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03.07.09

por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 17:15:19.

Quando começamos, ela era homeless. Vinha de um mestrado em terras distantes, suas tralhas estavam amontoadas numa garagem em Cotia e vivia com uma mala e um lap top, na sala de TV de uma amiga.

Por alguns meses, portanto, meu apartamento foi o cenário principal do nosso namoro. Ela chegava do trabalho de noite, dormíamos juntos e no dia seguinte partia, antes que eu acordasse. Moça independente, orgu-lhosa, levou semanas para que me concedesse a alegria miserável de um brinco esquecido, um pé de meia, uma BIC, que fosse. “Te dou uma gaveta”, eu insistia, “bota seus cremes na bancada”, implorava, tentando mostrar que, se já tinha meu amor, porque não também o apartamento? Os dois sabíamos, contudo, que era cedo para um passo tão grande, de modo que um dia, como tinha de ser, ela alugou um apartamento só pra ela.

De início, não me incomodei. Ajudei a buscar as tralhas em Cotia e até fui numa daquelas lojonas da Marginal comprar maçanetas, soquetes e quetais. Foi só na primeira manhã, quando a vi levantando-se da cama e caminhando até o banheiro, que senti penetrando em meu peito a broca do ciúme. Havia nos passos dela uma leveza inédita, como se o ar que seus pés atravessavam, no apartamento novo, fosse mais rarefeito do que o do meu quarto; seus braços pareciam balançar mais soltos, como se até então estivessem preocupados em não tocar as paredes, não resvalar nos objetos; até a camiseta de dormir parecia mais fina e solta em seu caminho da cama à pia. Percebi que em seis meses ela nunca havia se entregado a nós (eu e meu apartamento) da maneira que se entregava ao outro. Senti-me preterido, diminuído, levemente abandonado.

Nos dias seguintes, meu ciúme só cresceu. Ela preferia comprar corda de varal para ele do que ir ao cinema comigo. Se eu sugeria jantar fora ela logo propunha pedir uma pizza, para comermos ali, sentados sobre os ta-cos - dele. Quando, no fim de semana, ela recusou o convite de uns amigos para irmos à praia alegando que precisava pendurar quadros, pensei em dar o ultimato: ou ele ou eu!, mas assim que ela perguntou-me se eu tinha uma furadeira, uma lufada de alívio refrescou meu peito.

Foram mais de quarenta furos, com broca oito. Dava para pendurar estantes capazes de segurar a Britânica, a Barsa e a Mirador. Como hoje em dia, contudo, ninguém mais tem enciclopédias, os parafusos serviram apenas para pendurar quadros - e mostrar a ele quem é que mandava por ali. Até o dia, não muito distante daquela tarde, em que ela decidiu colocar os cremes definitivamente na minha bancada e fomos felizes para sempre. O apartamento, dizem, passa bem: é habitado por uma dançarina de flamenco e tem as paredes pintadas de verde claro.

 


13.06.09

por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 02:58:17.

“Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”.Os versos de Drummond me desabaram na cabeça assim que saí do elevador no andar errado, num prédio da Berrini, e dei com um piso inteiro de restaurantes; uma praça de alimentação submersa em toneladas de concreto, no centro empresarial de São Paulo.

Então assim é o mundo – pensei -, é aqui que estão as pessoas normais. As pessoas que têm emprego, FGTS, crachás, férias remuneradas, chefes que admiram e/ou detestam, colegas com quem competem e se comprazem, horário de almoço e happy hour, todo mundo, enfim, que sai de casa toda manhã para trabalhar num escritório, em vez de caminhar, só, em direção a uma edícula, no fundo do quintal.

Eu leio sobre o mundo com frequência, nos jornais. De vez em quando, leio livros sobre o mundo. Pensando bem, estudei o mundo por cinco anos, na faculdade de ciências sociais, mas raramente vou até ele, e precisei do choque daquela praça de alimentação submersa para dar-me conta de quão distante nós estávamos – eu e o mundo. Para um escritor, poucas constatações podem ser mais trágicas.

Posso me acabar de ler Shakespeare, Dostoievski, Kafka e Goethe, mas os verdadeiros Macbeths, Ivans Karamazovs, Gregors Sansas e Faustos estão entre as máquinas de café e os scanners, tiram fotinhos na portaria e alimentam as catracas com seus crachás; nos vinte andares acima daquelas bandejas, todo dia, sonhos medram ou murcham, homens competem, traem, fofocas são discretamente difundidas, alguém entregará o que tem de mais precioso em nome de uma causa; a glória e o fiasco espocam, das oito da manhã às seis da tarde. Como posso querer ser um escritor se só trato com o Ser Humano por e-mail? Se só o vejo amistoso e calmo, no cinema ou num restaurante, no fim de semana?

