em cima dos outros, feitos de cimento, pedra, aço, barro: não seria nada estranho se, de tempos em tempos, algum desabasse por aí. Pegaríamos o jornal, pela manhã, e leríamos: “Edifício despenca no Chipre: vítimas chegam a oitenta”, “Síndico afirma: prédio que ruiu em Pinheiros havia passado pela revisão anual”, “Desabamentos condominiais são a oitava causa de morte, na Ásia”.
Nas matérias, peritos acusariam um lençol freático, um ataque silencioso de cupins, uma infiltração antiquíssima no banheiro de empregada do terceiro andar, então ficaríamos um pouco tristes, como sói acontecer diante das tragédias distantes, e tocaríamos a vida. Fazer o que? Prédio é arriscado mesmo, mas é o preço do progresso, como os aviões, os enlatados, as usinas nucleares, vamos que vamos.
Fico ainda mais abismado com a segurança dessas construções quando penso que não precisa fazer nada para conservá-las de pé. Máquinas precisam de manutenção. Computador precisa de manutenção. Dentes precisam de manutenção. Só prédio é que não. Basta construir e pronto. Não há que passar verniz nas colunas, todo verão, jogar cimento nas fundações, a cada dois anos ou, quem sabe, substituir os tijolos, de década em década. Pelo menos, aqui onde eu moro, nunca vi nada disso. Tem dedetização, reforma na coluna d´água, pintura da fachada, enfim, só perfumaria.
Se eu vivesse muito tempo atrás, quando ainda não existiam prédios, e soubesse que um engenheiro estava projetando essa revolucionária forma de moradia, seria terminantemente contra. Claro que não vai dar certo! Vai cair! Imagina só, se dez pessoas no último andar correm todas para o mesmo cômodo? Tragédia! Eu poria meu nome num abaixo assinado, iria para a praça fazer passeata, ergueria faixas: prédio, não!
No entanto, a idéia não só deu certo como prédio é o que a humanidade faz de melhor. Os povos acabam, morre todo mundo, sobra o que? Prédios. O que são as pirâmides, senão os prédios dos egípcios? Partenon? O prédio dos deuses. Quando queremos dizer que os Incas, Maias e Astecas eram evoluídos, mencionamos seus rituais? Sua tapeçaria? Sua matemática? Nada. Falamos, “ó lá os prediões que eles construíam, ainda tão de pé!”
As religiões são duradouras, as línguas são duradouras, a humanidade, até, é duradoura. Mais dia menos dia, contudo, voltaremos ao pó do qual viemos, com nossos deuses e nossas histórias. E se, depois de nossa extinção, alienígenas pousarem sobre a Terra, querendo saber a que se dedicava a humanidade, olharão em volta e poderão fazer uma única afirmação, com segurança: prédios.
24.08.09
Segunda de manhã, você abre o Outlook e há quarenta e dois e-mails, prestes a entrar. Quanta expectativa naqueles poucos segundos! Serão amigos do passado, que resolveram dar um alô? Aquela resposta da editora, que você espera há meses? Recados apaixonados do seu amor, que viajou a trabalho? Ou a herança milionária, de um tio avô desconhecido?
Então, como se o céu fechasse em fast foward, uma nuvem de mensagens em negrito toma sua tela, todas com o mesmo subject: “A verdade sobre o PT e os transgênicos!”. Desiludido, você percebe que, mais uma vez, foi incluído num grupo de discussão.
O texto, mandado por um tal “Rubão” - você não se lembra de jamais ter conhecido um Rubão -, traz provas incontestes de que o PT é financiado pela Monsanto e o governo Lula nada mais é do que um complô mundial para plantar soja na Amazônia. Em resposta, “Luluteca” diz que Rubão deveria tomar mais cuidado com suas fontes, pois a ONG que divulgou o texto da soja está sendo investigada pela PF por receber dinheiro das FARC, segundo alertou o pensador Olavo de Azevedo, em seu blog. “Macamargo”, a seguir, entra na briga: “Gente!!! O Olavo de Azevedo?! Todo mundo sabe que ele é da Opus Dei, da TFP e criador da lei que pretende transformar o top less em crime hediondo!” Quando você vai ver, a manhã já acabou. Decide apagar aquilo tudo, ir comer e à tarde, quem sabe, trabalhar.