Voltei ao elevador decidido a raspar essa barbicha calculadamente desleixada - meu crachá de escritor, que pretende dizer, ingenuamente, “não faço parte do mundo” - e arrumar um emprego na Berrini. Pode ser de quinto auxiliar de almoxarifado ou sub-analista de cafezinho, não importa. Só preciso ter acesso ao coração do mundo. Uma vez ali dentro, ouvirei as moças falando mal do chefe na fila do Subway, descobrirei o que planejam os jovens de terno na mesa do Súbito, verei a felicidade do garoto do interior que acabou de ser contratado e o ódio de seu vizinho de baia, que não foi. Depois, e só depois, poderei voltar para minha edícula e tentar escrever algo que preste. Algo que, um dia, espero, chegue aos pés do último verso do poema de Drummond: “Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é meu coração”.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 02:53:27.

Eu tentei fazer um blog de viagem, juro que tentei, mas percebi que ou eu fazia o blog, ou a viagem. Na China era diferente. Eles falavam chinês, eu estava sozinho e, bem, minha obrigação era escrever. Aqui, minha obrigação é viajar. Sorry, folks. Vou postar umas fotos de vez em quando, mas textos mesmo, vários e vigorosos parágrafos, cheios de vogais e consoantes, travessões, dois pontos e ponto e vírgula, só lá pro fim de junho. É férias, uai!

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 02:25:21.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 01:33:51.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 01:31:16.

 


12.06.09

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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 02:33:18.

Fronteira do Colorado com Utah

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 02:23:12.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 02:20:17.

 


11.06.09

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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 12:21:13.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 12:19:33.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 12:10:31.

Henfil na China antes da Coca-cola. Nós nos Eua depois da coca china.

 


03.06.09

por Antonio Prata, Seção: Papéis avulsos 01:48:14.

Espremidos na mesinha, os heróis americanos fingem não perceber o tsunami de mangás japoneses prestes a arrebentar, ao fundo, na livraria Barnes & Noble.

Em espanhol, Budweiser, "the great american lager", comprada pela brasileira Ambev, tenta convencer os incautos de que nada está acontecendo...

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 01:35:38.

Como disse o outro: tudo muda aqui na América. Spam era um presunto que virou e-mail. Bush foi um presidente que virou feijão. Mas há quem ainda reze todo dia para que ele vire presunto.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 01:24:58.


O brasileiro não pode ver um conterrâneo e já vai logo amontoando.

 


02.06.09

por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 01:26:13.

Faz muito tempo que me pergunto por que o Brasil não faz sitcoms. Nunca nos faltaram bons humoristas na televisão: de Ronald Golias a Hermes e Renato, passando por Regina Cazé, Bussunda, Andréa Beltrão, Jô Soares, Pedro Cardoso, Chico Anísio; dava pra fazer dois times de futebol com nossos comediantes e ainda sobrava uma meia dúzia do lado de fora, comendo churrasco e fazendo embaixadinhas. Por que será então que, nos últimos quarenta anos, esse pessoal fez filmes e sketchs, novelas e paródias, fez humor político e palhaçada, foi da macaquice mais tosca à metafísica, mas nunca, ou quase nunca, aventurou-se pelo formato que, nas últimas duas décadas, representou o que de melhor se produziu em humor, no áudio-visual?

Anteontem, ao acordar e ver um post it colado no espelho do banheiro da minha irmã, entendi finalmente a razão. “Lembrar de levar o bolo!!!”, dizia o post it, com a letra do Corey, meu cunhado. Fazia uns três dias que Corey vinha falando do bolo. Era para Mrs. McCoy, professora de biologia na escola em que ele trabalha. Todo começo de ano, a escola faz um sorteio e cada funcionário fica encarregado de organizar uma “festinha” para outro, na sala dos professores. Levar o bolo era uma coisa séria. Se ele se esquecesse, seria uma grande mancada com a Senhora McCoy. Ia pegar mal lá no trabalho. Além de tudo, a senhora McCoy já tinha sido dona de uma empresa de catering, não era qualquer bolo que resolveria o problema. E nos dias em que passei em Poughkeepsie (estou agora num banco da ferroviária, esperando o trem para Manhattan), enquanto não estava dando aula ou explicando alguma coisa para seu cunhado brasileiro, Corey Gorey, professor de inglês e roqueiro, estava pensando no tal bolo.

Eis o paradoxo que os americanos vivem: para que a máquina funcione azeitadinha e ninguém atrapalhe a vida do outro, para que o republicano do Texas possa caçar e a Dominatrix de Nova York possa vestir-se de látex e o barrigudo do Iowa possa participar da corrida americana de salsichas sobre uma pista de ketchupe, sem que um atrapalhe o outro, todas as esferas da vida foram normatizadas. Não há degrau do comportamento humano ou possível situação do cotidiano para a qual eles não tenham desenvolvido um método de ação, um protocolo destinado a economizar tempo, dinheiro, neurônios e conflitos. E é do atrito entre as pulsões individuais e a opressão dessa microfísica do proceder que surge o sitcom. Ele é o happy hour, a válvula de escape que torna possível acordar no dia seguinte, estampar o sorriso na cara e levar o bolo da senhora McCoy.

Como eles fazem isso? Ironizando, subvertendo, escrutinando as mini-regras do cotidiano com as lentes do humor. No primeiro episódio de Seinfield, uma conhecida pede para hospedar-se na casa de Jerry. Ela quer fazer sexo? Ele deve colocar um colchão para ela na sala ou esperar que durmam juntos, na cama dele? Qual o procedimento padrão quando uma conhecida pede para hospedar-se na sua casa? Que sinais ela emitiu? Como analisá-los? Jerry e George passam todo o episódio discutindo o assunto.

Nós, no Brasil, não fazemos sitcom pois não existem as regras cotidianas a serem subvertidas, discutidas, ridicularizadas. Afinal, se ninguém sabe ao certo o que se deve e o que não se deve fazer nem nas maiores instituições, imagina nas festas de aniversário da firma! Ainda estamos tentando passar a reforma política e discutindo se um deputado pode ou não pode dar passagens pagas com dinheiro público para seus familiares, que pressão pode haver em torno da obrigação de se levar ou não um bolo de aniversário?

Se a espontaneidade nas relações é melhor ou pior do que o bolo pré-agendado da Mrs. McCoy para o futuro da nação é uma discussão cabeluda na qual não me atrevo a entrar. Mas, para o humor televisivo, não há dúvida de que a segunda opção foi muito mais frutífera.

* * *
No dia 19 estréia aqui Whatever works, o filme novo do Woody Allen. No papel principal (aquele que chamamos de “papel de Woody Allen”) está Larry David, o cara que, ao lado de Jerry Seinfield, criou o melhor sitcom de todos os tempos. Há uma matéria interessante sobre os dois e o humor judaico nos EUA na revista New York dessa semana.

* * *
Alguém pode argumentar que Os Normais era um bom Sitcom. É verdade. E talvez a chave para ter funcionado tenha sido focar os conflitos em torno de um casal, não de amigos ou colegas de trabalho. Afinal, entre um homem e uma mulher, mesmo na mais esculhambada das sociedades, sempre existem regras - e onde há regra, há humor.

 


28.05.09

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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 15:17:46.

Badeirola na antena de um carro, no estacionamento do Price chopper, o supermercadão da esquina.

 


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por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 15:09:10.

Antes de ser uma mensagem indesejada, o Spam era uma marca de presunto. Aí o Monthy Python fez um sketch em que o garçom anunciava os pratos: arroz com spam, carne com spam, macarrão com molho de spam, suco de laranja... com spam, e assim ia, ad infinitum. E spam virou sinônimo da onipresença indesejada. E quando começaram os "enlarge your penis" e os "buy swiss watches!" e os "a DELL está dando lap tops de graça", alguém lembrou-se dos onipresuntos e pronto, estava batizada essa praga do terceiro milênio.

 


por Antonio Prata, Seção: Crônica do Guia 14:55:07.

Kevin Ghee é um cara bem estranho. Quando o conheci, usava um colete de lã cinza sobre a camisa pólo azul, calça social, sapato preto e bigode - um bigode de velho que faz com que pareça um caminhoneiro de quarenta anos ou um gay da década de setenta, embora ainda não tenha feito dezessete e curse o último ano da escola. Suas notas não são brilhantes nem terríveis, não tem namorada, deve ser virgem e, não fosse o Clube dos Quadrinhos, não sei o que ele faria da vida. Pois Kevin Ghee é o presidente do Clube dos Quadrinhos de sua escola. Quase todos os dias, ele e uns vinte garo-tos mais ou menos nerds se reúnem para falar de quadrinhos, trocar quadrinhos, comprar e vender quadrinhos e, eventualmente desenhar quadrinhos.