Impossível. Na volta do almoço, a briga migrou para MST e Bolsa Família. Lá pelas duas e meia, o clima fica pesado. É “ignorante” pra cá, “fascistóide” pra lá, “stalinista” a torto e a direito. A turma do deixa disso entra em cena. “Marola” lembra a todos que eles estão ali para debater idéias, com respeito ao pluralismo, e não é porque uns são a favor da cadeira elétrica para menores reincidentes e outros defendem o seqüestro de celebridades que não podem tomar um chope, na quinta. Entusiasmo generalizado. Entre três e quatro horas, são trocadas vinte e seis mensagens com sugestões de bares. A facção que apoia a Vila Olímpia, contudo, entra em confronto com os frequentadores da Vila Madalena. É quando “ju.pimentel” se lança “contra tudo isso que está aí” e sugere “um boteco de verdade”, no Tatuapé.
Quinta-feira ainda chegam, aqui e ali, e-mails da turma. Você percebe que a cerveja não rolou, um filhote de labrador foi negociado na paralela e “Marola” e “Luluteca” trocam receitas de guacamole. Sexta à tarde, antes de desligar o computador, chega a última mensagem. Diz assim: “Só podia ser palmeirense, mesmo, heim, Nestor?!”. Depois disso, todos desaparecem, sem mais explicações, e você fica pensando como diabos foi parar no meio daquilo.
10.08.09
Estava ali no sofá, Coca-cola numa mão, controle remoto na outra, quando dei de cara com a lua, na TV Cultura. Uma voz seríssima - como convém aos narradores de documentários - perguntava: “de onde terá vindo?”
Ora, até aquele momento, eu pensava que a lua não tivesse vindo de lugar nenhum, simplesmente girasse ao nosso redor, des’que o mundo é mundo, a influenciar marés e poetas bissextos. Pois o homem disse que não. Houve uma época em que toda noite era escura, não havia marés nem poetas bissextos e a Terra rodava em torno do sol, desnuda de seu satélite natural.
“E aí?! E aí?!”, perguntei-me, angustiado em meu sofá, como se perdido no breu das noites primevas. Bem, não se sabe exatamente. Ou vários pedregulhos que estavam vagando por perto - serragem da criação do Sistema Solar - acabaram se aglomerando e formando a lua, ou, o que é mais provável, ela é um naco da Terra, arrancado pelo impacto de um asteróide. E esse naco, antes disforme, girou por tanto tempo à nossa volta que acabou redondo, “como um caco de vidro à beira mar.” – palavras do narrador.
Uma das missões do programa Apolo era descobrir do que a lua era feita e, assim, provar uma das teorias. Se fosse sangue do nosso sangue, seria filha do impacto. Se feita de serragem do sistema solar, a hipótese do aglomerado vencia. Pois Neil Armstrong e seus colegas trouxeram todos os pedregulhos que couberam nos porta-malas do módulo lunar, os cientistas da NASA analisaram tudo com seus aparelhos e, no fim, vieram a público dizer que, bem, não haviam chegado a uma conclusão. A lua era parecida demais conosco para negarmos que fosse nossa costela, mas diferente o suficiente para suspeitarmos que, bem, talvez não fosse.
O mais incrível, contudo, o homem de voz grave deixou para o final. Em 1969, os astronautas deixaram em solo lunar um quadradinho de cristal, menor do que uma carta de baralho. Toda noite, desde então, num vilarejo do Texas, um sujeito chamado Phil pega sua bicicleta, pedala até o topo de uma colina e puxa o gatilho de um enorme canhão de laser, mirando bem no meio do quadradinho. O laser bate lá, volta à Terra e Phil anota quanto tempo demorou. A cada dia, o raio demora mais para voltar, o que prova algo que os cientistas já desconfiavam: atraída pelo sol, a lua se afasta de nós, 1,89 cm por ano. Um dia, ela estará tão próxima ao sol que será engolida pelas chamas.