(É interessante como as HQs costumam ser o refúgio de pessoas como Kevin Ghee, a quem os americanos chamam de weirdos. Talvez porque essa linguagem resuma tão bem certa resistência em crescer, um engasgo entre a infância e a maturidade. O quadrinho é um meio termo entre a narrativa totalmente visual do livro infantil e a exclusivamente verbal do romance adulto. Os nerds têm isso: uma certa infantilidade, de um lado, e uma velhice precoce, de outro, como se quisessem passar de uma margem a outra do rio sem arriscarem-se nas águas revoltas da adolescência. Já os caras que se dão bem na escola parecem ter sido moldados para a puberdade, é como se nunca tivessem tido infância e nem fossem se tornar velhos e caretas e decrépitos. Sobre isso tudo, vale a pena ver o documentário Crumb, com o quadrinista, gênio e rei dos weirdos, Robert Crumb).

Christie Mclough gosta de tirar a roupa. E como ela é uma gata de vinte e oito anos, olhos azuis, cabelo muito preto e pele muito clara, cheia de tatuagens – a irmã safada da Branca de Neve – muitos homens gostam que ela tire a roupa para eles. Gostam tanto que, hoje, Christie ganha a vida como striper e Dominatrix. Vai até a casa de uns sujeitos ricos, veste e despe fantasias de couro, látex, vinil e quetais, fuma soltando a fumaça na cara deles, às vezes dá umas chicotadas ou caminha sobre o corpo de um, com salto agulha ou coturnos, dependendo do gosto do freguês. Nenhum de seus clientes tem o direito de tocá-la, não há beijo nem penetração. (O que eles fazem com suas mãos em seus próprios corpos, bom, isso aí já é problema deles, pois cada um é cada um e vai da pessoa, como assegura a constituição americana). Com o suor do seu corpo – e, principalmen-te, do corpo de seus clientes - Christie Mclough comprou uma casa. Ela paga seus impostos direitinho, nada três vezes por semana na YMCA de seu bairro e ninguém tem nada com isso.

Philip Marvin é professor de matemática, casado, tem dois filhos, um SUV e um carro esportivo na garagem de uma das casas de subúrbio aqui de Poughkeepsie: caixa de correio com stars and stripes pintados, espetada no gramado verdinho, flores coloridas sob as janelas, chaminé saindo pelo telhado. Nos fins de semana, férias e feriados, Mr. Marvin viaja até os locais onde travaram-se batalhas importantes da Guerra Civil e participa de reconstituições. Junto a centenas ou milhares de outros homens que vieram dos Estados Unidos todo, veste o uniforme dos Yankees ou Confederados, pega em armas de mentira e refaz os movimentos de seus antepassados (ou daqueles que, por estarem diante de armas de verdade, quase cento e cinquenta anos atrás, não chegaram a ser antepassados de ninguém). Mr. Marvin gosta muito de dar aula, mas é quando fala de sua atividade, digamos, extra-curricular, que seus olhos brilham de verdade. Em julho, ele vai ao Kentuchy. Não entendi direito qual a importância da batalha que reconstituirão, só pesquei que envolverá uns índios e mustangs. Também não entendi se mustangs eram cavalos, carros ou canhões - Mr. Marvin fala meio pra dentro e muito rápido, sei que a coisa toda está sendo preparada a mais de dois anos e que custará meio milhão de dólares.

Kevin, Christie e Mr. Marvin não têm, aparentemente, nada a ver um com o outro. Cada um vive pro seu lado, fazendo o que bem entende, silenciosa e profissionalmente. E é nisso que se parecem. São os frutos da soma de liberdade individual e profissionalismo que a gente vê por todo lado que olha, por aqui. Não há atividade humana ou fantasia que não seja levada a sério, que não se torne um clube com sede, mailing, camiseta estampada, chaveiro, caneta e caneca com logotipo para ser dada no natal. Empinadores de pipa de papel de Maryland. Birdwatchers de Poughkeepsie. Casais de ursos (homens gays, gordos e peludos) swingers de Delaware. Punks mágicos do Alabama. Criadores de chiuauas de Santa Fé. Adestradores de lontras de Iowa.

Por um lado, é o mundo perfeito. Se você só é feliz vestindo-se de homem aranha (embora tenha 54 anos e seja um contador bem sucedido em Chicago) ou só goza ouvindo músicas da Disney toca-das num violoncelo, não precisa procurar um psicanalista, basta achar o sua turma. Por outro lado, é um pouco claustrofóbico. Como se toda e qualquer fantasia já tivesse a sua gaveta. É impossível escapar da grande escrivaninha chamada Estados Unidos da América. Você decide fazer uma banda de hard core chamada Fuck the world? Beleza. Pode tocar no festival nacional de bandas de hard core contra o sistema, que vai acontecer no centro americano de bandas subversivas, quarto andar, sala 23 B. (Na 23 A estará acontecendo o festival americano de bandas punk contra o sistema. Na 23 C o festival americano de bandas folk contra o sistema. Na 23 G o festival nacional de bandas Hard Core a favor do sistema. E no terceiro andar o quadragésimo aniversário da primeira equipe de vendedoras de Tupperware de San Diego).

Entre cada uma dessas bolhas, as pessoas tratam-se com uma simpatia e uma distância angustiantes. “Hi, how are you today?”, pergunta o caixa da loja da conveniência do posto onde paramos para comprar cerveja. “Fine, and you?”, eu respondo, e saio pensando no que ele pensaria se eu respondesse que contratei uma Dominatrix para fumar um charuto inteiro assoprando a fumaça no meu rosto, enquanto me espancava com as cinta ligas que foram da minha avó, ou que achei, finalmente, a edição número um do Batman em sueco, ou que dancei a noite toda vestido de couve-flor, com minha turma da Fanfarra Vegetal, ou que vi, pela primeira vez, um ganso canadense de papo marrom, raríssimo nessa região, e fui às lágrimas, porque não havia nada mais importante em minha vida, nesse momento, do que isso. Acho que não seria nenhum assombro. Mesmo os assombros já foram todos mapeados e o atendente deve ter aprendido a lidar com eles num workshop do posto de gasolina (segundo andar, sala 24 E). “Good for you”, ele diria, com seu sorriso de vaselina, e acabaria a conversa imediatamente, sem nenhuma rispidez: “Next, please?”.

 


27.05.09

por Antonio Prata, Seção: Papéis avulsos 19:10:12.

O bilhete está pregado na parede da classe, ao lado da lousa, embaixo de umas caricaturas feitas pelos alunos e do mapa do Iran, país que estão estudando em geografia: “Eu, Robyn Scarchilli, prometo solenemente não mandar mais mensagens de texto durante as aulas da bela Mrs. Mittenberg”. Robyn Scarchilli é uma baixinha ruiva e simpática que, apesar de ter sido pega usando o do celular durante as aulas, está concorrendo à presidente do grêmio na eleição de hoje. Seu slogan, “Don’t be silly, vote for Scharchilli!”, pode ser lido nas cartolinas espalhadas pelos corredores da escola Roy C. Ketchan, Poughkeepsie, onde passei toda a manhã assistindo às aulas de história da bela Mrs. Mittenberg -- minha irmã, Julia.

Uma das coisas boas de visitar os Estados Unidos é que você não se frustra: se há alguma surpresa não é por eles serem diferentes do que você esperava, mas pelo contrário, por serem mais do jeito que você esperava do que você esperava. Imagine o paradigma de uma high school: os lockers no corredor cheio de alunos, a cheer leader loira que namora o capitão do time de futebol, o nerd de óculos, cheio de espinhas, que tira as melhores notas e quase tropeça nos próprios pés, a cantina lotada de garotos e garotas bebendo leite de caixinha, o cara que puxa o boné do outro para trás e grita “loooooooooser!”; estavam todos lá, do jeitinho que eu aprendi nos filmes e nos seriados. (As duas loiras cheer leaders da classe chamavam-se Nicole e... Nicole). Só não encontrei o Marty Macfly (De volta para o futuro) porque ele está viajando no tempo, nem Ferris Buller (Curtindo a vida adoidado) porque justo hoje, vejam só, ele cabulou.

Confesso que cheguei à escola receoso. A adolescência não é uma doença da qual nos curamos por completo. Em alguma ranhura de nossos tijolos os vírus ficam dormindo e de vez em quando eles acordam, trazendo velhos anseios à tona. Quem foi nerd, mesmo que tenha tido alta, feito proezas como perder a virgindade e consiga até parecer uma pessoa normal, em público, nunca acha que está totalmente a salvo de ser descoberto e, quem sabe, tornar-se alvo de bolas de papel, ter o boné arrancado da cabeça (mesmo sem usar boné desde 1993) ou ser colocado sentado em cima do lixinho. (Nunca me aconteceu, mas já vi em algum seriado). O pessoal da Roy C. Ketchan, felizmente, era gente fina, e apenas me olhou de canto de olho, curioso, enquanto eu assistia às aulas sentado num canto.