Terminado o documentário, eu estava melancólico como o diabo. No fim das contas, a lua se parece muito com outra coisa, que sabemos do que é feita, não exatamente como surgiu e só podemos afirmar com certeza que um dia acabará. Enquanto isso, brilha - dirá o poeta bissexto. Algumas noites, algumas noites...
13.07.09
Os assassinos, os molestadores, os tiranos, os que pagam as contas privadas com dinheiro público e os que empregam a família no senado; com esses não há que se preocupar, já estão na listinha que Deus e seu capataz, o Diabo, levam no bolso da frente. Há outros, contudo, mais discretos - mas nem por isso menos nocivos - que talvez passem despercebidos. Por eles elevo minhas preces: que a ira divina não os esqueça, no dia em que o céu finalmente cair sobre nossas cabeças.
Fabricantes de papel higiênico rosa: vaguai pelo além vestindo mantos de lixa, secai vossos corpos com toalhas de língua de pirarucu e limpai vossos umbigos com cotonetes de mamona, pois que menor castigo não merecem os que obrigam seus semelhantes, encurralados em cubículos fétidos, a se auto-penitenciarem com o mais torpe fruto da celulose.
Engenheiros aeronáuticos que projetastes as poltronas da classe econômica e magnatas da aviação que fumais vossos charutos comprados com a bufunfa dos enlatados passageiros: que vós reencarneis como bonsais, pois que só a vida centenária de um carvalho num vasinho de dez centímetros pode se equiparar a oito horas em vossas aeronaves.
Produtores de mostarda vagabunda, que prometeis sabor e entregais papas arenosas de amido de milho: boiai pela eternidade em oceanos de mingau, não vendo nenhuma terra firme além de icebergs de tofu, que escalareis com as mandíbulas, pois que nada nessa vida é de tanto mau gosto como falta de gosto que vós multiplicais.
Vendedores de chuveiro elétrico, que prometeis temperatura e pressão ao mesmo tempo: que a vós sejam reservados boxes de gelo nas calotas polares dos infernos, onde ficareis para sempre a girar para lá e para cá um registro, recebendo ora um fiozinho de óleo fervente no cocuruto, ora uma ducha de água fria na espinhela, pois que não existe na história da hidráulica falácia maior do que temperatura e pressão ao mesmo tempo – “a nível de” chuveiro elétrico.
Vós, que fazeis cortadores de unha que não cortam, tremei: que vossas unhas cresçam à velocidade de dez centímetros por minuto, e que não tenhais para apará-las mais do que os dentes que há na boca, e que o tempo seja inteiramente ocupado na ação de roê-las, e que sejais como coelhos com cenouras, sendo vós tanto os coelhos quanto as cenouras, pois há na vida poucas aflições maiores do que ter a unha dobrada sob a lâmina cega de vossos cortadores.
E que todos os outros, tantos outros, que tirais vossos salários do amesquinhamento do mundo, que semeais o incômodo, a frustração e a dificuldade, e que sabeis que o que fazeis é ruim: lembrai-vos da ira divina, e assustai-vos com o fogo do inferno, e arrependei-vos, pois que ainda é tempo!
Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica uma segunda sim uma segunda não na última página do caderno Metrópole
- Fevereiro 2010 (1)
- Janeiro 2010 (3)
- Dezembro 2009 (1)
- Novembro 2009 (4)
- Outubro 2009 (3)
- Setembro 2009 (7)
- Agosto 2009 (5)
- Julho 2009 (10)
- Junho 2009 (15)
- Maio 2009 (9)
- Abril 2009 (6)
- Março 2009 (3)
- mais...

Twitters 
RSS