Para entrar na escola, me deram um adesivo com meu nome e a data de hoje; um “Visitor’s Pass” que eu devia colar num lugar visível e não tirar em hipótese alguma. Se um estranho é visto pelos corredores sem identificação, alguém pode se assustar e dar o alerta: “stranger, danger! Lockdown!”. Os professores, então, devem trancar as portas das classes, apagar as luzes e fazer com que todos os alunos deitem-se no chão, longe das portas. Situações como a de Columbine ainda deixam todos assustados. Uma vez que você tem o adesivo no peito, contudo, professores e alunos são todos sorrisos. Devo ter ouvido “nice to meet you!” e “are you enjoying it here?” umas vinte e duas vezes.

Pelos corredores, os nomes dos candidatos escritos nas cartolinas davam uma boa idéia de quem são os Estados Unidos que elegeram Obama, e como foram cegos os republicanos ao apostar que “the good old white America” elegeria MacCain. Kevin de la Rosa. Michael Uloo. Jenifer Hernández. Jenny Chen. Patricia Wee. John Kazaburo. Adam Saad. Manaf Manam. Apenas um terço dos alunos, ns cinco aulas que assisti, passaria num teste para fazer figuração numa propaganda de natal do shopping Iguatemi. Havia muitos negros e mulatos, muitos latinos, orientais, um ou outro árabe ou indiano. Dentro da sala 129 da RCK, pelo menos, os EUA não me pareceram aquele horror de frieza e segregação de que nós costumamos acusá-los. Muito pelo contrário. Vi uma orquestra de mais de vinte pessoas ensaiar um jazz na sala de música. Caminhei pelo palco do teatro – aquele palco em que as crianças apresentam peças de fim de ano, fantasiadas de árvore ou flor, nos filmes --, vi os jogadores de futebol americano correrem em volta do campo, vestidos de vermelho, os jogadores de baseball lançarem e apanharem bolas, logo ao lado, vi casais se beijando pelos corredores e depois disso tudo confesso que, mesmo fazendo um esforço para enxergar o Elefant, o Juventude Transviada ou Beleza Americana por trás da superfície de Grease ou Anos Incríveis, continuei com uma ótima impressão. Os tacos de baseball, a lousa digital que abria e fechava programas de computador ao toque da Julia, o fagote, os trumpetes e os tímpanos da orquestra, a pesada cortina de veludo do teatro, tudo aquilo é público, pago pelo dinheiro do contribuinte e está disponível para qualquer americano.

Numa das aulas, Julia me mostrou dois alunos. Os pais do primeiro, um loiro de cabelo quase branco, escorrido sobre os olhos, são viciados em cristal meth (pílulas caseiras de meta anfetamina) e perderam todos os dentes - tragédia total. Os pais do outro, que eu não soube decifrar se era descendente de índios americanos, de chineses ou mexicanos, são professores em Vassar, a bela faculdade aqui ao lado onde - como lembrou-me a leitora Dorina -, estudou a poeta Elizabeth Bishop. Os dois garotos estavam ali, lado a lado, recebendo do Estado - e da bela Mrs. Mittenberg - a informação de que os Fenícios inventaram o vidro, o império Gupta criou o zero, que ao movimento no qual estavam inseridos Galileu e Leonardo da Vinci deu-se o nome de humanismo e a abertura que acarretou no desmantelamento da URSS chamaram de Perestroika.

Julia (Mittenberg é seu nome de casada) tentou minar meu otimismo, dizendo que os filhos de famílias ricas e cultas costumam ir muito melhor do que os de pais que não lêem nada nem incentivam os estudos dos filhos. Beleza, é mesmo difícil preocupar-se com que porra fizeram os Fenícios sei lá quantos séculos antes de Cristo quando seus pais banguelas não dormem desde domingo, mas entre os progenitores junkies e os catedráticos de Vassar há uma massa volumosa feita de Ferris Bullers, Martys McFlies, Kevin Arnolds e Robyns Scarchillis que terão a chance de chegar aos dezoito podendo escolher se querem tocar fagote, bater bolas com um taco ou estudar a fundo o comércio mediterrâneo na antiguidade. Convenhamos, é de se tirar o chapéu.

 


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Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano, míope, meio intelectual, meio de esquerda e publica um domingo sim um domingo não na última página do caderno Metrópole





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